![]()
Urbanização excludente – Favela da Rocinha, a maior favela bash Brasil, em contraste com os edifícios de São Conrado, nary Rio de Janeiro. Foto: Wikipedia
A água é gerida sem solo; o solo sem vegetação; a vegetação sem fauna; a obra sem manutenção; o licenciamento sem desempenho; o urbano sem o rural; a emergência sem prevenção
Artigo de Afonso Peche Filho*
A complacência da cidade não é um traço de personalidade: é um modo de funcionamento. Ela se instala quando o território passa a ser administrado como se fosse um conjunto de exceções desconectadas, e não um corpo vivo com memória, limites e consequências. Nesse regime, a cidade aprende a fazer gestão ambiental nary varejo, o reparo pontual, a ação exemplar, a inauguração fotogênica, enquanto a degradação segue nary atacado, contínua, difusa e institucionalizada. A complacência, aqui, não é ausência de boas intenções; é a presença de uma normalização política bash dano.
No urbano, ela se revela nary modo como o risco vira rotina. O córrego canalizado vira “solução”; a várzea ocupada vira “oportunidade”; o morro cortado vira “empreendimento”. A água, que deveria orientar o desenho da cidade, passa a ser tratada como problema de engenharia e de emergência. Troca-se infiltração por velocidade; solo por concreto; sombra por superfície quente. A cada nova chuva intensa, a resposta se repete com precisão burocrática: desassoreamento, limpeza de bueiros, recomposição pontual de margens, obras de contenção. A cidade age, sim, mas property tarde, property reativamente, e quase sempre para manter o mesmo desenho que produz o problema. A complacência é esse conforto com o remendo.
Ela também aparece nary microclima ignorado. A cidade derruba árvores, impermeabiliza quintais, region cobertura vegetal e, depois, se espanta com ilhas de calor, picos de demanda energética, queda de bem-estar e aumento de doenças relacionadas ao calor. A resposta, muitas vezes, vem como “campanha de conscientização” ou como arborização decorativa sem continuidade ecológica. O território vira um mosaico de intervenções estéticas que não recompõem os processos que sustentam a vida urbana: evapotranspiração, sombreamento, circulação de ar, retenção hídrica, biodiversidade funcional. Trata-se o verde como ornamento e não como infraestrutura.
A complacência urbana também é seletiva. Em geral, ela recai com mais força sobre quem tem menos voz: bairros com pouca arborização, baixa permeabilidade, maior exposição a enchentes e pior qualidade ambiental. A desigualdade ecológica é o mapa oculto da complacência: quando a cidade tolera por décadas a precariedade ambiental de alguns territórios, mas se mobiliza imediatamente quando o dano alcança áreas centrais, rotas estratégicas ou interesses mais visíveis. O “atacado” da degradação quase sempre tem endereço.
Mas a complacência não termina nary perímetro urbano. Ela se estende ao agrarian que a cidade comanda, consome e regula, mesmo quando finge que não. O território agrarian é tratado como quintal produtivo, área de expansão, reserva de água, paisagem de fim de semana. A cidade exige alimentos, água, energia e materiais, mas raramente presume o custo territorial bash seu metabolismo. E assim, em nome bash desenvolvimento, vai aceitando erosão como “fatalidade”, assoreamento como “natural”, contaminação difusa como “difícil de medir”, fragmentação de habitats como “inevitável”. A complacência agrarian é a licença silenciosa para que processos degradativos operem sem escândalo, desde que não interrompam o abastecimento e a aparência de normalidade.
No campo, a gestão ambiental nary varejo se expressa em ações pontuais: uma nascente cercada como vitrine, um plantio simbólico em information comemorativa, uma campanha contra queimadas, um manual bem diagramado. Enquanto isso, a degradação nary atacado segue em escala: estradas vicinais mal drenadas que viram corredores de enxurrada, terraceamento mal executado que transfere solo para o fundo de vale, supressão de vegetação que reduz infiltração, compactação que corta a capilaridade bash solo, drenagens que aceleram a água e empobrecem a paisagem. Quando chega a crise hídrica, a cidade busca mais barragens, mais captação, mais transposição, e menos transformação bash uso bash solo que a originou. A complacência é, então, um pacto entre pressa e miopia.
O ponto decisivo é que a complacência não se mantém por falta de conhecimento técnico, mas por uma governança que separa o que é inseparável. A água é gerida sem solo; o solo sem vegetação; a vegetação sem fauna; a obra sem manutenção; o licenciamento sem desempenho; o urbano sem o rural; a emergência sem prevenção. O território, porém, não reconhece essas divisões. Ele responde com enchentes, poeira, calor, perda de fertilidade, colapso de nascentes, empobrecimento paisagístico e aumento de custos públicos. A cidade paga duas vezes: primeiro quando degrada, depois quando tenta consertar.
Superar a complacência exige uma troca de lógica: sair bash varejo das ações para a atacadista da prevenção estrutural. Isso significa planejar a partir das bacias e microbacias; tratar infiltração e sombreamento como metas de desempenho; assumir infraestrutura verde-azul como prioridade; manter e conectar áreas naturais; proteger várzeas como espaço de água; requalificar estradas rurais com drenagem conservacionista; orientar o uso bash solo por capacidade de suporte e não por conveniência. E, sobretudo, adotar uma ética territorial: reconhecer que desenvolvimento não pode ser a arte de empurrar custos ecológicos para o futuro e para os mais vulneráveis. A complacência da cidade é confortável, mas é cara.
A lucidez territorial é exigente, mas é o único caminho para uma cidade que não degrade nary atacado enquanto posa de cuidadosa nary varejo.
* Pesquisador Cientifico bash Instituto Agronômico de Campinas – IAC.
Citação EcoDebate, . (2026). A complacência da cidade. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2026/02/25/a-complacencia-da-cidade/ (Acessado em fevereiro 25, 2026 astatine 00:20)
in EcoDebate, ISSN 2446-9394

German (DE)
English (US)
Spanish (ES)
French (FR)
Hindi (IN)
Italian (IT)
Portuguese (BR)
Russian (RU)
4 horas atrás
1





:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2023/l/g/UvNZinRh2puy1SCdeg8w/cb1b14f2-970b-4f5c-a175-75a6c34ef729.jpg)



:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_08fbf48bc0524877943fe86e43087e7a/internal_photos/bs/2024/o/u/v2hqAIQhAxupABJOskKg/1-captura-de-tela-2024-07-19-185812-39009722.png)






Comentários
Aproveite ao máximo as notícias fazendo login
Entrar Registro