A ascensão acelerada da inteligência artificial generativa vem provocando uma reconfiguração profunda nos modelos de avaliação educacional ao redor do mundo. Ferramentas capazes de produzir textos coesos, resolver problemas complexos e simular raciocínios acadêmicos passaram a desafiar a confiabilidade de provas escritas tradicionais, especialmente no ensino superior. Em universidades dos Estados Unidos, Canadá e países da Europa, professores e gestores educacionais relatam dificuldades crescentes para verificar se trabalhos acadêmicos refletem produção autoral ou foram gerados com apoio de sistemas de IA, o que tem levado instituições a reavaliar formatos de avaliação considerados mais vulneráveis à automação.
Entenda a seguir por que as provas orais voltaram ao centro do debate internacional, quais são seus limites práticos e psicológicos e como iniciativas brasileiras têm apostado na capacitação docente como etapa essencial antes de qualquer mudança estrutural nas avaliações.
Uso de IA na educação — Foto: Imagem criada com auxilio de IA Com a ascensão das inteligências artificiais, a revalorização de métodos avaliativos presenciais, como entrevistas acadêmicas e exames orais individuais, tem acontecido em paralelo. Na Irlanda, por exemplo, autoridades do ensino superior recomendaram oficialmente a adoção de verificações orais complementares como forma de garantir que estudantes consigam explicar, justificar e defender o próprio trabalho diante de um avaliador. A medida surge como resposta direta às limitações dos modelos tradicionais em um contexto em que produzir respostas deixou de ser, por si só, evidência de aprendizagem.
A lógica por trás desse movimento é observar o raciocínio do estudante em tempo real. Diferentemente de avaliações escritas, a prova oral permite acompanhar como o aluno organiza ideias, toma decisões, reage a questionamentos inesperados e demonstra domínio conceitual - habilidades difíceis de terceirizar para um sistema automatizado. Ainda assim, especialistas alertam que o retorno a formatos clássicos não resolve, por si só, os dilemas trazidos pela inteligência artificial, nem elimina riscos como ansiedade, vieses e desigualdades no processo avaliativo.
No Brasil, embora ainda não exista uma adoção generalizada de exames orais como resposta direta ao avanço da IA, o debate começa a ganhar espaço em universidades, órgãos públicos e redes educacionais. A discussão vai além do formato das provas e passa a envolver a formação de professores, o redesenho das avaliações e o uso ético da tecnologia no ensino.
Por que universidades estão redescobrindo os exames orais
O uso disseminado de ferramentas de IA evidenciou fragilidades antigas das avaliações escritas. Trabalhos domiciliares, provas discursivas e atividades online tornaram-se facilmente automatizáveis, dificultando a verificação de autoria e de compreensão real. Professores relatam que muitos textos entregues por alunos apresentam alto nível formal, mas não se sustentam quando o estudante é questionado oralmente sobre o conteúdo.
Segundo André Gusman , CEO do Grupo Raiz Educação e especialista em IA aplicada à educação, esse cenário exige uma mudança de mentalidade. “Eliminar completamente o impacto da inteligência artificial nas avaliações acadêmicas é, na prática, inviável. A IA já faz parte do cotidiano dos estudantes e continuará evoluindo”, afirma. Para ele, o caminho mais consistente é aprender a conviver com a tecnologia, redesenhando avaliações para medir raciocínio, tomada de decisão e autoria intelectual - e não apenas a produção final.
Exemplos práticos de adoção no exterior
Em cursos de graduação e pós-graduação nos Estados Unidos, docentes passaram a adotar exames orais individuais com duração média entre 20 e 30 minutos, realizados sem o uso de dispositivos eletrônicos. O objetivo é verificar se o estudante consegue explicar conceitos, justificar escolhas e articular argumentos de forma autônoma, sem apoio de ferramentas digitais durante a avaliação.
