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Briga de herdeiros por terreno trava negócio de R$ 500 mi na orla do Recife

Esse programa possibilitou reduzir a dívida de ITCMD (Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação) do espólio do empresário de R$ 395 milhões para R$ 96 milhões. O prazo para concluir a operação termina em 31 de março.

Antigo cassino americano em imagem de 2017
Antigo cassino americano em imagem de 2017 Imagem: Google Street View

Entenda a batalha

Diante da possibilidade de desconto, quatro dos seis filhos do empresário procuraram, em novembro de 2025, a direção do Grupo João Santos. Juntos, formularam pedidos em três processos envolvendo o espólio e as empresas para solicitar autorização de venda.

No processo judicial do espólio, a autorização para venda da parte dos herdeiros foi dada no dia 27 de novembro, condicionando apenas a transferência formal da área para a Rio Ave após o pagamento de todas as dívidas do inventário —calculadas em R$ 123 milhões, incluindo ITCMD, tributos devidos e despesas do inventário.

A mesma autorização foi concedida em outros dois processos: o da recuperação judicial do grupo e o da ação criminal que corre na Justiça Federal.

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Em 2021, o Grupo João Santos foi alvo da operação Background, da Polícia Federal, que apurou prática de crimes tributários, financeiros e lavagem de dinheiro. Além disso, bloqueou os bens da empresa, que só podem ser vendidos com autorização específica.

Sede do grupo João Santos, no Recife
Sede do grupo João Santos, no Recife Imagem: Google Maps

Começa a briga

A divergência surge quando dois herdeiros contestam a venda do terreno e, em seguida, afirmam à Justiça que teriam uma proposta de maior valor, feita pela empresa Moura Dubeux já após o encerramento da negociação.

A proposta da Rio Ave foi de R$ 171 milhões em dinheiro e 10.605 m² em unidades imobiliárias futuras. Já a proposta da Moura Dubeux, apresentada após parte da família já ter aceitado a da Rio Ave, foi de R$ 185 milhões mais a mesma área a ser permutada no futuro.

Em qualquer um desses valores, o Grupo João Santos teria direito a 30% da sua parte apenas em dinheiro, que seria destinado à amortização de débito tributário federal.

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No caso da cessão das áreas privativas no futuro, o valor atribuído ao m² pela Rio Ave é de R$ 35 mil, o que dará direito aos herdeiros a um total de mais R$ 371 milhões quando os imóveis ficarem prontos.

Área à beira-mar que é alvo de disputa no Recife
Área à beira-mar que é alvo de disputa no Recife Imagem: Google Maps

Saga judicial

Após ordem judicial, o contrato de promessa de compra e venda entre Rio Ave e herdeiros foi assinado no dia 20 de janeiro.

A partir desse acordo, teve início uma série de pedidos judiciais da Moura Dubeux, que recorreu dentro dos processos do espólio e da recuperação judicial.

No caso do espólio, a construtora perdeu e já foi retirada da causa, conforme decisão do dia 4 de março do juiz Ígor da Silva Rêgo, da 3ª Vara de Sucessões e Registros Públicos da Capital.

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Já no processo da recuperação judicial, uma decisão de 3 de março do desembargador Gabriel de Oliveira Cavalcanti Filho suspendeu a venda dos 30% do grupo até uma análise mais detalhada do caso.

MP a favor, credores contra

No processo de recuperação judicial, o MP (Ministério Público) foi acionado e sinalizou ser favorável à venda à Rio Ave, levando em conta a celeridade prometida para pagamento.

Em parecer dado na sexta-feira passada, o procurador Paulo Henrique Queiroz Figueiredo avaliou que a proposta da Moura Dubeux poderia demorar a ser paga e que "isso representaria a ruína financeira do acervo hereditário e prejudicaria a satisfação ordenada dos demais credores do grupo econômico".

Ainda nesse processo, a Associação de Credores Trabalhistas do Grupo João Santos acionou a Justiça para se posicionar contra a venda no modelo proposto, já que o valor pago aos herdeiros é proporcionalmente maior que o ofertado ao grupo João Santos.

O questionamento é que, além dos R$ 171 milhões pelo terreno, apenas os herdeiros teriam direito aos 10 mil m² de apartamentos prometidos no futuro.

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"Como se observa facilmente, o valor do m² médio de comercialização de obra pronta será, em média (considerando os empreendimentos similares já existentes), de R$ 38.000,00 [a Rio Ave fala R$ 35 mil], concluindo-se, assim, que os Espólios (sócios/herdeiros) do Grupo João Santos receberão a título de dação, em obra construída, a importância de 10.605 m² x R$ 38 mil, totalizando R$ 403 milhões", argumenta.

