Salomão Barbosa Ferraz (1880-1969)

Crédito, Acervo de Rafael Vilaça Epifani Costa

Legenda da foto, Salomão Barbosa Ferraz (1880-1969)
    • Author, Edison Veiga
    • Role, De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
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O brasileiro Salomão Barbosa Ferraz (1880-1969) transitou por diversas denominações religiosas e, por fim, se converteu ao catolicismo. Nomeado bispo, integrou a comitiva brasileira que participou do Concílio Vaticano 2º, série de encontros realizados no Vaticano entre 1962 e 1965 que ergueram os pilares da Igreja Católica contemporânea.

Mas o que faz dele um caso único não tem a ver com sua trajetória ecumênica nem com sua fé pessoal. Ferraz era casado e pai de sete filhos — mesmo assim foi aceito por uma instituição cuja doutrina determina o celibato para seus sacerdotes.

"A visão de um bispo, trajado com sua batina, caminhando com sua esposa e seus filhos chocava a sociedade da época, de modo que vários jornais publicaram matérias acerca do religioso casado que foi recebido pelo Vaticano. E as fotos exibiam dom Salomão ao lado de sua família", comenta o teólogo, jurista e cientista da religião Rafael Vilaça Epifani Costa, reverendo anglicano e pesquisador.

A biografia sui generis de Ferraz permitiu que ele fosse uma exceção em um meio em que sacerdotes não contraem o matrimônio. Mas, mais que isso, a sua sagração como bispo — um posto hierárquico acima e de mais prestígio em comparação a um padre comum — e o fato de ele ter participado do mais importante evento do catolicismo no século 20, o Concílio, revelam que o religioso gozava de especial reputação no meio católico.

Berço presbiteriano

Ele nasceu em Jaú, no interior paulista, em 18 de fevereiro de 1880, e era filho de um agricultor e pregador presbiteriano leigo chamado Belarmino Barbosa Ferraz (1858-1943), que mais tarde se tornaria pastor.

Salomão Ferraz começou sua carreira religiosa seguindo os passos do pai — em 1902 se tornou pastor na Igreja Presbiteriana do Brasil.

Conforme conta o teólogo, filósofo e cientista da religião Leonildo Silveira Campos, professor aposentado da Universidade Metodista de São Paulo e da Universidade Presbiteriana Mackenzie e professor emérito da Faculdade de Teologia da Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, em 1903 Ferraz se casou com uma imigrante italiana, com quem teve cinco filhas e dois filhos, nascidos entre 1904 e 1916.

Segundo Campos, os 15 anos do religioso como pastor presbiteriano foram marcados por tensões e conflitos. "Salomão questionava a exigência feita pelos concílios presbiterianos de batizar novamente os convertidos oriundos da Igreja Católica Apostólica Romana", exemplifica.

Em 1917, ele mudou de denominação. Foi ordenado clérigo da Igreja Episcopal Anglicana no Brasil. Foi nessa instituição que ele desenvolveu a maior parte de sua teologia e também promoveu algumas adaptações litúrgicas que aproximavam muito a prática anglicana da espiritualidade católica.

Ideias ecumênicas

Ferraz chegou a publicar algumas obras sobre práticas litúrgicas, como Ofício de Decisão, Manual de Oração e A Liturgia do Sagrado Coração de Jesus. Também demonstrou especial apreço por ideias ecumênicas — em um tempo em que o diálogo interreligioso não era tão comum como se tornou justamente após o Concílio Vaticano 2º. Graças aos seus livros Princípios e Métodos e A Fé Nacional, Ferraz é hoje reconhecido como uma das primeiras vozes no Brasil a defender uma postura ecumênica.

"Desde o início ele buscou na prática o diálogo com outros cristãos, ou seja, aquilo que unia as igrejas em vez do que as separava", pontua Costa. "Ele defendia a validade do batismo realizado pela Igreja Católica para aqueles que se convertessem à Igreja Presbiteriana. Acreditava que o batismo deveria ser administrado apenas uma vez."