Esse tipo de exame costuma ser aplicado como complemento a trabalhos escritos ou projetos finais, funcionando como uma etapa de validação da aprendizagem. Ao observar o raciocínio em tempo real, professores conseguem identificar lacunas conceituais e diferenciar domínio real de respostas bem estruturadas, mas superficiais — algo cada vez mais relevante em um cenário de uso disseminado de inteligência artificial.
O que a prova oral consegue avaliar melhor do que provas escritas
Na avaliação de especialistas, a principal vantagem do exame oral está na capacidade de acessar o pensamento do estudante em tempo real. Ao dialogar com o avaliador, o aluno revela não apenas o que sabe, mas como pensa, como estrutura argumentos e como reage a dúvidas e contrapontos.
“A prova oral permite avaliar com mais precisão a compreensão profunda do conteúdo, a capacidade de explicar conceitos com clareza e de justificar escolhas e caminhos adotados”, explica Gusman. “Essas dimensões são difíceis de capturar em avaliações exclusivamente escritas, especialmente em um contexto em que a IA pode produzir respostas bem estruturadas sem garantir entendimento real.” Para universidades, esse tipo de avaliação tem sido visto como uma forma de recuperar evidências mais autênticas de aprendizagem.
Ansiedade, vieses e desigualdades: os riscos do formato oral
Apesar dos benefícios, a adoção de provas orais levanta preocupações pedagógicas e psicológicas. Avaliações presenciais e dialogadas podem aumentar a ansiedade de estudantes que dominam o conteúdo, mas têm dificuldades de comunicação oral ou lidam mal com situações de pressão. Há também o risco de vieses subjetivos relacionados a estilo de fala, sotaque ou segurança emocional.
Para Gusman, esses riscos não estão no formato em si, mas na forma como ele é implementado. “Critérios claros, rubricas objetivas, exemplos prévios e transparência sobre o que será avaliado ajudam a reduzir ansiedade”, afirma. Ele também destaca a importância da padronização e da formação dos avaliadores: “Avaliações orais bem desenhadas não devem premiar apenas confiança ou fluência verbal, mas evidências claras de aprendizagem.”
É possível aplicar provas orais em turmas grandes?
A viabilidade operacional é um dos principais obstáculos à adoção ampla de exames orais. Avaliar individualmente turmas numerosas pode ser inviável sem aumento significativo da carga docente. Ainda assim, especialistas defendem que o formato pode ser escalado de forma estratégica.
“A adoção de provas orais em turmas grandes é viável se abandonarmos o modelo tradicional de bancas longas para todos os estudantes”, diz Gusman. Estratégias como provas orais curtas, avaliações por amostragem, defesas pontuais de trabalhos ou combinação com avaliações escritas permitem ampliar o alcance do formato. “O uso não precisa ser universal, mas aplicado nos momentos em que há maior risco de terceirização do aprendizado.”
Avaliações híbridas ganham força como resposta à IA
Entre especialistas, cresce o consenso de que avaliações híbridas representam a resposta mais equilibrada ao avanço da inteligência artificial. A combinação de textos escritos, projetos práticos e explicações orais distribui a evidência de aprendizagem entre diferentes instrumentos, reduzindo a dependência de formatos facilmente automatizáveis.
“Um projeto pode ser complementado por uma defesa curta ou por uma reflexão oral sobre o processo”, explica Gusman. Ele cita recomendações de organismos internacionais como a UNESCO, além de reguladores educacionais do Reino Unido e da Austrália, que defendem esse modelo como forma de aumentar a validade das avaliações sem comprometer a escala institucional.
Com a popularização da IA generativa, universidades revisitam exames orais para avaliar aprendizagem real; no Brasil, foco está na formação docente e no uso ético da tecnologia — Foto: Reprodução/Unsplash Debate institucional avança no Brasil, mas sem adoção imediata
No Brasil, a discussão sobre os impactos da inteligência artificial na educação também chegou ao campo institucional. A Comissão de Educação da Câmara dos Deputados tem promovido audiências públicas para discutir oportunidades, riscos e a necessidade de diretrizes éticas para o uso da tecnologia no ensino, reunindo educadores, pesquisadores e especialistas em políticas públicas.
