Nesse quesito, o Brasil realmente deixa a desejar há décadas. Entre 1996 e 2024, o crescimento médio da produtividade foi de 0,8% ao ano, segundo dados do observatório sobre o tema mantido pelo Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas).
Mas a conclusão de que o encolhimento da jornada de trabalho sem a respectiva diminuição dos salários levaria a um inevitável tombo do PIB, por causa da nossa baixa produtividade, está longe de ser um consenso.
Ao contrário: o fim da escala 6x1 pode levar a ganhos de produtividade capazes de compensar o encarecimento dos custos de operação das empresas, avaliam economistas ouvidos pela coluna.
O potencial incremento de produtividade seria explicado pela queda das taxas de rotatividade e absenteísmo (o número de faltas), e pela indução de investimentos em tecnologia decorrentes do encarecimento da mão de obra.
"A redução do tempo de trabalho pode aumentar a produtividade por hora. Trabalhadores mais descansados conseguem produzir mais", resume o economista português Pedro Gomes, professor da Universidade de Londres e autor do livro "Sexta-feira é o novo sábado".
Docente da USP (Universidade de São Paulo), Naercio Menezes Filho segue raciocínio semelhante. "Se o trabalhador vai estar menos estressado, ele vai faltar menos, vai sofrer menos acidente", afirma.
Produtividade é maior em grandes empresas de setores avançados
A escala 6x1 é mais comum entre os brasileiros da base da pirâmide social, contratados para postos de trabalho que não exigem tanta qualificação da mão de obra.
Mas será que a produtividade dos empregados de restaurantes ou de supermercados no país, principais beneficiários das medidas em discussão no Congresso, é tão inferior à de seus colegas da Alemanha ou dos Estados Unidos?
O professor Pedro Gomes faz algumas ponderações. "Imagine um cabeleireiro que corta o cabelo com a mesma qualidade e com o mesmo tempo no Brasil e no Reino Unido. Como a economia no Reino Unido é mais rica, os salários por hora lá são mais elevados. O cabeleireiro [britânico] cobra mais por hora e, portanto, a produtividade acaba sendo maior", explica.
Em outras palavras: para medir a produtividade de um país, é preciso mirar a economia de maneira mais ampla. E é necessário um olhar especial sobre os setores de vanguarda e sobre as empresas de grande porte — os principais responsáveis pela agregação de valor ao PIB e pela elevação dos níveis gerais de produtividade de uma nação.
É nesse ponto que o Brasil fica para trás. "Não vai sair uma Apple daqui porque o país não dá condições para isso acontecer", afirma Naercio Menezes Filho. "A qualificação do trabalhador é baixa, o estoque de capital tende a ser menor porque a taxa de juros é muito elevada e as empresas não conseguem investir. É muito complicado pagar todos os impostos, tem muito subsídio, entre outros problemas", acrescenta o professor da USP.
Mesmo elencando uma série de limitações da economia brasileira, o acadêmico destaca a importância da redução da jornada de trabalho no país. "Eu sempre penso nas empregadas domésticas. Quando elas vão ter um tempo para viver, para cuidar dos seus filhos?", exemplifica.
Para o professor da USP, o incremento da qualidade de vida propiciado pela redução do tempo de trabalho também é fundamental para o amadurecimento socioemocional das próximas gerações.
"Sem o estímulo das mães, as crianças não desenvolvem as habilidades necessárias nos seis primeiros anos de vida. Quando chegam à escola, não aprendem. Isso acaba prejudicando a produtividade", avalia Naercio Menezes Filho.
Redução da jornada pode estimular reorganização do trabalho
"A redução do tempo de trabalho pode e deve vir com uma reorganização do trabalho", diz Pedro Gomes.
Ele cita o exemplo de Henry Ford, o idealizador da linha de montagem que revolucionou a indústria automobilística nos Estados Unidos, para enumerar os potenciais benefícios da diminuição da jornada.
Há exatos 100 anos, Ford criou a semana de cinco dias de trabalho por dois de descanso, com carga total de 40 horas semanais. "Antes disso, ele tinha taxas de absenteísmo diárias de 10%, e a rotação de trabalhadores era de 370% ao ano. Ou seja, os operários ficavam três meses na fábrica e depois saíam", diz o professor.
O economista português também cita a redução de jornada de 44 para 40 horas semanais ocorrida em seu país, em 1996. Segundo estudos, diz ele, o aumento de produtividade por hora resultante da reforma legislativa compensou em 80% a diminuição da carga semanal. As empresas lusitanas, no entanto, teriam se adaptado às novas regras investindo em tecnologia e otimizando o tempo de funcionamento.
Num país em que os setores do turismo e de hospitalidade têm grande força, é cada vez mais comum, por exemplo, restaurantes usando aplicativos digitais para organizar a demanda por pedidos e incrementar a produtividade.
Ainda segundo Gomes, mesmo que a redução da jornada e o aumento do custo da mão de obra gerem uma eventual retração da atividade econômica, o valor das remunerações tende a se equilibrar com o passar do tempo. "Se o crescimento do PIB abrandar, os salários também vão abrandar", projeta.
Falta de concorrência rebaixa salários
Um olhar sobre os salários também ajuda a explicar o descompasso de produtividade entre os trabalhadores brasileiros e os de países estrangeiros, sobretudo os de nações desenvolvidas.
Naercio Menezes Filho explica que, em geral, a teoria econômica associa o valor dos salários à contribuição de um trabalhador para uma empresa. Grosso modo, se um trabalhador agrega R$ 2 mil ao mês ao seu empregador, essa será a sua remuneração.
"Mas pesquisas vêm mostrando que o trabalhador brasileiro ganha metade do que ele contribui para a empresa. Nos Estados Unidos, é mais", ilustra o professor da USP.
Uma possível explicação para esse fenômeno é o chamado "poder de monopsônio". No Brasil, a concorrência entre as empresas é menor, quando comparada à de países ricos. Poucas companhias exercem uma influência no mercado muito significativa, o que gera preços mais altos a consumidores e salários mais baixos a trabalhadores.
"Reduzir a jornada, mantendo o salário, diminui essa diferença [entre o que o trabalhador de fato agrega a uma empresa e o que recebe como remuneração]", diz Naércio Menezes Filho.
O professor também cita um recente estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) para concluir que a redução da jornada de trabalho não vai necessariamente produzir uma "crise sistêmica".
A publicação estimou que o fim da escala 6x1 pode aumentar o custo da hora trabalhada entre 7,14% e 15,32% — impacto semelhante ao de aumentos reais do salário mínimo já absorvidos pelos empregadores em anos recentes.
"Podemos olhar para vários países, mas eu acho melhor olhar para o próprio Brasil, que já fez uma redução da jornada [durante as discussões sobre a Constituição de 1988]. Um estudo que fiz com coautores mostrou que não teve aumento de desemprego, não prejudicou o trabalhador", finaliza.
Reportagem
Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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