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Você já acorda cansado? Este hábito comum pode estar sabotando seu sono

Acordar cansado mesmo depois de passar oito horas na cama pode ter relação com um hábito cada vez mais comum: usar o celular até os últimos minutos antes de dormir. Segundo Thiago Henrique Roza, professor doutor da UFPR com foco em dependências tecnológicas e uso problemático da tecnologia, o consumo de redes sociais à noite mantém o cérebro em estado de alerta, interfere na produção de melatonina e pode fragmentar o sono — reduzindo fases importantes do processo para a recuperação física e emocional. A seguir, veja como um hábito noturno aparentemente inofensivo está afetando o seu sono.

Você acorda cansado mesmo dormindo bem? O hábito noturno que afeta seu sono — Foto: Shutterstock Você acorda cansado mesmo dormindo bem? O hábito noturno que afeta seu sono — Foto: Shutterstock

O que as redes fazem com o cérebro antes de dormir

A luz azul das telas interfere na liberação de melatonina, hormônio responsável por regular o ciclo sono-vigília. No entanto, o impacto não se limita à iluminação. O tipo de conteúdo consumido também exerce influência direta.ciar a desaceleração fisiológica que antecede o sono.sono-vigília

“Muitos conteúdos da internet são carregados emocionalmente para chamar a atenção do público e engajar mais. Isso causa uma hiperativação neurobiológica, aumenta o estado de alerta e dificulta a transição natural para o sono.”

Como os algoritmos entregam conteúdos personalizados, o engajamento tende a ser ainda maior. O cérebro interpreta notificações, mensagens ou vídeos curtos como estímulos relevantes, prolongando o tempo de vigília.

“O nosso cérebro vai permanecer engajado, especialmente se o conteúdo consumido for emocionalmente carregado ou até algo personalizado para a gente.”

Além de atrasar o início do sono, esse estado de ativação influencia a forma como ele se organiza ao longo da noite.

 iStock Especialista explica como redes afetam o sono — Foto: iStock

Não é só luz azul: o estímulo noturno também interfere

A luz azul das telas interfere na liberação de melatonina, hormônio responsável por regular o ciclo sono-vigília. No entanto, o impacto não se limita à iluminação. O tipo de conteúdo consumido também exerce influência direta. “Vídeos curtos mantêm o cérebro em alta estimulação sensorial. Já as mensagens repercutem em circuitos ligados à recompensa e validação social, além de se conectarem ao fear of missing out (FOMO) ou à necessidade de responder.”, explica Roza.

Além do efeito biológico da luz, há uma ativação cognitiva e emocional relevante. A expectativa de interação, a comparação social e a necessidade de resposta rápida mantêm o cérebro em modo de prontidão.

“A luz emitida pelas telas inibe a liberação de melatonina. E a estimulação cognitiva emocional pode aumentar níveis de cortisol ou dopamina, influenciando nosso estado de sono e vigília.”

Outro fator, segundo Roza, é o próprio design das plataformas. “As redes sociais são desenhadas para manter nossa atenção contínua. Isso prolonga nosso estado de alerta cerebral e prejudica a indução do sono.” Quando esse padrão se repete diariamente, o problema deixa de ser apenas dificuldade para pegar no sono e passa a afetar a qualidade do descanso.

 Reprodução/Instituto do Sono Veja outros estimulos que interferem no sono — Foto: Reprodução/Instituto do Sono

Fragmentação do sono: o problema invisível

Dormir oito horas não significa, necessariamente, ter um sono restaurador. A qualidade do descanso depende da continuidade e da profundidade das fases do sono. “Tem gente que dorme 6 horas e acorda super bem, enquanto outros dormem 12 horas, mas têm um sono fragmentado e de baixa qualidade", explica o professor.

Mesmo quando o celular está no silencioso, a simples expectativa de receber uma mensagem pode manter o cérebro em estado de vigilância. Esse fenômeno é conhecido como ansiedade antecipatória — quando a pessoa permanece, ainda que de forma inconsciente, aguardando uma notificação.

“As notificações mantêm nosso cérebro ativo e expectante. Isso dificulta o relaxamento necessário para a indução do sono.”

Essas ativações geram microdespertares ao longo da noite. A pessoa pode não se lembrar de ter acordado, mas o ciclo do sono é interrompido diversas vezes. Assim, acabam comprometidas fases fundamentais do sono, em especial o sono profundo, responsável pela recuperação física, e o sono REM, ligado à regulação emocional e à consolidação da memória.

Quando essa fragmentação se torna frequente, o impacto vai além do cansaço matinal e pode se associar a quadros de ansiedade, depressão, dificuldades de atenção e até alterações metabólicas e cardiovasculares.

 Freepik Psiquiatra explica como uso das redes fragmenta o sono — Foto: Freepik

Sinais de que as redes já estão afetando seu descanso

Nem sempre o impacto se manifesta como insônia clássica. Muitas vezes, ele surge de forma gradual e menos perceptível. Um dos primeiros sinais é a dificuldade de “desligar” a mente ao deitar. O corpo pode estar cansado, mas os pensamentos continuam acelerados, especialmente relacionados a interações online, mensagens enviadas ou conteúdos consumidos minutos antes de ir para a cama.

“Acordar e logo ver o celular pode ser uma red flag.”, alerta o professor.

Outro indício comum é a checagem automática do celular durante despertares noturnos. Pequenos acordares são fisiológicos, mas, ao pegar o aparelho para verificar notificações, o cérebro volta ao estado de alerta e tem mais dificuldade para retomar o sono profundo.

Também é frequente a sensação de sono leve, como se a noite tivesse sido “mal dormida”, mesmo com horas suficientes na cama. Isso pode indicar fragmentação causada por microdespertares associados à expectativa constante de interação.

Durante o dia, os reflexos aparecem como sonolência, irritabilidade, menor tolerância ao estresse e dificuldade de concentração. Em alguns casos, a pessoa aumenta o consumo de café ou outros estimulantes para compensar o cansaço, criando um ciclo que pode prejudicar ainda mais o padrão de sono nas noites seguintes. Com o tempo, o cérebro pode passar a associar a cama ao consumo de conteúdo, e não ao descanso. Esse condicionamento enfraquece o vínculo natural entre ambiente e sono.

 cottonbro studio Especialista explica sinais de que as redes estão afetando o seu sono — Foto: cottonbro studio

O que fazer para melhorar a qualidade do sono

Para reduzir o impacto das redes sociais no descanso, o especialista recomenda estabelecer horário regular para dormir e acordar, interromper o uso de telas entre 60 e 90 minutos antes de deitar e evitar manter o celular ao lado da cama. Desativar notificações noturnas e criar um ritual de desaceleração — como leitura leve ou música tranquila — também ajuda o cérebro a entrar em modo de repouso.

“Ter um uso higiênico das tecnologias ajuda a evitar a hiperestimulação cognitiva que prejudica a indução do sono.”

Roza destaca que não é necessário abandonar completamente as tecnologias, mas estabelecer limites claros. “Não precisa ser um ermitão que exclui completamente as tecnologias, mas é importante ter controle e limites para que elas não atrapalhem nossa qualidade de vida, produtividade e relações.”

Para o professor, o caminho está no equilíbrio e na educação digital, especialmente entre jovens, que tendem a manter horários mais irregulares e maior exposição noturna às telas. A gente não precisa interromper o uso das tecnologias, mas fazer um uso educado e saudável para que elas sejam ferramentas que nos auxiliem e não nos atrapalhem.”

 Divulgação/Pexels (Kampus Production) Especialista dá dicas de como dormir melhor — Foto: Divulgação/Pexels (Kampus Production)

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