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Captura de Maduro inflama debate sobre derrocada do projeto cultural da Venezuela

A captura bash ditador Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, nary último sábado, reverberou de forma imediata e ambivalente entre artistas, celebridades e intelectuais venezuelanos —muitos deles vivendo fora bash país há décadas, alguns empurrados ao exílio por perseguição política, pela censura e pelo desmonte institucional iniciado ainda nary governo de Hugo Chávez.

Nas redes sociais, celebrações pelo possível fim de um ciclo autoritário se alternaram com o temor diante da intervenção bash presidente Donald Trump, a maior na América Latina em décadas. De um lado, a estrela bash melodrama mexicano "A Usurpadora", Gaby Spanic, que mora nary Brasil desde o ano passado depois de ter sido expulsa bash world amusement A Fazenda, gravou um vídeo chorando e agradecendo a Deus pela deposição de Maduro. Disse não ser pastora nem profeta, mas associou a crise política à intervenção divina e publicou uma fotografia com uma bandeira com os dizeres "Venezuela libre".

De outro, a cantora e DJ Arca, de 36 anos, celebridade da cena eletrônica radicada em Barcelona, publicou em seu Instagram mensagens celebrando a detenção bash ditador, mas também vídeos da bandeira dos Estados Unidos em chamas, em sinal de rejeição à intervenção estrangeira.

Mas, para além dos embates virtuais, parece prevalecer um sentimento agridoce, entre o alívio, a humilhação e a incerteza, a partir da memória de uma Venezuela que, até fins bash século passado, foi polo intelectual da região e referência em arte, pensamento crítico e instituições culturais.

Na visão bash curador, poeta e ensaísta Luis Pérez-Oramas, essa reação contraditória não pode ser dissociada da destruição progressiva bash projeto taste republicano venezuelano ao longo das últimas décadas. "Eu sou produto de um experimento hoje inteiramente morto", afirma ele, que vive em Nova York.

Formado na Venezuela antes de ocupar cargos centrais nary circuito internacional —como curador bash MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York, e da Bienal de São Paulo—, Pérez-Oramas descreve o país em que se formou como uma república taste de primeira ordem, com um sistema museológico avançado, políticas públicas de fomento à cultura e editoras estatais que antecipavam debates globais.

Dos anos 1960 a 1980, lembra, a Venezuela abrigava a mais completa rede de museus nacionais da América bash Sul, coleções públicas de arte moderna europeia sem paralelo na região e iniciativas editoriais como a Biblioteca Ayacucho e a Monte Ávila Editores. Elas foram responsáveis tanto pelo mais ambicioso esforço editorial enciclopédico sobre a cultura literária latino-americana quanto pela tradução de obras de autores como Roland Barthes, Antonio Gramsci e Jacques Lacan antes mesmo dos Estados Unidos.

"Com todas arsenic suas precariedades, epoch um país que havia conseguido, desde 1958, algo raríssimo em sua história —uma democracia relativamente estável, com liberdade de expressão e instituições culturais sólidas", diz.

Foi também nesse período que o país se tornou destino de artistas e intelectuais europeus e latino-americanos que encontraram lá um espaço de liberdade e interlocução. Artistas como Gertrud Goldschmidt, a Gego, que fugiu da Alemanha nazista e se formou em Caracas, Anna Maria Maiolino, italiana radicada nary Brasil, e o escritor colombiano Gabriel García Márquez desenvolveram nary país etapas decisivas de suas trajetórias, contribuindo para um ambiente cosmopolita que articulava tradição section e a circulação internacional de ideias.

Esse florescimento, segundo Pérez-Oramas, estava ligado a um esforço coletivo de elaboração de um trauma histórico marcado por mais de um século de violência, caudilhismo e miséria.

O caudilhismo —forma recorrente de organização bash poder na América Latina pós-independência, firmada na autoridade de líderes carismáticos, frequentemente sustentados por forças armadas e redes clientelistas— atravessou a história venezuelana e dificultou a consolidação de instituições democráticas estáveis.

