
Crédito, José María Rodero/BBC News Mundo
- Author, Valentina Oropeza e Cecilia Barría
- Role, De Miami (EUA), para a BBC News Mundo
- X, @orovalenti
Há 24 minutos
Ilona Biskup sentiu vergonha na primeira vez em que visitou um banco de alimentos em Miami, no Estado americano da Flórida.
Ela passou 32 anos trabalhando, pagando impostos e economizando para sua aposentadoria. E conseguiu comprar um apartamento em frente à praia com suas economias.
Há quatro meses, Biskup visitou pela primeira vez o maior banco de alimentos do sul do Estado, o Feeding South Florida. A organização abastece gratuitamente a despensa de 25% dos moradores da região que não conseguem custear suas necessidades alimentares.
Para poder ficar em frente às prateleiras repletas de produtos que ela, talvez, não teria comprado, Biskup precisou pedir ajuda pela primeira vez aos 62 anos, por necessidade.
"Depois de ter tido tanto sucesso, agora dependo de comida grátis", declarou ela, do seu apartamento em Miami Beach, com vista de 180 graus: à direita, a cidade e, à esquerda, o mar.
"Nunca pensei que, depois de trabalhar tanto, acabaria dependendo do governo", lamenta Biskup. Sua pensão por invalidez só cobre os custos de moradia e de serviços.
Biskup recebe US$ 2 mil (cerca de R$ 10,7 mil) da previdência social americana. Este nível de renda a coloca acima da linha da pobreza nos Estados Unidos, hoje em US$ 15,65 mil (R$ 83,5 mil por ano, ou cerca de R$ 7 mil por mês), segundo o Departamento de Saúde e Serviços Humanos do país.
Embora seja dona da sua casa e do seu carro, o valor da pensão não chega para comer.
Este empobrecimento repentino tem sua origem em eventos inesperados que consumiram seu patrimônio. Dois tratamentos contra o câncer esgotaram suas economias e o recente diagnóstico de Parkinson a obriga a recorrer ao dinheiro da aposentadoria.

Crédito, José María Rodero/BBC News Mundo
Problema estrutural
Biskup pertence a um amplo setor da população americana, que enfrenta dificuldades econômicas no seu dia a dia e acaba em situação extremamente vulnerável, quando surge um contratempo financeiro.
Um estudo liderado pelo sociólogo Mark Rank demonstrou que quase 60% dos americanos adultos viverão pelo menos um ano abaixo da linha da pobreza e 75% vivenciarão pobreza ou uma situação parecida.
"Basicamente, existem três caminhos rumo à pobreza nos Estados Unidos: perder o emprego, uma emergência de saúde ou a separação das famílias", explica Rank, que é professor da Faculdade de Trabalho Social da Universidade Washington em San Luis, no Estado americano de Missouri.
"É um problema estrutural, que se deve principalmente a dois fatores: sua rede de previdência social muito fraca, que não consegue impedir que as pessoas caiam na pobreza, e a criação de empregos com baixa remuneração e sem subsídios.
Rank defende que esta combinação transformou os Estados Unidos em um dos países com os mais altos índices de pobreza, entre as nações industrializadas.

Crédito, Gentileza de Mark Rank
Em uma pesquisa do centro de estudos Pew Research Center, publicada em maio deste ano, 27% dos americanos declararam ter enfrentado problemas para pagar pela assistência médica, própria ou de sua família, no último ano.
E pelo menos 20% das pessoas precisaram recorrer a um banco de alimentos no mesmo período.
As pesquisadoras Kim Parker e Luona Lin afirmam que 68% dos adultos afro-americanos e 67% dos adultos hispano-americanos admitem não dispor de fundo de reserva para emergências, da mesma forma que 44% dos adultos brancos.
Outra pesquisa realizada pelo Conselho Nacional para o Envelhecimento (NCOA, na sigla em inglês) e pelo centro de estudos LeadingAge LTSS, da Universidade de Massachusetts em Boston, nos Estados Unidos, revelou que os idosos com menos recursos econômicos morrem, em média, nove anos antes dos que contam com maior patrimônio.
"É alarmante e inaceitável que, nos Estados Unidos, em 2025, a pobreza roube quase uma década de vida dos idosos", declarou o presidente e diretor-executivo do NCOA, Ramsey Alwin.
Rank alerta que o impacto da pobreza se agrava devido aos prejuízos sociais que a rodeiam.
"Nos Estados Unidos, costumamos observar a pobreza do ponto de vista da culpabilização", relata ele.
"Se você for pobre, as pessoas se perguntam: por que não se esforçou o suficiente? O que você fez de errado?"
Na sua opinião, esta perspectiva leva à conclusão de que a pobreza "é problema seu, não meu".
"Em um país tão rico como os Estados Unidos, esta é uma injustiça social e econômica. Mas é uma mentalidade diferente da nossa."

