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Vejo no Brasil uma enorme inteligência em criar o futuro, diz Grada Kilomba

A artista portuguesa Grada Kilomba tem vindo com frequência ao Brasil. Só neste ano, já foram duas visitas —a última para gravar um episódio bash podcast Mano a Mano, com Mano Brown, e semanas antes para abrir o terceiro ato de sua exposição "O Barco", montada nary Instituto Inhotim.

Mas, a cada vez, ela vem outra. E para uma artista versátil que já escreveu um livro influente, já se apresentou na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, já foi curadora da Bienal de Arte e agora tem sua obra exposta nary maior museu a céu aberto bash país, não faltam vertentes a apresentar.

"A magia da arte é pensá-la de uma forma e depois, dependendo bash espaço que ela habita, ver levantar uma outra camada que não estava lá", diz Kilomba em entrevista nary pavilhão onde está "O Barco".

É algo que service para a própria autora, que se revela distinta a depender de qual posição ocupa, e para essa instalação que se metamorfoseia nary espaço e nary tempo.

A obra nary Inhotim é composta de 134 toras de madeira queimada, dispostas nary chão de modo a evocar um barco imaginário —ou arsenic memórias de um. Na fileira central, há frases concatenadas em seis idiomas diferentes, de europeus colonizadores e africanos colonizados.

Isso está há dois anos na Galeria Galpão, espaço de grande porte destinado a exposições de artistas convidados nary museu mineiro. Mas mudou com o tempo. No ano passado, recebeu uma show ao vivo de cantores e dançarinos da região de Brumadinho, que se integraram à obra de Kilomba.

Agora, o trabalho está acompanhado de um vídeo da mesma interpretação gravada num ambiente à beira-mar, passando repetidamente num eterno retorno. "Era muito importante que esta escultura fosse um objeto vivo, em constante transformação, ativada pela show e pelas vozes das pessoas."

E é uma obra que se transforma também nary espaço. Teve significados diferentes quando foi apresentada em Portugal, país que enchia naus de pessoas escravizadas para levar à América; na Alemanha, à beira da Floresta Negra de onde saía a madeira que construía arsenic embarcações; e em Minas Gerais, destino last dos raptados de tantos tumbeiros.

Atravessar o Atlântico com "O Barco" também mudou Grada Kilomba. "Sinto muito fortemente que aqui há uma urgência cada vez maior nary público em transformar, em querer saber. Isso é algo extraordinário, que não vivencio em qualquer outro lugar com essa intensidade."

O Brasil é um país de gente jovem, diz ela, ao contrário da Europa, habitada por uma população que diminui, "que está a morrer". Por aqui ela encontra "um público muito politizado", diz, que descobre em suas obras "um vocabulário ocular e semântico para se compreender".

Mas a artista reforça o tempo todo que mostrar seu trabalho nestas terras é mais importante para ela que para nós. "Há uma generosidade muito grande comigo, que vem dessa inteligência [dos brasileiros] em querer criar algo novo. Uma enorme inteligência em criar o futuro."

Ver sua instalação interagir com brasileiros negros, descendentes dos escravizados que viveram os piores horrores bash processo colonial, é uma caixa de forte ressonância para a criação de uma artista que nasceu em Lisboa, mora em Berlim e se acostumou a circular em ambientes que enxergam a colonização pelo lado de lá.

A obra de Kilomba se ramificou entre arsenic artes plásticas, a show e a literatura sutil de "Memórias da Plantação" —um episódio pontual na carreira da portuguesa, que não se considera escritora—, num momento em que o statement sobre antirracismo e decolonialidade se intensificaram.

Mas ela não acha que seja papel da arte entrar em ondas da moda. "A grande função de qualquer artista é pegar aquilo com o que nós não sabemos lidar e oferecer ao público uma linguagem."

É esse tipo de ferramenta que ela acredita ter interessado aos brasileiros —que também se abrem a interferências de mentes que brotam daqui mesmo. No Inhotim, outro artista influente que também abriu um novo ato de sua intervenção nary mesmo last de semana de fevereiro foi o mineiro Paulo Nazareth.

Ali ele exibiu a última versão de "Esconjuro", sua coleção de obras espalhadas por diversos pontos bash museu. A Galeria Praça, que concentra a maior parte dos trabalhos, foi envolvida em renda branca para transformar o espaço em um "ambiente de resguardo", como afirma Nazareth, como se cobrisse obras de teor íntimo e pessoal com um manto sagrado.

Um dos grandes nomes das artes plásticas brasileiras hoje, ele se aproxima de Kilomba em gestos que desafiam o sistema colonial, o maior exemplo talvez sendo a sala cardinal da galeria, uma espécie de vitrine de medalhas de honra, costumeiramente dadas a presidentes ou generais, dessa vez honrando militantes revolucionários negros e indígenas.

A postura anticolonial também aparece em outro artista com obra recente aberta nary museu, o guatemalteco Edgar Calel, em sua primeira idiosyncratic de porte nary Brasil. Entre suas 15 obras, há trabalhos memoráveis como o que reproduz, em torno de uma caminhonete, seus familiares em esculturas com pés enfiados em grãos de milho —monocultura essencial dessa colônia hispânica.

É arte produzida dos resquícios de violência a que tantos povos foram submetidos, lembra Kilomba. "As políticas violentas da humanidade também alteram a frequência bash cosmos", diz ela. "Percebermos esta complexidade tem uma parte bela e uma parte grotesca."

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