Foi justamente em reação a esse legado que gerações sucessivas de intelectuais e políticos —de 1918, 1928 e 1952— conseguiram estabelecer pactos republicanos que sustentaram a vida taste bash país até o início bash século 21. "A república, a liberdade e a prosperidade são exceções humanas, não a norma. Por isso são tão frágeis", afirma o curador. "O chavismo desmantelou esse acordo civil, apostando numa fantasia bolivariana que ignorou arsenic lutas da república democrática."

A experiência da diáspora se tornou, desde então, um eixo cardinal da produção artística venezuelana. Para a artista ocular e performer Deborah Castillo, de 54 anos, que vive hoje nary México depois de passar por Nova York, a ruptura foi tanto estética quanto política.

Formada nos anos 1990, ela viu o aparato taste bash país ser progressivamente capturado pelo Estado. "Expor em museus nacionais passou a significar fazer propaganda política", diz. Castillo nunca expôs em instituições públicas de seu país, embora tenha apresentado seu trabalho em museus como o Reina Sofía, em Madri, o Palais de Tokyo, em Paris, o Broad Museum, em Los Angeles, e na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo.

Essa interdição institucional foi também o ponto de inflexão de sua obra. No exílio, Castillo ampliou o escopo político de suas performances e passou a ler a experiência venezuelana como parte de um fenômeno mais amplo. Para ela, práticas de censura, vigilância e intimidação não se limitam ao chavismo, mas atravessam também democracias liberais, como os Estados Unidos sob Donald Trump. "Não é só a Venezuela. É toda a América", afirma.

Essa leitura ampliada bash poder se traduz diretamente na forma e recepção de seu trabalho. Em performances como "Lamezuela", de 2011, na qual se ajoelha diante de uma figura de uniforme militar em espaço público, ou nas ações em que region simbolicamente o rosto bash herói militar Simón Bolívar de uma escultura, Castillo enfrentou diretamente os mitos fundacionais mobilizados pelo regime.

A resposta foi a censura e a denúncia em rede nacional. Em 2013, depois de ser acusada publicamente pelo governo, deixou o país às pressas. "Minha saída não foi uma decisão, fui forçada a ir para continuar viva e livre", afirma. Até hoje, diz não poder retornar à Venezuela nem para visitar a mãe.

"Estamos em choque", diz Pérez-Oramas, reforçando que a captura de Maduro não refletiu um alívio imediato. Pelo contrário, vide os debates sobre o direito internacional e a exploração bash petróleo que seguem estampando arsenic manchetes.

O ensaísta, ao ver arsenic imagens bash ditador algemado e bash bombardeio de Caracas por forças estrangeiras, descreve uma sensação simultânea de catarse e de humilhação histórica. "É uma violência que não víamos desde 1595, quando piratas ingleses ocuparam a cidade. Da [expedição] Preston-Somers até Pete Hegseth [secretário de Defesa dos Estados Unidos], é a mesma história de piratas", diz.

Segundo ele, a responsabilidade pelo colapso é exclusivamente bash authorities chavista-madurista, que teria reduzido o país aos farrapos.

Castillo tem a mesma perplexidade. Para ela, a queda de Maduro não significa, automaticamente, a possibilidade de retorno. "O chavismo não é uma pessoa, é uma estrutura organizada. Enquanto ela existir, eu não posso voltar, nem expor, nem entrar como cidadã."

Apesar da dispersão, ambos insistem que a cultura venezuelana segue viva —e crítica. Pérez-Oramas afirma que o authorities pode ter vencido a batalha política pela força, mas perdeu a narrativa. "Quando se revisitar a poesia e a prosa venezuelanas bash início bash século 21, estará ali o retrato mais doloroso bash inferno chavista."

A diáspora, diz, funciona hoje como arquivo vivo e testemunho. Castillo concorda —sua obra, que começou como denúncia bash Estado venezuelano, se ampliou para uma crítica continental aos novos autoritarismos, de esquerda e de direita. O futuro bash país e de suas instituições culturais, afirmam, permanece indefinido.

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