Protesto de credores em frente ao grupo João Santos
Protesto de credores em frente ao grupo João Santos Imagem: "Grupo João Santos Pague Meu Dinheiro"

Venda direta

Mesmo após a decisão no processo do espólio, os dois herdeiros contrários à venda à Rio Ave decidiram fechar contratos diretos com a Moura Dubeux para venda de suas partes da área, contrariando a ordem judicial que determinava a venda conjunta.

Os contratos da Moura com esses dois herdeiros foram fechados nos últimos dias 5 e 11, e os valores da negociação já foram inclusive pagos pela construtora. No caso do espólio de Ana Noronha, o valor do imposto devido já foi quitado, conforme comprovantes obtidos pela reportagem.

Diante da assinatura direta com esses dois herdeiros, o Grupo João Santos formalizou reclamação à CVM (Comissão de Valores Mobiliários) pedindo apuração de "eventuais infrações administrativas, inclusive eventual prática de gestão temerária". O grupo alega que houve "abuso de direito travestido em pretensão indevida em juízo".

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Briga da família com a Moura

Segundo consta nos documentos apresentados à Justiça, os quatro irmãos alegam que não querem vender suas partes à Moura Dubeux porque dizem ter tido problemas no passado com a empresa, que inclusive teria um débito referente ainda a 2006 no valor de R$ 22 milhões — o que a Moura nega.

Por conta disso, e por alegarem se tratar de um terreno particular, os quatro herdeiros afirmam que não aceitam fazer negócio já que, além do valor pago agora, teriam de manter a relação durante a construção de prédios para receber a parte em permuta da negociação.

A defesa de Fernando Santos alegou ao UOL que o motivo de não autorizar a venda de sua parte à Rio Ave é exclusivamente o valor abaixo. A coluna não conseguiu localizar a defesa do espólio de Ana Noronha. Em manifestações à Justiça, ela afirma o mesmo que Fernando: que a decisão de vender sua parte separadamente se deveu ao maior valor oferecido.

Escritório Moura Dubeux no Recife
Escritório Moura Dubeux no Recife Imagem: Google Street View

Rio ave fala

Procurada, a Rio Ave alega que a proposta da Moura Dubeux foi dada após a negociação já estar concretizada e que a venda da área tem aval das procurarias da fazenda nacional e estadual.

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Em nota, afirma que "a aquisição está seguindo os trâmites legais e sua conclusão depende apenas das autorizações judiciais".

A construtora informou ainda que efetuou, ontem, o pagamento que faltava do ITCDM dos herdeiros, o que demonstra confiança de que a negociação será concluída em breve.

Moura Dubeux reclama

Também procurada pela coluna, a Moura Dubeux questionou o argumento da indivisibilidade e afirmou que o terreno pode, sim, ser dividido e vendido em partes individualmente pelos herdeiros.

A empresa entende que já é dona de 2/6 da parte dos dois herdeiros e diz que aguarda o julgamento do mérito do TJ no processo da recuperação judicial. O entendimento do grupo é que a proposta de maior valor não pode ser desprezada por um grupo em recuperação judicial.

A construtora também afirma que está disposta a comprar a parte dos outros quatro irmãos pelo valor pago aos dois primeiros, caso assim desejem, e que esse pagamento pode ser feito de imediato, a tempo de quitar os débitos com desconto.

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Grupo João Santos se manifesta

Em nota à coluna, o Grupo João Santos diz "que a operação envolvendo a alienação do conjunto de imóveis denominado "Cassino Americano" vem sendo conduzida em conformidade com a legislação aplicável e no âmbito das decisões judiciais proferidas pelos juízos competentes.

Disputa antiga dos irmãos

A disputa entre os irmãos é antiga e nunca foi resolvida. Na decisão de partilha dos bens, após anos sem acordo, a Justiça decidiu em 2017 que cada um dos herdeiros deveria ter direito a exatos 1/6 do patrimônio deixado. Entretanto, para finalizar o espólio e acessar a herança, é preciso quitar todos os débitos.

Uma das herdeiras, Ana Maria Noronha, morreu em 10 de janeiro de 2025. O espólio dela é contra a venda à Rio Ave e a favor da Moura Dubeux.

A crise familiar se agravou após as denúncias de fraudes da operação Background. Em 2022, a família conseguiu retirar Fernando Cerqueira dos Santos, então presidente do Grupo João Santos, do cargo de inventariante. Em seu lugar, a Justiça nomeou um inventariante dativo (externo) para a família.

Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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