Crédito, José María Rodero/BBC News Mundo
'Não consegui me recuperar mentalmente'
Biskup nasceu na Polônia e é cidadã americana.
Ela fez carreira como comissária de bordo nas companhias aéreas Pan Am e Delta Airlines. Biskup preferia trabalhar em voos de mais de 10 horas de duração, para maximizar sua remuneração.
"Eu sempre tratava os passageiros dentro do avião como se estivessem em casa", relembra ela.
Sobre sua mesa da sala de estar, ela abre suas "asas", os distintivos que levam seu nome e que ela costumava inserir na lapela do uniforme, quando prestava serviços aos passageiros.
Biskup se casou com um piloto do Estado americano do Colorado e passou anos rodeada pelas frias montanhas de Denver. Mas, depois do divórcio, sua mudança para perto do mar, em Miami, ofereceu a ela a oportunidade de construir uma nova vida própria.
"Comecei a procurar lugares que pudesse apreciar", afirma ela. "Eu queria simplesmente encontrar um local novo para fechar de alguma forma esta etapa da minha vida."
Em 2014, Biskup foi diagnosticada com câncer de seio. Seu seguro cobriu as cirurgias e tratamentos, mas a nova condição médica desencadeou gastos inesperados.
"Por um ano, fui submetida a quimioterapia e radioterapia. Depois, tive uma cirurgia que durou 12 horas, uma mastectomia dupla com dupla reconstrução", conta ela, uma década depois.
"Eu tinha os melhores médicos e acreditava que ficaria bem, mas, depois da cirurgia, meu cérebro se rendeu e entrou em colapso. Eu diria que, durante um ano e meio, não consegui me recuperar mentalmente."

Crédito, Gentileza de Ilona Biskup
Em 2019, seu médico detectou o início de um segundo tumor, desta vez no pâncreas. Ela passou por uma cirurgia para retirar as regiões afetadas, conhecida como procedimento de Whipple, que também se prolongou por horas a fio.
"Depois destes eventos, esgotei minhas economias com o câncer", relembra Biskup.
O segundo tumor também foi eliminado, mas ela se sentia fraca demais para trabalhar. E as faturas do seguro e dos gastos cobertos do próprio bolso revelam que ela pagou centenas de milhares de dólares para recuperar sua saúde física e mental.
Em meio aos lockdowns da pandemia de covid-19, Biskup aceitou o pacote de aposentadoria oferecido pela Delta. Mas a decisão a levou a abandonar seu emprego aos 60 anos de idade, quando ainda esperava se manter profissionalmente ativa.
"Sempre tento ver o lado positivo de tudo o que vivencio, mas foi triste que a minha aposentadoria acontecesse desta forma", lamenta ela.
Nos últimos três anos, Biskup mudou sua alimentação e se refugiou no mar. Foi quando sua mão direita começou a tremer. Às vezes, ela estava firme, às vezes ficava lenta.
Inicialmente, ela atribuiu os sintomas às cirurgias para retirar o tecido mamário, mas, há seis meses, seu médico confirmou que o temor e a rigidez são causados pelo mal de Parkinson.

Crédito, José María Rodero/BBC News Mundo
Biskup faz parte dos 42 milhões de americanos que se beneficiam do Programa de Assistência Nutricional Suplementar (SNAP, na sigla em inglês), o plano de assistência alimentar mais importante dos Estados Unidos, similar ao Bolsa Família no Brasil.
Os beneficiários do SNAP recebem mensalmente, em média, US$ 187 (cerca de R$ 1 mil), mas esta ajuda pode variar segundo as condições do solicitante. Biskup, por exemplo, recebe US$ 225 (cerca de R$ 1,2 mil) por mês.
Para entrar no programa, o governo federal americano exige que a pessoa trabalhe pelo menos 30 horas semanais, a menos que seja estudante, cuide de uma pessoa com incapacidade ou de uma criança com menos de seis anos
O SNAP também inclui pessoas que recebem tratamentos por alcoolismo ou dependência de drogas, ou que têm limitações mentais ou físicas, como no caso de Biskup.
O programa atende um a cada oito cidadãos americanos.

