Ela já se tornou uma guerra regional, após a decisão do Irã de atacar Estados árabes aliados dos EUA, assim como seus vizinhos do outro lado do Golfo. Após ter recusado, o Reino Unido passou a permitir que os EUA usem suas bases.
A guerra continua escalando, e alertas de notícias chegam ao meu telefone sem parar.
Até eu terminar de escrever este texto, mais mísseis terão sido disparados e, muito provavelmente, pessoas que estão vivas agora terão sido mortas.
É cedo demais para ter qualquer ideia de quando ou como a guerra vai terminar.
Uma vez iniciadas, guerras são difíceis de controlar. Mas aqui estão algumas das formas pelas quais os beligerantes gostariam que ela terminasse.

Entenda o que levou Israel e EUA a atacarem o Irã
A definição de vitória de Trump
Outros presidentes poderiam ter escolhido um pronunciamento solene por trás da mesa Resolute, no Salão Oval.
Ele apresentou uma longa lista de acusações, argumentando que o Irã representava uma ameaça iminente aos EUA desde a Revolução Islâmica de 1979.
Trump afirmou que o Irã estava desenvolvendo mísseis capazes de atingir os EUA, uma declaração que não é sustentada pelas avaliações de inteligência americanas.
Transferir a responsabilidade pela mudança de regime ao povo iraniano, mesmo quando ele os incentiva diretamente, lhe dá uma possível saída mais adiante caso o regime sobreviva.
Mas isso também pode ser visto como uma responsabilidade moral para os EUA levarem isso adiante, embora seja uma questão em aberto até que ponto isso influenciaria um presidente que acredita que sempre há um acordo possível.
Não há precedente de mudança de regime ou vitória contra um adversário bem armado apenas com o uso de poder aéreo. Em 2003, os EUA e seus aliados, incluindo o Reino Unido, enviaram grandes forças terrestres ao Iraque para remover Saddam Hussein.
Em 2011, o coronel líbio Muammar Gaddafi foi removido por forças rebeldes armadas pela Otan e países do Golfo e protegidas por suas forças aéreas. Trump espera que o povo iraniano possa fazer o trabalho por conta própria.
O plano de Trump é ter um grande lance de sorte. É pouco provável que bombardeios, sozinhos, causem uma mudança de regime.
Poderia haver um golpe interno pró-Ocidente? Não é impossível, mas é altamente improvável visto do terceiro dia da guerra.
É mais provável que os homens que agora comandam o regime se escondam, lancem mais mísseis, movidos pela ideologia e pela convicção de que podem suportar mais dor do que os EUA, Israel ou os estados árabes do Golfo.
A maior parte do sofrimento será sentida pelo povo iraniano, que há muito sofre. Mas eles não têm voz na decisão.

