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Antonio Fagundes e a lição sobre respeitar o tempo alheio

Neste ano, a cidade de São Paulo enfrenta a chamada "guerra dos delivery". A Amazon lançou recentemente o Now, que promete entregas de itens básicos em 15 minutos.
Segundo a empresa, uma pesquisa interna mostrou que 57% dos brasileiros anseiam por mais descanso.
E que quatro em cada dez pessoas afirmam que receber pedidos rapidamente as ajuda a economizar tempo no dia a dia.

O mercado de delivery brasileiro deve ultrapassar US$23 bilhões em 2026. Keeta e 99 tentam desbancar a líder iFood prometendo entregas, adivinhem só, mais rápidas. E até dando vouchers quando o entregador atrasa.
Percebam que a corrida não é por comida. É por tempo.

O brasileiro é um povo que vive cronicamente online. Um levantamento da Bain & Company de setembro de 2025 mostra que passamos 9h13 conectados. Dessas, 3h37 estão alocadas apenas nas redes sociais.
A média global de uso da internet é de 6h38 por dia.

Passamos mais tempo do que queremos nas telas. E usamos esse tempo para nos sentir sós.
Não é coincidência que procuramos a conveniência dos apps de delivery com entregas cada vez mais rápidas.
Estamos mais conectados do que nunca. E mais sozinhos do que nunca.

O sociólogo espanhol Manuel Castells definiu bem: "a internet é uma extensão da vida". O digital não substituiu o real: ele amplificou nossas tendências. E uma das tendências que amplificou foi o individualismo. Será por isso que Fagundes passou a ser mais processado?

O escritor americano Andrew Keen vai mais longe. Para ele, as mídias sociais mais afastam do que aproximam, gerando o que chama de "sociedade fragmentária". Tornamo-nos mais individualistas que unidos, mais desiguais que iguais, mais ansiosos que felizes, mais solitários que socialmente conectados.

Talvez por isso se criou o mito de que não ter tempo é sinal de status (para fugir da solidão?)
No best-seller "Coisa de Rico", o antropólogo Michel Alcoforado cita que um traço comum entre os ricos brasileiros é nunca estar disponível. A indisponibilidade como luxo. A ausência como poder.

Mas não ter tempo é, na verdade, brega. Ter tempo para o outro é sexy. O problema é que quando todo mundo quer comprar tempo, ninguém quer doá-lo. E quando ninguém quer doar tempo, o outro deixa de existir.

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