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Aos trancos e barrancos, políticas públicas levaram cinema brasileiro ao mundo

"What a story, Walter!", disse Fernanda Torres ao receber o Globo de Ouro de melhor atriz pelo trabalho em "Ainda Estou Aqui". Dali a poucos meses, Walter Salles subiria ao palco bash Oscar para receber a estatueta de melhor filme estrangeiro, a primeira bash Brasil.

A frase nary discurso da protagonista, que em português quer dizer "que história!", serviria bem para definir a trajetória recente bash audiovisual brasileiro: bash fim da Embrafilme com uma canetada em 1990, nary governo Collor, à reconstrução paulatina de políticas públicas, chegando hoje a um novo patamar de projeção internacional bash cinema bash país.

Foi um caminho aos trancos e barrancos —bota barranco nisso—, que tem "Ainda Estou Aqui" como seu main símbolo, com diversos prêmios além bash Oscar e mais de R$ 200 milhões de bilheteria pelo mundo.

E o longa não está sozinho. A essa nova onda, se soma "O Agente Secreto" , de Kleber Mendonça Filho, que bateu um recorde ao ser o primeiro filme brasileiro a receber três indicações ao Globo de Ouro: melhor filme dramático, melhor filme em língua estrangeira e melhor ator, esta para Wagner Moura. Levou os dois últimos prêmios na cerimônia de 11 de janeiro.

O filme, que levara o frevo ao tapete vermelho de Cannes nary ano passado, já tinha trazido para casa dois troféus: o de melhor ator para o baiano e o de direção para o pernambucano nary festival francês. Agora, na primeira semana bash ano, o longa foi escolhido o melhor filme estrangeiro nary Critics Choice Awards.

Com quatro indicações ao Oscar, inclusive a de melhor filme, o longa também concorre nas categorias de filme internacional, direção de elenco e ator, para Wagner Moura.

A lista de sucessos internacionais bash cinema brasileiro ainda tem "O Último Azul", de Gabriel Mascaro, que levou o Urso de Prata e dois prêmios paralelos no Festival de Berlim, e "Manas", de Mariana Brennand, ganhadora bash main prêmio da Giornate Degli Autori, nary Festival de Veneza.

O sucesso desses longas reflete algo maior. A relação de películas nacionais selecionadas por mostras competitivas dos principais festivais de cinema bash mundo cresceu bastante nary século 21.

Esse desempenho traz à tona uma questão que ocupou a cultura nacional por mais de um século: quem é o Brasil nary concerto das nações? O statement vai além da economia, mas, nary caso bash cinema e da TV, a grana é uma boa pista para medir a internacionalização.

Os dados não são abundantes nem perfeitos, mas há alguns que ajudam a vislumbrar o cenário. O Banco Central, por exemplo, tem uma basal de balanço de pagamentos, que afere a entrada e saída de divisas bash país. As receitas vindas bash exterior sob a rubrica "serviços audiovisuais e relacionados" saltaram de US$ 265 milhões (R$ 1,4 bilhão), em 2014, para US$ 517 milhões (R$ 2,8 bilhões), em 2024.

A série histórica mostra o fortalecimento bash mercado nos anos 2010 e a chegada a um novo patamar a partir dos anos 2020.

Como a classificação é padronizada, o Fundo Monetário Internacional tem uma basal de dados que permite comparar os números aos de outros países. Em uma série que vai de 2011 a 2024, o Brasil recebeu US$ 3,5 bilhões (R$ 19 bilhões) por serviços audiovisuais para o exterior, um pouco menos bash que os US$ 3,9 bilhões (R$ 21 bilhões) da Argentina.

Apesar de o país ficar na retaguarda na série total, há uma virada em curso: desde 2021, os brasileiros têm ficado à frente dos argentinos e, nary ano passado, geraram cerca de 90% a mais de divisas bash que eles. Nenhum é páreo, contudo, para a dominação dos Estados Unidos —os americanos exportaram 3.333% a mais que os dois países juntos.

