No entanto, poucas horas depois, ela veio a público afirmar que estava pronta para cooperar com o governo de Donald Trump, defendendo uma relação "equilibrada e respeitosa" com os Estados Unidos.
Trump insistiu no domingo que os Estados Unidos estão "no comando" da Venezuela e que está discutindo os próximos passos com as novas autoridades venezuelanas, lideradas por Rodríguez.
"Não me perguntem quem está no comando, porque darei uma resposta muito controversa", disse Trump a repórteres no Air Force One, quando indagado se havia conversado com Rodríguez.
O governo americano afirma estar disposto a trabalhar com o restante do governo Maduro, desde que os objetivos de Washington sejam atendidos, particularmente a abertura do acesso de investimentos americanos às vastas reservas de petróleo da Venezuela, as maiores do mundo.
Maduro traído pela própria liderança?
A vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, fala no Congresso Nacional, em Caracas, no dia 4 de dezembro de 2025 — Foto: Pedro Mattey/AFP
O analista político venezuelano Jesús Renzullo, do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (Giga), sediado em Hamburgo, aponta para rumores, mas também para indícios, de que a própria liderança venezuelana pode ter abandonado o presidente venezuelano.
"Maduro muito provavelmente foi traído por sua própria liderança política. É uma farsa interna que os EUA estão tolerando. E Marco Rubio [secretário de Estado americano] deixou isso bem claro: o governo venezuelano pode fazer o que quiser, pode dizer o que quiser, contanto que nos obedeça", afirmou em entrevista ao portal de notícias Tagesschau, da rede pública de TV alemã ARD.
O fato é que a presidente interina Delcy Rodríguez, uma advogada de 56 anos, foi, durante anos, a mediadora mais importante entre Caracas e Washington. Ela e seu irmão conduziram as negociações com os EUA em nome de Maduro.
Segundo Jesús Renzullo, o governo venezuelano está seguindo uma estratégia dupla. Eles não querem mudar o discurso que cultivam há anos: anti-imperialismo e soberania venezuelana. Isso é só retórica, analisa Renzullo.
Donald Trump prometeu explorar as reservas de petróleo da Venezuela — Foto: NICOLE COMBEAU/POOL/EPA/Shutterstock
Mas a posição de Rodríguez também é delicada. Washington faz pressão. As exigências são específicas: o rompimento das relações com os aliados Rússia e China e o retorno das empresas petrolíferas americanas ao país com as maiores reservas de petróleo do mundo.
Mas Rubio não exigiu a libertação dos presos políticos venezuelanos.
Papel crucial dos militares
Militares fazem treinamento em Caracas, na Venezuela — Foto: Matias Delacroix/AP Photo
Nesta situação tensa, os militares continuam decisivos. Considerados um fator fundamental de poder na Venezuela, eles têm se mostrado leais ao governo autoritário de esquerda de Maduro.
O ministro da Defesa, Vladimir Padrino, por ora, está ao lado de Rodríguez. Atualmente, as fileiras militares estão, pelo menos aparentemente, fechadas.
Em caso de mudança de regime, os militares temeriam perder privilégios econômicos. Além disso, parte deles está ligada a prisões arbitrárias, tortura e assassinatos de membros da oposição, e também poderiam ser levados a julgamento.
O economista venezuelano Manuel Sutherland, no entanto, vê potencial para conflitos.
Machado sai de mãos vazias?
María Corina Machado, opositora do regime de Nicolás Maduro e vencedora do Nobel da Paz 2025, fala em coletiva de imprensa em Oslo, na Noruega, em 11 de dezembro de 2025. — Foto: REUTERS/Leonhard Foeger
Enquanto isso, a líder da oposição, María Corina Machado, aguarda por sua chance no exílio. No passado, ela rapidamente conquistou o apoio da maioria dos venezuelanos e uniu a oposição dividida. Aos 58 anos, recebeu o Prêmio Nobel da Paz em outubro .
Embora Machado tenha buscado laços estreitos com Trump e não se distanciado da retórica intervencionista dos EUA, o próprio presidente americano frustrou os planos da oposicionista, dizendo que ela não tem apoio popular.
Mesmo assim, o pesquisador Jesús Renzullo vê potencial na posição de Machado – ainda que ela não possa simplesmente retornar ao país.
O analista crê que Machado irá remobilizar suas forças, seus apoiadores, e reorganizá-los para criar pressão interna, de modo que Washington empurre Caracas rumo a uma transição democrática com eleições livres.
Este será o processo mais crítico e difícil e, inevitavelmente, exigirá uma ampla coordenação das forças democráticas de dentro do país. Mas fazer isso de fora será difícil: muitas figuras da oposição que poderiam mobilizar apoio deixaram o país.
As exigências de Trump ultimamente deixam claro: ele quer o acesso às reservas de petróleo da Venezuela e influência geopolítica na região. Até agora, não houve apelos por reformas democráticas ou eleições livres.
Aparentemente, a Venezuela deve retornar à esfera de influência americana sob uma liderança cooperativa – com ou sem legitimidade democrática.

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