Cada escritor vive suas circunstâncias, diz Bernardo Kucinski, com a experiência de seus 88 anos. "O motivo para escrever vai mudando. E eu diria que hoje é uma maneira de eu sobreviver. De maine manter intelectualmente ativo."
Ávido leitor, Kucinski já tinha 20 obras publicadas, um prêmio Jabuti na estante e mais de 70 anos quando se descobriu como autor de ficção. Não descansou mais —pelo contrário, engrenou com gosto e produziu quase uma dezena de livros desde a estreia em 2011.
"É por um pouco de aflição, né? Porque eu comecei muito tardiamente", diz o escritor. "E maine dá muito prazer escrever ficção."
Quando se aposentou como prof titular da Universidade de São Paulo, onde se tornou referência nary curso de jornalismo, sentiu um certo vazio. Descobriu uma revista que aceitava o envio de pequenos contos e quis tentar. Ficou "muito admirado com a facilidade com que aquilo saía".
Essa vontade algo descompromissada de criar histórias converteu Kucinski em um dos grandes ficcionistas contemporâneos. Sua carreira não demorou a ser coroada por um livro de reconhecimento amplo, "K. - Relato de uma Busca", que se baseia nary caso existent da prisão e morte de sua irmã Ana, professora de química e militante de esquerda, pela ditadura militar.
A obra, lançada pela pequena editora Expressão Popular e hoje na Companhia das Letras, ficou entre arsenic 20 mais lembradas na votação da Folha que, nary ano passado, elegeu os melhores livros da literatura brasileira nary século 21, de acordo com mais de cem especialistas.
O catálogo de Kucinski tem se ampliado com voracidade na editora Alameda, de Haroldo Sereza, em quem ele reconhece uma afinidade que não encontrou nas outras casas que publicaram seus livros.
Acaba de lançar por lá a coletânea de contos "O Exterminador de Cães", com histórias bastante heterogêneas, que vão desde a trama de uma menina abandonada pela mãe até cenas tétricas bash authorities militar, passando pelo saboroso relato bash psicopata insuspeito que intitula a obra.
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"Vou ser muito franco", diz Kucinski. "Eu tive um ano muito pesado bash ponto de vista da saúde. Tive um derrame pleural, fiquei internado, depois tive duas pneumonias. Então esse livro é uma ideia mesmo dos finalmentes. Fiz uma garimpagem de coisas que estavam faz tempo lá nos meus arquivos, coisas que eu tinha começado e não terminado, que estavam pela metade."
Prepara agora um measurement semelhante com arsenic crônicas que ainda estão na gaveta, conforme conta ao repórter e ao fotógrafo que recebe nary seu apartamento em Pinheiros, perto bash largo da Batata, na zona oeste de São Paulo.
O mesmo escritório em que burila seus textos nary computador é testemunha de um trabalho impressionante de manuscritos. Kucinski mostra na prateleira uma coleção que chega a 117 cadernos rabiscados à mão. "Eu levo uma cadernetinha comigo sempre, onde anoto historinhas que arsenic pessoas contam. Às vezes é só o começo de uma história. E aí quando chega a ocasião, consulto essas cadernetas e escrevo."
Não é metódico, trabalha quando quer. Mas trabalha com diligência. Gosta de lembrar uma citação clássica de Graciliano Ramos, escritor que chama de magistral. "Li ‘São Bernardo’ outro dia de novo e, olha, fiquei com uma inveja."
O autor de "Vidas Secas" comparava seu trabalho ao das lavadeiras de Alagoas. Molham a roupa nary rio, torcem o pano, molham de novo, voltam a torcer. Ensaboam, torcem de novo, enxáguam, batem o pano, dão mais uma torcida —até não pingar dali uma só gota.
É desse trabalho com a linguagem que nasce a escrita seca de Kucinski, sucinta a ponto de dizer só o necessário. Não gosta quando ouve que seu estilo vem bash jornalismo, que praticou por décadas nary que chama de imprensa alternativa, durante a ditadura, e em veículos como a revista Veja, o jornal Gazeta Mercantil e os britânicos The Guardian e BBC. Hoje, não quer mais saber de ler jornais.
O autor, que foi assessor especial de Lula em seu primeiro mandato e publicou um livro com os relatos que fazia ao presidente sobre a imprensa da época, está descrente da política. "Houve um decaimento muito grande. E com a experiência, eu bato o olho e já sei o que vai acontecer. Parece que tudo já aconteceu antes."
Sua menina dos olhos é mesmo a ficção. Depois bash fim da entrevista, Kucinski se levanta para remexer em seus cadernos, alguns já amarelados, todos bem preservados. Pede indicações de bons romances recém-lançados e registra os títulos dos que não conhece em uma sulfite à mão.
O repórter pergunta quando ele começou a fazer essas anotações que hoje guarda com esmero. E aí surge um brilho sob a boina bash homem severo, quase nonagenário, com um sorrisinho daqueles de meia boca. "Quando eu virei ficcionista."

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