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Acordo Mercosul-União Europeia é um passo contra o isolamento do Brasil

O acordo entre Mercosul e União Europeia saiu do papel depois de décadas de negociação e frustrações acumuladas. Mais do que um tratado específico, ele pode funcionar como um catalisador político favorável à integração global.

Esse impulso chega a um país cuja política comercial foi moldada por um diagnóstico desenvolvimentista. A aposta na substituição de importações, ancorada na tese da deterioração dos termos de troca, segundo a qual commodities tenderiam a se desvalorizar em relação aos manufaturados, teve coerência histórica.

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O problema foi a sua cristalização: o Brasil transformou uma estratégia de contexto em um arranjo permanente, sem testar se subsídios e proteção entregariam uma indústria ampla, competitiva e exportadora. Spoiler: mesmo décadas depois não entregaram.

Os dados do Banco Mundial indicam que, em 2022–2023, o Brasil seguia entre as economias de renda média com maior proteção tarifária sobre bens industrializados, acima de pares regionais como Chile, México e Colômbia. Ao mesmo tempo, segundo o Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), menos de 1% das firmas formais exportam, proporção baixa mesmo quando se controla pela renda.

A política comercial acabou operando como mecanismo de concentração de benefícios: protege poucos setores organizados, enquanto o custo para a população aparece em preços mais altos, menor variedade e produtividade estagnada.

A baixa integração se reflete também na inserção produtiva, afinal, a participação brasileira em cadeias globais de valor é limitada, com pouco uso de insumos importados nas exportações. Isso, por sua vez, reduz a concorrência, dificulta a difusão tecnológica e encarece a modernização do parque produtivo, travando ganhos de escala e aprendizado que economias mais integradas capturam com mais rapidez.

É nesse pano de fundo que o acordo Mercosul–UE deve ser lido: um primeiro passo na direção oposta ao isolamento. Ele amplia o acesso a um mercado relevante, reduz incertezas regulatórias e cria condições para maior integração produtiva. Para consumidores, mais concorrência e variedade pressionam preços. Para empresas, sobretudo as dependentes de insumos e tecnologia, o ganho vem de previsibilidade e custos menores para se conectar a cadeias mais sofisticadas. Para o país, abre-se a chance de sair de um equilíbrio de baixa integração que se mostrou caro em termos de crescimento e bem-estar.

Um relatório do Cindes (Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento), assinado por Sandra Rios e Pedro da Motta Veiga, ajuda a situar o acordo com realismo: como ponto de partida de uma agenda mais ampla de integração, cujos efeitos vão além de tarifas e envolvem regras, padrões e previsibilidade. Isso não elimina conflitos distributivos nem custos de ajuste, mas os torna administráveis se houver políticas de transição, como formação e requalificação profissional, apoio à mobilidade do trabalhador, instrumentos de crédito e difusão tecnológica para pequenas e médias empresas.

Por isso, a relevância política do acordo Mercosul–UE vai além do texto negociado. Ele pode servir de gatilho para um reposicionamento mais amplo, no qual a integração global deixe de ser tratada como concessão e passe a ser encarada como projeto de desenvolvimento e acesso dos brasileiros ao mercado global. Em um contexto de resultados negativos de políticas de aumento tarifário nos EUA, abre-se espaço para coalizões pró-integração entre países dispostos a cooperar. Pela primeira vez em algum tempo, há razões para algum otimismo sobre a integração do Brasil com o resto do mundo.

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