Na Igreja Episcopal, ligada à comunhão anglicana, ele se tornou diácono e, depois presbítero — ordenado pelas mãos do bispo Lucien Lee Kinsolving (1862-1929), missionário americano baseado no Brasil. "Nesse período, ele aprofundou as suas visões litúrgicas e sacramentais da Igreja, aderindo à corrente do anglo-catolicismo", explica Costa. É uma corrente muito mais parecida com o viés católico do que o protestante, com ênfase ao cerimonial litúrgico, incentivando o uso de incenso, água benta e ornamentos no altar. "Uma contraposição à simplicidade do culto evangélico", compara Costa.

Em sua paróquia anglicana, Ferraz implantou determinadas reformas pessoais, enfatizando elementos rituais. Talvez com certo exagero. Como pontua Costa, eram práticas em geral mal-vistas pelas lideranças anglicanas e, gradualmente, o religioso passou a ganhar opositores dentro da denominação.

Ferraz apresentou algumas de suas ideias em um encontro protestante realizado no Rio de Janeiro em 1922. "Defendeu a união de todos os cristãos, inclusive com a Igreja Católica", diz Campos "Naqueles tempos Salomão já tornava público a sua posição ecumênica, que somente dezenas de anos depois voltaria a se disseminar no Brasil. Publicava suas ideias em livros, revistas e jornais."

Salomão Barbosa Ferraz (1880-1969)

Crédito, Acervo de Rafael Vilaça Epifani Costa

"Por promover práticas destoantes do Livro de Oração Comum, o padrão litúrgico da Igreja, o então reverendo Salomão Ferraz acabou decidindo caminhar fora das fileiras episcopais, aderindo a uma forma de catolicismo independente", afirma Costa.

Em 1928, ele fundou uma organização ecumênica, chamada de a Ordem de Santo André. Por meio dessa entidade, ele promoveu um evento, em 1936, chamado de Congresso Católico Livre — foi um evento com a adesão de outros cristãos insatisfeitos com suas igrejas, especialmente católicos.

Ferraz vinha propondo mudanças litúrgicas no anglicanismo brasileiro, que eram rejeitadas pelas autoridades da denominação. "Gradativamente, seus conflitos com a hierarquia novamente tornaram sua carreira incompatível com o cristianismo institucionalizado", contextualiza Campos.

Guinada ao catolicismo

O desligamento foi questão de pouco tempo. Segundo Campos, ele foi deposto em 1937. Ferraz, então, estabeleceu os pilares de uma nova denominação cristã, a Igreja Católica Livre. Naturalmente, tornou-se ele o primeiro bispo dessa nova instituição.

O religioso estreitou laços com dissidentes católicos europeus e pleiteava um reconhecimento formal do grupo conhecido como veterocatólicos, em uma cerimônia de consagração episcopal. A Segunda Guerra Mundial, contudo, obrigou-o a rever essa ideia.

Sua sagração como bispo foi, enfim, realizada por um outro brasileiro, o carioca Carlos Duarte Costa (1888-1961) que, depois de ter sido bispo católico romano havia sido excomungado e fundou uma igreja independente do Vaticano, a Igreja Católica Apostólica Brasileira.

Esse esforço todo faz sentido à luz do cristianismo. Como se acredita que os bispos são os herdeiros da tradição dos apóstolos, os primeiros seguidores de Jesus, entende-se que é preciso que um bispo sempre seja nomeado por outro. Assim, não bastava que ele, ao criar uma denominação nova, simplesmente se autointitulasse bispo — ele buscava um reconhecimento de um religioso graduado anteriormente.

"Inicialmente, ambos os bispos trabalharam juntos em suas respectivas denominações. Na liderança da Igreja Católica Livre, dom Salomão, agora como bispo, realizava as atividades em torno da Ordem de Santo André e ordenou alguns sacerdotes para compor o quadro de sua Igreja", conta o teólogo Costa.

