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Badbunny-se: como um cantor fez o Brasil se reconhecer latino

Quer outro exemplo nostálgico?
Na recente apresentação solo dele no Super Bowl, uma das imagens mais compartilhadas nas redes sociais dos brasileiros foi a cena do garotinho dormindo em cima de três cadeiras, enquanto os adultos se divertiam em uma festa.

Como podem as nossas histórias serem tão... iguais?

Quando Bunny se apropria de símbolos da cultura latina, e as ressignifica na forma de arte, é como se dissesse: nós existimos.
Por isso nos identificamos tanto.
E viramos fã do cara, mesmo não compreendendo 99% do que ele canta.

Quando estive em San Juan, capital do PR, foi como visualizar em 3D as letras de "DTMF".
E, ao mesmo tempo, sentir-se parte do lugar mais cool e contraditório que existe no mundo neste momento.

A turnê mundial de "DTMF" começou com uma residência de 30 shows na ilha.
Bad Bunny não incluiu os EUA no roteiro, o que foi uma crítica à política anti-imigração do governo Trump.
Mas também foi um convite para os estadunidenses irem em peso à ilha.

Várias organizações, como a Discover Puerto Rico, calculam que a residência gerou um impacto econômico direto e indireto entre US$200 milhões a US$700 milhões em gastos turísticos, como hospedagem, alimentação e transporte.

Alguns analistas estimam que os shows ajudaram a aumentar o PIB de Porto Rico em cerca de 0,15% a 0,4%.
Já a procura por voos para a ilha aumentou em 245% nos dias seguintes à apresentação do Super Bowl, segundo a revista Billboard.
É surreal.

Só que Porto Rico também sofre daquela clássica contradição latina: Bad Bunny trouxe tanto holofote para a ilha que, para muitos locais, essa é a oportunidade de ganhar dinheiro.
Mesmo que isso signifique ainda mais gentrificação, mais crise imobiliária e mais perda de identidade cultural (temas presentes na música "Lo Que Paso A Hawai").

Na praia de Condado, em San Juan, havia diversas placas contra a verticalização da orla.
Mas lá também tinha vários ambulantes vendendo um coco a incríveis US$14.
O que tinha de tão especial nesse coco?
O nome do disco "DTMF" gravado nele - perfeito para um registro nas redes sociais, afinal, não devemos tirar mais fotos?

Imagem de coco vendido em Porto Rico, mencionando o disco de Bad Bunny
Imagem de coco vendido em Porto Rico, mencionando o disco de Bad Bunny Imagem: Gustavo Miller
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Lojas de souvenirs vendem pela capital todo tipo de memorabilia do disco, de imãs de geladeira ao chapéu de palha La Pava.
No centro antigo até abriu um bar com o nome de "Cafe Con Ron", inspirado na faixa homônima do disco.
Um drink lá tem o mesmo preço de um cocktail em Miami ou Nova York.

Não sei como se chama essa malandragem em Porto Rico, mas no Brasil é "lei de Gérson".

Em 2022, Bad Bunny lançou "El Apagon", uma música que faz críticas aos cortes de energia elétrica que acontecem na ilha constantemente desde a passagem do Furacão Maria, em 2017.
Até hoje, todos quartos de hotéis ou de serviços como Airbnb de lá tem, por via de regra, velas e lanternas de emergência.

Quando estava em um bar no bairro de Santurcina e acabou a luz, os donos rapidamente trouxeram uma piscina de gelo e ligaram o som de um caminhão que já ficava estrategicamente posicionado lá na entrada do estabelecimento.

Não sei como se chama essa resiliência misturada com criatividade em Porto Rico, mas no Brasil é "gambiarra".

O que Bad Bunny ensina é que existe um tal "jeitinho latino" que nos une e que nos explica.
Que agora está na moda, com todas as suas contradições inclusas.
E que isso só a gente tem.

No Brasil chamamos isso de molho.
Em Porto Rico é sazón - misturado com bateria y reggaeton.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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