Crédito, Getty Images
Um juiz do Estado americano de Rhode Island decidiu contra a medida, ordenando que o governo agilizasse os depósitos. Mas a Suprema Corte validou o congelamento do programa por parte de Trump, dias antes da reabertura do governo.
À espera de um novo depósito no seu cartão do SNAP, Biskup visitou a despensa do Feeding South Florida para completar sua alimentação com 10 produtos frescos e 10 embalados ou em lata, que é a quantidade que ela poderia levar.
Ela pegou bananas, tomates, abobrinhas, pepinos e milho, além de arroz, macarrão, sopa, cereais, ervilhas, molhos e biscoitos.
Biskup escaneou as informações nutricionais dos produtos com um aplicativo que avalia a qualidade dos alimentos. Desde que se recuperou do câncer, ela observa com atenção o que come para evitar recaídas de saúde.
"Estou agradecida por receber esta ajuda", declarou ela.

Crédito, José María Rodero/BBC News Mundo
O banco de alimentos
Ao longo dos seus 25 anos na organização, o presidente do Feeding South Florida, Paco Vélez, presenciou emergências causadas por furacões, crises econômicas e, é claro, a pandemia de coronavírus.
Ele garante que a suspensão do programa SNAP fez disparar a quantidade de pessoas que solicitam produtos gratuitos da despensa do Feeding South Florida.
"As famílias têm medo e não sabem como irão pagar não só pela comida, mas por tudo", afirma Vélez.
Os preços dos alimentos aumentaram em 2,7% nos 12 meses anteriores a setembro deste ano. Os aumentos foram significativamente maiores para produtos como o café (18,9%), carne moída (12,9%) e banana (6,9%).
Famílias numerosas de baixa renda, veteranos das Forças Armadas, mães e pais solteiros e pessoas com incapacidade, como Biskup, são alguns dos perfis das pessoas que recorrem ao Feeding South Florida.
"Nos condados do sul da Flórida, mais de 967 mil pessoas dependem deste tipo de ajuda", alerta Vélez.

Crédito, José María Rodero/BBC News Mundo
Em meio aos atrasos administrativos no pagamento do SNAP, a afluência de beneficiários se mantém, segundo a chefe de pessoal da organização, Jessica Benites.
"No início deste ano, observamos mais ou menos 40 famílias por dia", ela conta. "No início de outubro, quando fechou o governo, o número duplicou."
Durante a primeira semana de novembro, quando Biskup visitou a despensa, eles receberam em média 120 famílias por dia, segundo Benites.
Os alimentos são doados por produtores agrícolas e supermercados. Em uma parede, ficam os cheques que mostram alguns dos donativos recebidos pela instituição, variando entre US$ 3 mil e US$ 380 mil (cerca de R$ 16 mil a R$ 2 milhões). Eles vêm de empresas distribuidoras de alimentos até fabricantes de automóveis.
O governo federal já retomou suas atividades, mas as pessoas que cuidam do banco de alimentos se preparam para ampliar seus horários, com voluntários que comparecem toda semana para verificar a qualidade dos produtos e organizar os alimentos na despensa.

Crédito, Valentina Oropeza/BBC News Mundo
Com os últimos depósitos do SNAP, Biskup fez compras em uma cadeia de atacadistas. Ela comprou produtos em quantidades que normalmente não compraria, se não se sentisse obrigada a maximizar o rendimento da ajuda.
Ela também visita um centro comunitário em Miami Beach, onde almoça de graça depois de praticar Tai Chi ou Qi Gong, que a ajudam a exercitar a serenidade para enfrentar a perda de controle dos movimentos causada pelo mal de Parkinson.
Biskup afirma estar decidida a lutar para manter o nível de vida para o qual sempre trabalhou, embora precise ajustar seus hábitos de consumo e suas rotinas.
"Este apartamento é o meu refúgio, o lugar onde me recuperei de câncer duas vezes e onde espero viver tudo o que o Parkinson irá trazer", declarou ela, da sacada do seu apartamento.
"Farei todo o possível para continuar vivendo perto do mar."

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