"Porém, algumas divergências começaram a aparecer entre os dois bispos. Dom Salomão Ferraz, ao contrário de dom Carlos Duarte Costa, reconhecia o primado do papa e a sua jurisdição universal sobre a Igreja no mundo inteiro", pontua o reverendo anglicano.

Outro ponto destoante era que Ferraz defendia a prática da confissão, ao modo católico romano, em que um padre ouve os pecados do fiel e dá a ele absolvição. Essa era uma prática banida na igreja de Duarte Costa.

O teólogo Campos resume os desentendimentos entre Duarte Costa e Ferraz: o primeiro o acusava de "ser mais católico romano do que católico brasileiro".

Reportagem sobre o bispo

Crédito, Acervo de Rafael Vilaça Epifani Costa

Legenda da foto, Reportagem sobre o bispo

De fato, Ferraz cada vez mais ele se aproximava da doutrina católica romana. Por fim, acabou solicitando o ingresso formal na instituição, tendo o pedido referendado pelo papa João 23 (1881-1963). "No final de sua vida, após ser pastor presbiteriano, reverendo anglicano, e bispo católico independente, ele passou a reconhecer a autoridade do papa sobre a Igreja, entendendo que não poderia ser católico fora da jurisdição de Roma", resume o teólogo Costa.

Foi acolhido pelo então arcebispo de São Paulo, Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta (1890-1982), atuando como seu auxiliar. Nessa época ele escreveu o livro O Arrebol da Aurora, no qual explica suas crenças e sua adesão aos dogmas católicos.

Motta simpatizou-se com a causa de Ferraz e foi o responsável por costurar sua aceitação junto ao Vaticano. O arcebispo paulistano já era, a essa altura, cardeal — o que facilitava os trâmites na alta cúpula católica.

"Sua aceitação gerou estranheza em muitos católicos conservadores, pois se tratava de um ancião com passagem por denominações protestantes, fundou uma igreja dissidente e casado, pai de sete filhos, avô e bisavô, sendo a sua esposa ainda viva, e o filho caçula tinha 43 anos", pondera Campos.

De acordo com o teólogo Costa, embora a Igreja Católica Apostólica Romana não permita o casamento de padres que já foram ordenados, em condições especiais é possível a ordenação de homens casados, o que ocorre, lembra ele, naquelas de rito oriental ou ainda nos ordinariatos criados pelo papa Bento 16 (1927-2022) para acolher ex-anglicanos.

"Nessas condições, os sacerdotes não são obrigados a guardar a disciplina do celibato", explica o teólogo. "Todavia, na tradição católica, não existem bispos casados."

Casado e pai de sete filhos, evidentemente que havia resistência. Em um tempo de comunicação mais precária, contudo, há quem acredite que a cúpula da Igreja chegou a pensar que ele fosse viúvo, facilitando a aceitação. A explicação mais corrente é a de que ele praticasse o celibato, argumento corroborado pela idade já avançada.

"No processo de incorporação à Igreja Romana, as ordenações anteriores de Ferraz como diácono, presbítero e bispo, feitas por dom Carlos Duarte Costa [em sua igreja independente] foram reconhecidas por Roma", esclarece o teólogo. "O fato de Salomão ser casado seria um empecilho canônico. Porém, devido à idade avançada, considerou-se que o casal naturalmente guardava o celibato, sendo um caso sui generis na história de toda a Igreja, pois Salomão Ferraz foi recebido diretamente na Igreja Católica como um bispo, casado e com sete filhos."

Na tese de doutorado Padres Conciliares Brasileiros no Concílio Vaticano 2º, defendida na Universidade de São Paulo em 2001, o padre e historiador José Oscar Beozzo, ex-presidente da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina, registra que a profissão de fé católica romana de Ferraz foi feita publicamente em 8 de dezembro de 1959 e recebida pelo papa em 25 de março do ano seguinte — quando Ferraz completou 80 anos. Ele também afirma que Ferraz vivia "separado consensualmente da esposa desde 1945".

