A reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Márcia Barbosa, quer inaugurar o campus de Caxias do Sul em março de 2026 - o que deve representar um investimento de R$ 60 milhões na serra gaúcha. Conforme a reitora, as instalações na Serra foram pensadas para integrar a academia com as atividades econômicas locais.
Para viabilizar essa integração, Márcia Barbosa está trabalhando para reduzir o tempo para aprovação de parcerias entre a universidade e o setor privado, de um ano para um mês. O terceiro campus da Ufrgs - depois do de Porto Alegre e Tramandaí - deve receber os cursos de Engenharia, Administração, Pedagogia, Ciências de Dados, Artes Cênicas e Psicologia.
A reitora da Ufrgs acredita que a universidade desenvolve pesquisas que podem contribuir para a sociedade gaúcha, como nas áreas de saúde mental dos jovens brasileiros e as expedições ao Polo Sul para estudar as mudanças climáticas entre outros assuntos.
Nessa entrevista ao Jornal do Comércio, ela também explicou por que considera a política de cotas um sucesso. Além disso, comentou os seus planos para agilizar o registro de patentes.
Jornal do Comércio - O que levou a Reitoria a propor o terceiro campus da Ufrgs em Caxias do Sul?
Márcia Barbosa - O governo federal tem planos de abrir 10 novos campi de universidades federais no Brasil e, ao estudar as possibilidades, olhou para onde havia poucas vagas públicas. No Sul do Brasil, uma dessas regiões é a serra gaúcha. Então, o Ministério da Educação nos perguntou que universidades (federais do Rio Grande do Sul) teriam condições de estabelecer um campus lá. Nós entendemos que era uma tremenda oportunidade para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no sentido de ingressar em uma região que tem muitos estudantes, um amplo espectro para extensão universitária e grandes possibilidades de interação entre a academia e as empresas locais. Para mim, o desafio de abrir um campus na Serra se transformou em uma oportunidade.
JC - Qual o tamanho do investimento?
Márcia - O governo federal oferta R$ 50 milhões para a aquisição dos espaços onde irão funcionar os cursos, mais R$ 10 milhões para equipar o espaço. Além disso, há um número de 160 vagas para docentes e 140 vagas de técnicos administrativos em educação. Após negociações, já temos um aceno positivo para a ampliação do orçamento do ano que vem. Temos uma comissão que fez todos os levantamentos econômicos, número de estudantes, os cursos de maior interesse, os que já existem na região, as empresas que absorvem a mão de obra.
JC - Quais serão os cursos ofertados lá?
Márcia - Os primeiros cursos são três cursos de engenharia (Agrícola, Mecânica e de Materiais), Administração, Pedagogia e Ciência de Dados. Também estamos negociando um curso de Psicologia e um curso de Artes Cênicas.
JC - Todos os cursos serão ofertados no mesmo local? Ou o campus de Caxias será descentralizado?
Márcia - Estamos analisando uma série de espaços possíveis, não é um só espaço. Obviamente, não vamos adquirir o espaço até termos a autorização do Conselho Universitário, o que deve ser discutido em uma reunião no mês de setembro. Uma vez que o Conselho Universitário nos autorize, partimos para a negociação da compra do espaço. Aí vamos correr para aprovar os cursos no MEC.
JC - E a ideia é abrir os primeiros cursos em 2026?
Márcia - Exatamente. O plano é abrir, pelo menos, um ou dois cursos em março de 2026. E já queremos começar com extensões e alguma pós-graduação.
JC - Um dos objetivos do campus de Caxias do Sul é a integração com a indústria local?
Márcia - Não só da indústria. Por exemplo, uma das engenharias é a agrícola, que deve trabalhar junto com os pequenos agricultores também. Um dos desafios é trazer digitalização para esse setor. Para o setor de serviços também, que é muito forte na região da Serra. Ou seja, vai ser muito articulado com as empresas. Queremos muito trabalho dentro das fábricas, mão na massa, resolução dos problemas das empresas. Vamos ter estudantes com outro formato, estudante com turnos livres para trabalhar, um perfil montado para a região.
