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Banco Santos. Panamericano. OGX. IRB. Americanas. E agora o Banco Master.
Os nomes mudam, os setores mudam, as escalas mudam. Mas a dinâmica é sempre a mesma: crescimento que ninguém questiona, números que ninguém confronta, sinais que ninguém quer ver. E, no final, a mesma pergunta de sempre: como ninguém viu?
Viu. Sempre viu.
O problema nunca foi falta de informação. Foi silêncio.
Um banco que cresceu de menos de 4 bilhões para mais de 80 bilhões em ativos em cinco anos. CDBs oferecidos a taxas que chegaram a 140% do CDI, segundo informações divulgadas pela imprensa, quando o mercado operava perto de 100%. Um modelo de negócio declaradamente dependente do Fundo Garantidor de Crédito. Carteiras de crédito fictícias. Operações circulares entre fundos. Tudo isso à vista de reguladores, investidores, políticos e de um sistema inteiro que existe para evitar exatamente esse tipo de colapso.
E mesmo assim, ninguém freou.
É importante ser claro desde o início: nada disso diminui a gravidade da fraude. Fraude é crime. Ponto. Deve ser investigada, responsabilizada e punida com o rigor da lei. O que este caso escancara, porém, vai além do ato criminoso em si. Escancara o comportamento de quem tinha posição, informação e poder para fazer a pergunta difícil e escolheu não fazê-la.
O caso do Banco Master não é apenas um escândalo financeiro. É uma radiografia da falência de liderança em cadeia. Fraudes bilionárias, envolvimento de banco público, tensão entre os Poderes. Mas o mais perturbador não é apenas o crime cometido. É a quantidade de líderes que estiveram perto, que tinham dever fiduciário, institucional ou moral, e que não fizeram a pergunta óbvia: como isso se sustenta?
Onde estavam os líderes do banco, que viram os ativos se multiplicarem numa velocidade que qualquer análise séria questionaria? Onde estavam os conselhos e comitês de risco, que deveriam funcionar como freio e não como carimbo? Onde estavam agentes públicos que transitavam com naturalidade por ambientes de conforto, tudo tratado como normalidade institucional? Onde estavam aqueles cuja função era zelar pela integridade da estrutura?
Estavam todos perto.
Ninguém disse nada.
Isso não é descuido. É conivência.
E conivência é uma falha de liderança, não apenas de estrutura.
Estruturas podem ser imperfeitas, regulações podem ter lacunas. Mas quando quem ocupa posição de poder escolhe o silêncio porque a verdade tem custo pessoal, o que falha não é apenas o arcabouço institucional. São as escolhas de quem deveria sustentá-lo.
Um conselheiro que aprova sem questionar não está exercendo governança. Um agente público que relativiza sinais evidentes não está fazendo gestão. Um líder que se cala para preservar posição não está sendo prudente. Está sendo cúmplice. E quando líderes fazem essa escolha, quem paga a conta é sempre quem não teve voz na decisão.
E o mais grave é que não é a primeira vez.
Como país, repetimos o ciclo com impressionante regularidade. Resultados que encantam. Crescimentos que ninguém confronta. Proximidades que ninguém estranha. Até que o castelo desmorona e surge o teatro da surpresa coletiva. A pergunta nunca foi "como ninguém viu?". A pergunta correta é "por que quem viu não agiu?".
Dentro das organizações, esse mecanismo é conhecido. O líder que entrega resultado, mesmo com métodos duvidosos, é protegido até o dia em que tudo explode. A cultura do "não mexa nisso" é uma das forças mais destrutivas de qualquer empresa. E ela não aparece em relatório de compliance. Aparece no olhar que desvia, na reunião que termina rápido demais, na ata que registra consenso onde houve apenas silêncio.
O caso Master também escancara uma confusão perigosa entre crescimento e solidez. Ativos que saltam de 4 para 80 bilhões em cinco anos não são, por definição, uma história de sucesso. Podem ser. Mas também podem ser uma bomba bem embalada. Crescimento sem lastro é apenas velocidade em direção ao precipício. E velocidade impressiona. Atrai capital, parceiros, elogios e gente poderosa que quer estar perto do sucesso sem perguntar como ele foi construído.
O preço aparece depois. Bilhões mobilizados do Fundo Garantidor. Investidores no limbo. Pessoas comuns arcando com consequências de decisões que não tomaram. E uma pergunta que deveria tirar o sono de qualquer pessoa em posição de responsabilidade neste país: quantas vezes mais vamos confundir cargo com liderança?
O maior escândalo recente não começou com uma fraude. Começou com uma sucessão de silêncios. Com líderes que viram os sinais, se beneficiaram da proximidade e agora fingem surpresa. Com gente que confundiu estar perto do poder com exercer o poder.
A pergunta que fica, para qualquer pessoa que ocupa uma posição de responsabilidade, é simples e incômoda: quando chegar a sua vez de fazer a pergunta difícil, você vai fazer?
Porque é isso, no fundo, que se espera de um líder.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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3 semanas atrás
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