O título me pegou logo de cara: "When using AI leads to ?Brain Fry?". Em tradução livre, seria algo como: "Quando usar IA deixa o cérebro frito". Era exatamente assim que estava me sentindo. E, ao ler a matéria, descobri que um levantamento da Boston Consulting Group ajudava a explicar essa sensação.
O estudo envolveu mais de 1.400 empregados nos Estados Unidos, em grandes empresas de diferentes setores, cargos e níveis. Os pesquisadores cruzaram como cada um usava IA no trabalho com medidas de cognição e emoção. 14% dos trabalhadores relataram sentir exatamente aquilo que eles batizaram de "cérebro frito", uma fadiga mental que vem do excesso de uso ou de supervisão de IA além da capacidade cognitiva da pessoa.
A sacada do estudo foi descobrir que o que mais fritava o cérebro não era necessariamente a quantidade bruta de IA, mas a supervisão. Quem precisava monitorar de perto o que a máquina fazia gastava 14% mais esforço mental e sentia 12% mais fadiga. E isso faz total sentido. Supervisionar uma tarefa exige segurar o contexto e decidir tudo rapidamente e ao mesmo tempo, e a nossa atenção tem um limite baixo para isso.
Outro achado interessante do estudo é bem contraintuitivo. Esse cansaço não é necessariamente burnout. Enquanto o burnout é uma exaustão emocional, ligada ao sentido e volume de trabalho, "brain fry" é uma fadiga aguda dos mecanismos de atenção e memória de trabalho.
E tudo isso está estritamente relacionado com a maneira como usamos a tecnologia. A mesma IA pode nos levar para direções opostas. Quando a IA era usada para tarefas repetitivas e chatas, o burnout caía 15%. Só que quando exigia supervisão intensa, ela fabricava essa fadiga cognitiva.
Aqui entra um ponto importante. A tecnologia sempre alimentou a ilusão de que somos multitarefas, mas agora a IA leva esse engano para outro patamar. A moda é coordenar diferentes agentes e modelos para tentar ganhar produtividade, mas com um custo mental absurdo. O estudo mostrou que a produtividade sobe quando passamos de uma para duas ferramentas de IA, sobe um pouco mais na terceira e despenca a partir da quarta. O fato é que existe um limite, e ele não é alto.
Esse é um paradoxo que vamos precisar enfrentar. Se a IA promete produtividade, o modo de trabalho que ela exige está em descompasso com a nossa própria cognição. Encontrar esse ponto de equilíbrio será importante para aproveitar a potência da tecnologia sem sacrificar o nosso bem-estar mental.
E aqui entram algumas saídas possíveis.
A primeira é parar de empilhar IA sobre o humano. Supervisionar a máquina não é uma camada invisível do trabalho. Coordenar agentes, revisar respostas, corrigir erros e decidir o que fazer com cada resultado também consome energia (e muita).
A segunda é medir impacto, não volume. Usar mais IA não significa necessariamente trabalhar melhor. Pode significar produtividade, mas também pode significar mais ruído, mais retrabalho e mais fadiga. O fenômeno do token maxing, que já discuti aqui na coluna, mostra bem essa armadilha. Quando a métrica vira quantidade de uso, a tecnologia perde sentido porque vira um fim em si mesma.
Outro ponto é aprendermos a parar. A IA cria uma tentação permanente de continuar pedindo e ajustando as respostas. Só que existe um ponto em que a busca por uma resposta melhor vira apenas mais cansaço. Saber formular bem o problema é importante, e reconhecer a hora de parar é ainda mais.
Também precisamos reforçar a importância de tratar a atenção como recurso finito. As decisões mais importantes, o planejamento estratégico e a criatividade dependem de atenção concentrada. Se a IA passar a consumir esse recurso cognitivo em vez de liberá-lo, talvez o ganho de produtividade venha acompanhado da perda silenciosa da nossa capacidade de pensar com profundidade.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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