JC - A ideia é que a universidade faça parcerias com empresas privadas?
Márcia - Estamos acelerando os processos internos para a interação público-privada. Em geral, levam um ano (para serem aprovadas pela universidade). Para acelerar, propomos ao Conselho Universitário uma mudança na estrutura do encaminhamento dessas interações. Meu objetivo é que, até o final do ano, elas sejam aprovadas em um mês. O setor público também gosta de agilidade.
JC - Há muitos setores que desejam essa integração da universidade com a sociedade. Essa é uma tendência? Como enxerga a atuação das universidades no Brasil?
Márcia - A universidade brasileira tem uma grande vantagem com relação às de fora do Brasil: a extensão. Hoje, nos Estados Unidos, as universidades sofrem um ataque. Além de elas não terem projetos de extensão junto à comunidade, não têm nem um canal para conversar com as pessoas. Já as nossas universidades têm extensão. O que a gente precisa é expandi-la ainda mais. Não somente em direção ao setor privado, mas também à sociedade. Devemos ajudar a resolver o problema das diferentes comunidades, seja na separação do lixo, agricultura sustentável, sustentabilidade, conscientização. Obviamente, isso requer recurso. Então, precisamos fortalecer os recursos públicos para desempenharmos esse papel.
JC - Acredita que a integração com a sociedade evita uma crise de legitimidade das universidade?
Márcia - Com esta ligação entre a universidade e a sociedade, fica muito difícil acontecer o que está acontecendo nos Estados Unidos, onde um presidente está destruindo as universidades. Mas, se a sociedade estadunidense estivesse ligada à Harvard, à Princeton e outras, ela estaria na rua brigando para mantê-las. Mas, como eles não têm projetos de extensão, as pessoas olham para essas universidades e pensam que é um local de elite. Esta transformação a nossa universidade já está fazendo, mas precisa ampliar. O campus de Caxias faz parte desse esforço, porque, desde o início, ele é pensado para esse diálogo com essa sociedade.
JC - A senhora poderia citar uma ou duas linhas de pesquisa desenvolvidas na Ufrgs que contribuem para a sociedade gaúcha?
Márcia - Hoje, a Ufrgs tem um projeto de pesquisa que ganhou um edital de saúde mental. Trata-se de uma pesquisa para entender como está a saúde mental do jovem brasileiro. É capitaneada por um grupo aqui da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, coordenado pelo professor Flávio Kapczinski. Além disso, a Ufrgs liderou um projeto de circum-navegação do Polo Sul. Essa não é uma coisa trivial, o professor Jefferson Simões liderou esse projeto com países do Brics, da América Latina. Também temos projetos em energia eólica, em energia solar, em hidrogênio verde, todas essas coisas que as pessoas ficam citando aí como se fossem tecnologias de um outro planeta. Nas Ciências Sociais, nossos pesquisadores tem quase que termômetros para avaliar as políticas públicas do Estado. Por exemplo, o Orçamento Participativo era democrático no início, mas, medindo a democracia agora, estamos menos democráticos, ou seja, o OP não está atingindo o seu objetivo. Nós somos 35 mil pessoas atuando na universidade, o que nos permite ter pesquisas em todas as áreas do conhecimento.
JC - Como a senhora vê o caso do sistema de proteção contra as enchentes, em que o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo (MDB), e o governador do Estado, Eduardo Leite (PSD), foram consultar especialistas nos Países Baixos, em vez dos pesquisadores locais?
Márcia - Só nos chamam quando dá ruim. Aí vamos lá fazer medições, produzir tecnologias para limpar, ajudar a saúde pública, fazer acolhimentos. Depois querem que voltemos para casa. Só que essa gestão (da Reitoria) não vai ficar dentro da caixa. Vamos estar na sociedade o tempo todo presente. Inclusive, uma das coisas que estamos desenvolvendo agora é o nosso próprio sistema de alertas.