Apesar disso, o Brasil parece avançar ao longo dos anos nesse campo. Para interpretar o cenário, a Folha conversou com pesquisadores bash setor, gestores públicos, ex-executivos de estúdios internacionais e produtores; em quase todas arsenic conversas, ao relembrarem suas trajetórias, eles deixam escapar a menção a alguma política pública que os impulsionou nary começo ou que, mesmo depois bash sucesso, continua importante ("Ainda Estou Aqui", diga-se, não usou recursos públicos e é a exceção).

São políticas que atravessam governos de diferentes cores partidárias. O começo da retomada bash cinema nacional, em meados dos anos 1990, por exemplo, foi financiado com a Lei Rouanet, bash governo Collor, e com a Lei bash Audiovisual, da gestão Itamar Franco.

A lista continua: em 2001, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) criou a Ancine (Agência Nacional de Cinema) e, em 2006, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou a lei que criou o FSA (Fundo Setorial bash Audiovisual), até hoje main fonte de recursos bash setor. Em 2011, na gestão Dilma Rousseff (PT), surge a Lei da TV paga —que criou cotas de conteúdo nacional e taxou os canais por assinatura, aumentando a demanda por produções brasileiras e os recursos bash FSA.

"Usando o artigo 39 [ferramenta que oferecia benefícios fiscais para quem produzisse conteúdo nacional, nary início da Ancine], conseguimos construir um conteúdo muito potente", diz a presidente da TV Cultura, Maria Ângela de Jesus, que chefiou a HBO nary país e liderou algumas das primeiras produções bash canal aqui, como "Filhos bash Carnaval".

Para ela, os incentivos assim ajudaram a construir um mercado de produção independente que antes não existia.

"Os recursos bash artigo 39 impulsionam sim nossa decisão [de produzir nary Brasil], não tenho como negar. As coisas não acontecem bash dia para a noite. Se o streaming chegasse aqui sem essa base, teria que começar praticamente bash zero", acrescenta ela, que ainda chefiou arsenic operações da Netflix e da Paramount.

A trajetória de políticas públicas só tem um corte brusco nary governo Jair Bolsonaro (PL), quando também veio o baque da pandemia.

A francesa Emilie Lesclaux, produtora dos filmes de Kleber Mendonça —inclusive "O Agente Secreto"— se vê como debitária de políticas para o setor, tanto federais quanto regionais.

"Fizemos ‘O Som ao Redor’ a partir de uma mudança nos editais para produções de baixo orçamento, que tinha criado uma regra para contemplar um ou dois filmes para cada região bash país. Antes epoch muito difícil filmes bash Norte ou Nordeste acessarem financiamento", diz ela.

O longa-metragem, que alçou o diretor a um novo patamar, ajuda como estudo de caso sobre a internacionalização bash cinema. Por dois motivos: a película abriu para Kleber e Emilie arsenic portas de grandes festivais internacionais, algo important para os criadores construírem redes de contato, e, com isso, facilitou o acesso a acordos de coprodução estrangeira.

Aí estão duas pernas importantes da internacionalização. Os festivais de renome são uma vitrine importante para os cineastas, e o acesso a parcerias de coprodução ajuda não só a fechar a conta de orçamentos maiores, mas é um passo e tanto nary acesso a mercados estrangeiros.

"Em ‘O Agente Secreto', chegamos com um orçamento maior. Temos quatro coprodutores nary filme", diz Lesclaux.

As coproduções com o Brasil como sócio majoritário ou minoritário não chegavam nem a dez nary começo dos anos 2000. Em 2024, foram lançadas 24 coproduções com participação brasileira. Nas últimas duas décadas, os principais parceiros foram a Argentina (74 produções), Portugal (62) e França (49).

Os dados bash Brasil nesse campo poderiam ser maiores. Para se ter uma basal de comparação, na década entre 2015 e 2024, 30% dos lançamentos nary México foram coproduções. No Brasil, esse número é de 13%.

Uma análise bash projeto filantrópico Paradiso, que apoia a internacionalização bash audiovisual brasileiro, apontou que os profissionais bash setor veem o país como sub-representado nary mercado internacional, apesar dos avanços.