No âmbito universitário, algumas instituições passaram a criar grupos de trabalho internos para mapear percepções sobre o uso de IA no ambiente acadêmico. A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), por exemplo, instituiu comissões para discutir como e quando ferramentas de inteligência artificial devem ser utilizadas ou regulamentadas em atividades de ensino, pesquisa e avaliação.
Até o momento, porém, não há registro de grandes redes de universidades brasileiras adotando exames orais especificamente como resposta direta ao uso de IA em avaliações escritas. O foco do debate nacional segue concentrado na formulação de diretrizes, na capacitação docente e na preparação das instituições para a presença crescente da tecnologia.
Formação docente ganha protagonismo no país
No Brasil, antes de mudanças estruturais nas avaliações, o foco tem sido a preparação dos professores. Educadores de escolas do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul participam de um ciclo nacional de letramento em IA promovido pelo Grupo Raiz Educação. Mais de mil profissionais já passaram por formações presenciais que combinam teoria e prática, impactando diretamente mais de 30 mil estudantes.
As oficinas abordam desde o uso de chatbots e relatórios automatizados até personalização da aprendizagem para estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou altas habilidades. “O letramento em inteligência artificial é essencial para ampliar o repertório e a autoconfiança dos educadores”, afirma Gusman. “A IA é uma ferramenta de apoio, nunca substituta da presença e do olhar humano do educado.”
Formação continuada e próximos passos
Em 2025, o grupo promoveu mais de 30 treinamentos, capacitando mais de mil profissionais da educação para compreender usos possíveis da tecnologia, dilemas éticos e estratégias de segurança. Para 2026, o foco passa a ser a aplicação prática e consistente da IA no cotidiano escolar, com estudos de caso reais, atividades aplicadas e acompanhamento contínuo.
Para Gusman, qualquer mudança nos modelos de avaliação precisa vir acompanhada de formação sólida. “Avaliar oralmente não pode ser um exercício improvisado. Os professores precisam de formação em desenho de avaliações, uso de rubricas, técnicas de questionamento e reconhecimento de vieses”, afirma. Em um cenário de IA permanente, o desafio da educação passa a ser menos tecnológico e mais pedagógico: ensinar, avaliar e formar cidadãos sem abrir mão dos valores humanos.
Box - Estudos e evidências recentes sobre avaliações e IA
Universidades em diferentes países têm revisado métodos de avaliação diante do uso crescente de ferramentas de inteligência artificial por estudantes. Relatórios, recomendações institucionais e reportagens especializadas apontam dificuldades em verificar autoria e aprendizado real em avaliações escritas tradicionais.
Na Europa, autoridades educacionais da Irlanda recomendaram oficialmente que universidades passem a adotar verificações orais complementares, como entrevistas e defesas presenciais, para confirmar se estudantes são capazes de explicar e justificar trabalhos entregues em formato escrito. A orientação foi divulgada pela Higher Education Authority (HEA), órgão responsável pelo ensino superior no país, como resposta direta ao impacto da IA generativa nas avaliações acadêmicas.
Nos Estados Unidos, reportagens especializadas indicam que universidades e professores têm recorrido a exames orais, provas presenciais manuscritas e apresentações ao vivo como forma de priorizar raciocínio em tempo real e reduzir a dependência de formatos facilmente automatizáveis. O movimento é descrito como uma reação prática ao uso disseminado de ferramentas como chatbots e geradores de texto por alunos.
Embora o debate seja mais visível na Europa e nos EUA, especialistas apontam que a discussão também começa a aparecer no Canadá e em outros sistemas de ensino superior, ainda que sem políticas nacionais unificadas.

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