Como bispo auxiliar de São Paulo, Ferraz participou da comitiva brasileira dos bispos que estiveram no Concílio Vaticano 2º. De acordo com levantamento do teólogo Campos, no evento, Ferraz realizou 11 intervenções. Ele foi um dos defensores da celebração litúrgica na língua local, em vez do latim — determinação que seria aprovada pelo Vaticano. E também puxou a sardinha para seu caso. "Foi um dos poucos que defenderam a ordenação de homens casados", lembra Costa. "Tema em discussão até os dias de hoje, sem perspectiva de aprovação", completa Campos.

Ao histórico encontro no Vaticano, o Brasil enviou 221 religiosos, entre bispos e prelados, além de nove peritos e um leigo. Nenhum deles está vivo.

Em 1964, foi recebido em audiência pelo papa Paulo 6º (1897-1978). Entregou ao sumo pontífice um memorando, solicitando reforma disciplinar do celibato e pontuando o que ele entendia serem as vantagens da vocação de homens casados para a igreja. Ferraz sugeriu que o papa analisasse individualmente os casos para a admissão ao sacerdócio.

Costa lembra que o caso de Ferraz "foi um único na história da Igreja", sendo ele "talvez o único bispo casado e com filhos", na contemporaneidade. Outro ponto ressaltado pelo teólogo é que o religioso publicou um missal — o livro litúrgico com as orações, ritos e instruções para a celebração da missa — em 1949 que, possivelmente, é o primeiro em língua portuguesa, já que foi feito em uma época em que as celebrações eram em latim. Chamava-se Missal Brasiliense.

Reportagem sobre o bispo

Crédito, Acervo de Rafael Vilaça Epifani Costa

Legado

O teólogo Campos conta que Ferraz "era muito vaidoso, daí sua atração pelo lado performático da religião", com ritos e símbolos.

"Nos tempos da Igreja Católica Livre […] quando um padre de sua Igreja ia visitá-lo ele exigia que o visitante se ajoelhasse na porta de entrada e fosse de joelhos até a sua mesa e após beijar a mão do bispo recebia a autorização para se sentar", conta ele.

Campos diz que ouviu de um genro de Ferraz que, em seu processo de aceitação ao catolicismo, houve a exigência de "uma declaração de sua esposa ainda viva que ambos não mais coabitavam desde há muitos anos" — terminologia esta com sentido de convivência íntima ou amorosa.

Para o teólogo Costa, "o que mais aprendemos" com ele é que "a busca sincera por Deus nos conduz a caminhos que não conseguimos imaginar". "Nessa caminhada podemos mudar totalmente a nossa vida, mas sem esquecermos das nossas raízes", acredita.

Na opinião de Campos, esta foi a grande contribuição de Ferraz: "a defesa que ele fez da possibilidade de uma união entre os cristãos, de forma ampla".

"Podemos dizer que os motivos da progressiva transição religiosa de dom Salomão Ferraz, do presbiterianismo, passando pelo anglicanismo, até o catolicismo romano, são a busca por uma maior unidade cristã, divergências teológicas, litúrgicas e disciplinares com as autoridades religiosas das igrejas anteriores, e o reconhecimento da autoridade e da figura de unidade que o papa exerce em um momento em que a própria Igreja Católica Romana estava passando por profundas transformações", acredita Costa.

Salomão Ferraz morreu em 9 de maio de 1969 como católico romano e foi sepultado no Cemitério do Santíssimo Sacramento, em São Paulo. No brasão de seu jazigo está grafado o lema, em latim, que sintetiza sua trajetória ecumênica: Unum sumus in Christo, ou seja, "em Cristo somos um".