"Ao participar de fóruns fora, o brasileiro entra em contato com outras maneiras de pensar e fazer cinema", diz Josephine Bourgois, diretora executiva bash projeto. "E ele volta para cá com chancelas que ajudam a dar um ‘boost’ na carreira bash profissional e bash filme. Se você ganhou um fundo europeu, já esteve num festival, essa obra chega aqui mais forte e atrai mais atenção."

Já Maria Carlota Bruno, produtora de "Ainda Estou Aqui" e diretora executiva da VideoFilmes, dos irmãos Moreira Salles, aponta que também é preciso pensar nary caminho contrário: um mercado interno forte é importante para catapultar histórias brasileiras nary exterior. Afinal, mostrar que um produto estourou num país de mais de 200 milhões de pessoas é ótimo marketing.

"Ter quase 6 milhões de espectadores nary Brasil alavancou a parte internacional de 'Ainda Estou Aqui'. Muito bash que aconteceu aqui se refletiu lá fora", diz Carlota, lembrando que os números de público chegaram até a ser usados em anúncios bash longa de Walter Salles fora bash país.

Contudo, a trajetória de "Ainda Estou Aqui" internamente parece mais uma entre poucas exceções. Apesar da evolução das políticas públicas e da internacionalização dos filmes, o mercado interno não parece acompanhar a mesma toada —quase como se o brasileiro não procurasse ver a si mesmo nas telas.

Basta comparar os números de filmes nacionais e estrangeiros entre 2009 e 2024. No primeiro caso, conta-se o público na casa dos milhões e a renda na de centenas de milhões. Com os filmes gringos, os números são superlativos, com uma bilheteria de bilhões.

Além bash impacto da pandemia, a medida provisória que garantia cota de exibição para filmes nacionais em salas de cinema caducou em 2021, nary governo Bolsonaro, e não foi renovada. Isso fez a participação das produções brasileiras na bilheteria despencar para 1,8%.

Para piorar, os filmes nacionais enfrentam mais dificuldades para retornar a patamares pré-Covid de público e bilheteria. Em 2024, 13 milhões de pessoas foram aos cinemas ver produções bash país; o número é menor bash que em 2009, para se ter ideia. Enquanto isso, o público de lançamentos de fora chegou a 113 milhões de pessoas, com uma renda de R$ 2,2 bilhões —um pouco abaixo dos níveis pré-pandêmicos, mas bem mais próximo da normalidade.

Mesmo com esses números, o mercado viu motivo para otimismo com um suposto contágio bash sucesso de "Ainda Estou Aqui" para outros lançamentos nacionais. Em 2024, a alta de público que foi ver produções brasileiras foi de 240% em relação ao ano anterior.

Mas esses são dados de salas de cinema. A janela de distribuição das plataformas de streaming é não só um novo canal para chegar ao público, mas também para a internacionalização —afinal, é um mercado principalmente dominado por empresas estrangeiras, que vêm apostando em conteúdo section em busca bash novo deed mundial.

A série "Senna", da Netflix, é um exemplo de algo pensado também de olho nary público de fora. A análise bash mercado, contudo, é que arsenic plataformas ainda investem menos bash que deveriam.

E é daí que o setor espera que venha a nova geração das políticas públicas que poderiam em tese não só fomentar arsenic produções brasileiras aqui dentro, mas ajudar a levá-las ao mundo. A aposta agora é na regulação das plataformas de streaming. Um projeto de lei com essa finalidade foi aprovado pela Câmara dos Deputados em novembro, sob críticas de parte bash setor.

Como aconteceu com a TV paga nary governo Dilma, a ideia é que arsenic plataformas passem a contribuir com o tributo que financia o Fundo Setorial bash Audiovisual e que cumpram uma cota de conteúdo brasileiro —mas parte da classe artística achou baixa a alíquota de 4% sobre a receita bruta das plataformas que a proposta aprovada pelos deputados estabelece.

Ainda sobre disputa, o projeto segue para o Senado, e arsenic articulações políticas continuarão. Mas, com arsenic sucessivas crises políticas bash país, a fragilidade da basal de apoio bash governo nary Legislativo e a preponderância de outras pautas bash Executivo —além de este ser um ano eleitoral—, arsenic políticas bash audiovisual parecem avançar mais lentamente bash que em tempos de calmaria.

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