JC - As cotas voltam ao debate público, de tempos em tempos. Qual a sua opinião sobre as cotas?
Márcia - As cotas existem na Ufrgs desde 2007 e a gente continua sendo a melhor federal do Brasil. Na época, diziam: "as cotas vão deixar a universidade ruim". Não deixaram. Mais que isso, existe um estudo da consultoria McKinsey mostrando que, quando há diversidade de pessoas trabalhando juntas, tendo direito à fala e à escuta, o setor fica mais produtivo. Nesse estudo, eles analisam as 500 maiores empresas do mundo e eles descobrem que se ganha mais dinheiro com as cotas. Na Ufrgs, há um desafio para as pessoas permanecerem na universidade por várias razões, racismo é uma delas. Por isso, criamos em maio a Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade. Ou seja, não só temos cota, agora temos uma Pró-Reitoria para ajudar as pessoas cotistas a terem as mesmas possibilidades que todo mundo.
JC - A senhora sente que teve uma mudança no perfil dos alunos após as cotas?
Márcia - Com certeza, temos muito mais pessoas se formando vindas de estratos sociais mais pobres, mais pessoas negras. Para mim, um dos grandes impactos disso é ver o número de vereadores e vereadoras negras eleitos aqui em Porto Alegre, porque, para ser um parlamentar, tem que ter uma formação. São pessoas egressas dessa formação. Então, já é uma história de sucesso. Outro caso é que estamos mudando o que a gente ensina. Hoje em dia, não posso ter o conteúdo de uma disciplina, por exemplo, de literatura sem ter autores e autoras negras, pessoas que olhem a questão indígena etc. O que enriquece uma sociedade é pensar fora da caixa. Se eu tiver muitas vivências, tenho soluções mais criativas. E isso já começa a acontecer.
JC - Uma das corridas no mundo hoje é pelo registro de patentes. Como isso funciona na Ufrgs?
Márcia - Existe uma burocracia imensa para depositar uma patente. Além do tempo ser alargado, é necessário dinheiro para fazer esse depósito. Então, a primeira coisa que a gente está fazendo é diminuir o tempo das interações entre a universidade e o setor privado, porque a patente só faz sentido se tu vais transformar aquilo em um produto na prateleira. Não é a função da universidade colocar produto na prateleira, então o que a gente está fazendo é agilizar a interação com as empresas (que transformam as patentes em produtos). A partir disso, a gente vai atacar os tempos e o financiamento das patentes.
JC - A senhora pode dar um exemplo de patentes desenvolvidas pela Ufrgs?
Márcia - A Faculdade de Agronomia é historicamente forte nisso. Temos uma estação experimental agronômica com 1,6 mil hectares que planta, faz testes em produção e desenvolve variedades de cultivos. Uma das patentes importantes é da aveia, que ganha royalties da Quaker.
JC - Muitas vezes, as universidades públicas sofrem ataques como os que a senhora mencionou nos Estados Unidos...
Márcia - Os ataques às universidades são uma estratégia internacional. Ela já acontece no Brasil de uma maneira sutil, com essas universidades que eu chamo de "fast food", que estão na bolsa de valores. Não estou falando das comunitárias, mas essas universidades que dão diploma por "R$ 1,99 ao mês". Um diploma que não dá formação, só treinamento para as pessoas. Ao mesmo tempo, essas universidades baratas ficam falando que a universidade pública forma engenheiros para virarem motoristas de uber. Quem se forma em Engenharia e vira uber é quem vem de "universidades fast food". O Brasil tem empregabilidade para quem tem uma boa formação. Essa lógica de atacar a universidade está sendo usada nos Estados Unidos, porque esse sistema de "universidades fast food" quer entrar no mercado do Norte global.

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