Entenda como EUA e Israel infiltraram o espaço aéreo do Irã e neutralizaram as defesas do país em poucas horas
Ele acredita que os governantes da República Islâmica querem construir uma arma nuclear para destruir o Estado judeu.
No domingo, segundo dia da guerra, ele subiu ao topo de um prédio em Tel Aviv — talvez o edifício do Ministério da Defesa, no coração da cidade — e declarou como vê o fim da guerra.
Ele afirmou que era uma promessa que garantiria que se tornasse realidade.
Guerras sempre têm uma dimensão política interna. Assim como Trump, Netanyahu enfrenta eleições ainda este ano. Diferentemente de Trump, seu próprio cargo está em jogo.
Ele dará um passo gigantesco em direção ao perdão eleitoral se puder dizer que liderou Israel a uma vitória decisiva sobre o Irã. Poderia até se tornar imbatível.
Vitória pela sobrevivência
O aiatolá Ruhollah Khomeini e outros fundadores do regime, há quase 50 anos, projetaram suas instituições para sobreviver a guerras e assassinatos. Não é um espetáculo de um só homem.
Os Estados sírio e líbio sob Assad e Gaddafi foram construídos em torno de famílias governantes. Quando essas famílias foram removidas — Gaddafi foi morto e Bashar al-Assad fugiu — os regimes colapsaram.
Isso não significa que vai sobreviver. O sistema da República Islâmica enfrenta seu teste mais severo. Mas se preparou para este momento.
A definição de vitória do regime é a sobrevivência. Para isso, ele se cerca de um nível formidável de proteção.
Além das forças armadas convencionais e de uma polícia bem armada, há o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês), com mandato explícito para proteger o regime dentro e fora do país.
Ele existe para ser o braço forte da velayat-e faqih, a doutrina-chave da revolução islâmica no Irã, que justifica o governo dos líderes religiosos xiitas.
Acredita-se que o IRGC tenha 190 mil integrantes na ativa e até 600 mil reservistas.
Além da doutrina religiosa, também controla grande parte da economia. Seus líderes têm razões financeiras e ideológicas para permanecer leais.
O IRGC conta ainda com apoio do Basij, uma força paramilitar voluntária. Seus cerca de 450 mil membros têm reputação de lealdade ao regime e de brutalidade.
Eu os vi em ação em Teerã como primeira linha de defesa durante os protestos que se seguiram à eleição contestada de 2009, ameaçando e espancando manifestantes nas ruas com cassetetes e tonfas de borracha. Atrás deles estavam policiais fortemente armados e homens do IRGC. O Basij também operava esquadrões móveis em motocicletas que percorriam a cidade reprimindo focos de dissidência.
Donald Trump ameaçou o IRGC e o Basij com morte certa — ele disse "não será bonito" — a menos que depusessem as armas. Suas ameaças dificilmente mudarão muitas mentes entre os homens armados do regime.
A República Islâmica e o islamismo xiita são impregnados pela ideia de martírio. Quando, após horas de alegações oficiais no domingo de que o líder supremo estava seguro, a apresentadora chorosa da TV estatal anunciou a morte de Khamenei, disse que ele havia bebido "o doce e puro gole do martírio".
Alguns analistas sérios do Irã suspeitam que o aiatolá tenha prosseguido com uma reunião em seu complexo em Teerã com seus principais conselheiros, mesmo quando grande parte do mundo acreditava que um ataque era iminente, porque buscava o martírio.
O regime tem um núcleo de civis leais. Milhares foram às ruas de Teerã após a morte do líder supremo, no primeiro de 40 dias de luto. Eles se reuniram em praças públicas acendendo velas e as lanternas dos celulares, apesar das colunas de fumaça dos ataques aéreos dos EUA e de Israel.
Os americanos acreditam que desta vez a força bruta pode impor uma mudança de regime a um inimigo sem criar um desastre.
Os precedentes não são bons. A remoção de Saddam Hussein no Iraque, em 2003, levou a uma catástrofe — anos de guerra que incubaram movimentos extremistas jihadistas que ainda existem.
A Líbia, um país com petróleo suficiente para garantir padrões de vida ocidentais à sua pequena população, está destruída e empobrecida, um Estado falido 15 anos após Gaddafi ter sido removido do poder e morto.
Os países ocidentais que celebraram sua queda e a tornaram possível essencialmente lavaram as mãos depois que o país se fragmentou.
O Irã é um grande país, quase três vezes o tamanho do Iraque, com uma população multiétnica de mais de 90 milhões.
Se o regime iraniano cair, o pior cenário é que a confusão, o caos e o derramamento de sangue que possam seguir rivalizem com as guerras civis que mataram centenas de milhares na Síria e no Iraque.
A ação militar dos EUA e de Israel está pulverizando as capacidades militares do Irã. Isso muda a equação no Oriente Médio, mesmo que o regime sobreviva.
Muitos — provavelmente a maioria dos iranianos — comemorariam se ele caísse. Mas seria um enorme desafio substituir um regime removido à força por uma alternativa pacífica e coerente.
A aposta de Trump é que isso será possível, que esta guerra tornará o Oriente Médio um lugar melhor e mais seguro. As probabilidades contra isso são grandes.

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