Victor fazendo coração com a mão em sua taqueria

Crédito, Giovana Romano

Legenda da foto, Victor Villa foi convidado por Bad Bunny para participar do show no Super Bowl
    • Author, Giovana Romano Sanchez
    • Role, De Los Angeles para a BBC News Brasil
  • Há 8 minutos

  • Tempo de leitura: 5 min

Foram só seis segundos. O tempo de a câmera mostrar o cantor Bad Bunny entregando uma bebida para um homem atrás de uma chapa com o letreiro "Villa's Tacos" em azul.

A cena rápida passou no começo do show do artista portorriquenho no intervalo do Super Bowl, a final da liga de futebol americano que aconteceu no dia 8 de fevereiro. Mas foi o suficiente pra encher um bairro inteiro de orgulho.

Em algumas partes de Los Angeles, na Califórnia, dava até pra ouvir gritos vindos das casas.

O homem atrás da chapa de comida é Victor Villa, filho de imigrantes mexicanos que, em 2018, abriu o próprio negócio em Highland Park, leste de Los Angeles.

Victor é cria do bairro, passou a infância e adolescência ali. O local sempre foi uma área culturalmente rica, conhecida por seus murais coloridos e coletivos de artistas. É um bairro de imigrantes latinos da classe trabalhadora.

Na época em que Victor era adolescente, Highland Park também era um lugar perigoso, de gangues violentas, mas ele nunca se envolveu com esses grupos.

O negócio dele era empreender — e fazer festa.

Desde pequeno, fazia bicos cortando grama pros vizinhos. Aos 15 anos, organizou a primeira festa. Segundo a mãe, Marilu Villa, a irmã mais velha ficou apreensiva, achando que não ia vir ninguém.

"De repente, tinha uma fila de táxis na porta de casa deixando gente que ninguém nunca tinha visto".

Victor ganhou dois mil dólares naquele dia. E viu ali uma oportunidade de negócio.

Depois de estudar administração de empresas na universidade estadual da Califórnia, Victor voltou a promover festas, cada vez mais elaboradas.

Ele também começou a trabalhar em restaurantes. Primeiro como garçom e depois como maitre de um famoso chef de Los Angeles. Além de saber como produzir eventos, agora ele também entendia de gastronomia.

Em 2018, ele decidiu juntar esses dois mundos num negócio próprio. Iria vender comida, mas com a alegria de uma festa.

"Hospitalidade sempre foi a minha especialidade", disse ele à BBC News Brasil.

"Eu consigo fazer você se sentir bem até mesmo te oferecendo um copo d'água. Eu faço você pensar que é o melhor copo d'água que você já tomou na vida."

Tacos azuis no quintal da avó

Imagem de pessoas trabalhando no Villa's Tacos

Crédito, Giovana Romano

Legenda da foto, Restaurante cresceu com 'ingredientes de qualidade, atenção aos detalhes e muito amor'

Para começar o Villa's Tacos, Victor comprou uma chapa portátil que carregava pelas ruas de Highland Park. Àquela altura, o bairro já estava diferente: gentrificado, mais caro e menos perigoso.

Victor sempre foi apaixonado por tacos — uma comida popular de origem mexicana servida numa tortilla (especie de pão fino) feita de farinha e recheada com carne, queijo e/ou vegetais. Então, não foi difícil decidir o que iria cozinhar.

Mas para achar seu diferencial em uma cidade famosa pela gastronomia latina, ele voltou pras suas origens: provou tacos de diferentes partes do México e quando chegou a vez da tortilla azul, definiu que aquele seria seu ingrediente especial.

Ele queria criar "o taco de Los Angeles". Primeiro porque aquela versão azul não era comum na cidade. Segundo, porque é a cor do time de baseball local, o Dodgers.

A família de Victor não só incentivou o novo negócio como participou ativamente da empreitada. A avó fazia três tipos de molho pros tacos, o pai outros três e Victor fazia um.

"Tinha sempre uma competição na família pra ver qual acabava primeiro, qual era o preferido dos clientes", conta Marilu.

Uma barraca de comida montada em um quintal. Há pessoas trabalhando nas chapas e preparando comida

Crédito, Arquivo Pessoal

Legenda da foto, Villa's Tacos foi montado no quintal da avó de Victor durante a pandemia

A barraquinha do Villa's Tacos começou a engrenar no fim de 2019, com filas longas e uma clientela fiel. Mas aí veio a pandemia de covid-19 no ano seguinte, e Victor teve que guardar a chapa — por pouco tempo.

Ele logo juntou a família toda, espalhou grelhas pelo quintal da casa da avó e começou a vender tacos ali mesmo.

Além das filas enormes e do preço salgado (por volta de US$15 por três tacos), chamava atenção a animação do lugar: tinha música alta, gente dançando e carros que passavam buzinando.

Quem atendia parecia sempre disposto a um sorriso, mesmo quando era o cansaço era evidente.

'No Super Bowl nós fomos vistos'

Cena do show de Bad Bunny em que ele aparece ao lado de Victor preparando comida na chapa

Crédito, Reprodução

Legenda da foto, Victor durante o show de Bad Bunny no Super Bowl

Pouco mudou no Villa's Tacos desde aquela época. Victor saiu do quintal da avó e abriu o primeiro restaurante, em Highland Park, em 2023 — seguido de dois outros ao redor de Los Angeles e uma barbearia.

Quando fui lá entrevistá-lo logo depois do Super Bowl, encontrei uma fila gigante, música alta e o mesmo preço (agora já não tão salgado) por três tacos azuis.

Também encontrei um Victor em êxtase, dando várias entrevistas para veículos locais. E vibrando toda vez que contava a mesma história: "Em dezembro do ano passado, um amigo meu que estava fazendo a seleção pro show do Bad Bunny me ligou e disse 'Victor, o Benito quer você'. Eu não sei como isso aconteceu, eu não conheço o Bad Bunny. Ou foi por causa da comida ou por causa de todo amor que eu coloco no mundo."

A porta de entrada do restaurante estampa três grandes selos do prêmio Bib Gourmand (ou "bom e barato") do Guia Michelin, a mais famosa avaliação gastronômica do mundo.

Dentro, três troféus do concurso Taco Madness de melhor taco de Los Angeles, e uma televisão passando repetidamente o show do Bad Bunny no Super Bowl.

Victor cumprimenta, um por um, todos os clientes da fila. E recomenda sabores de taco pra quem nunca foi lá antes.

"Ele sempre foi carismático", disse a mãe.

"Mas eu não imaginava que ele estaria no Super Bowl".

No dia do show, transmitido para mais de 120 milhões de pessoas durante o evento esportivo mais importante dos Estados Unidos, Marilu conta que "chorava e ria e chorava de novo". Não só por ver onde o filho chegou, mas pelo simbolismo daquilo tudo.

Bad Bunny fez um show inteiro em espanhol, algo inédito no Super Bowl. A apresentação foi cheia de referências à cultura de Porto Rico e principalmente à cultura e à história de toda América Latina.

Ele lembrou ainda que a palavra América se refere, antes de tudo, ao continente americano e que os Estados Unidos não seriam o país que são hoje sem os imigrantes latinos e caribenhos.

"No Super Bowl, nós fomos vistos", disse Marilu.

"Porque nós somos trabalhadores. Não somos criminosos. Para mim, naquele dia, eu celebrei o amor."