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- Author, Alicia Hernández
- Role, BBC News Mundo
Há 37 minutos
Tempo de leitura: 10 min
Delcy Rodríguez não tem um mês como mandatária da Venezuela, mas seu poder vem se fortalecendo há anos.
Desde então, Rodríguez alterou boa parte dos responsáveis pelos ministérios e funções próximas, como o gabinete presidencial e o responsável pela Guarda de Honra Presidencial; retirou aliados de Maduro da primeira linha da política; reuniu-se em Caracas com o diretor da CIA, Jon Ratcliffe; e assinou um acordo segundo o qual os Estados Unidos comercializarão até 50 milhões de barris de petróleo venezuelano.
Ela chegou até mesmo a receber elogios do presidente americano, Donald Trump.
Paralelamente, ela denuncia o "sequestro de dois heróis que temos como reféns nos Estados Unidos da América do Norte", como declarou no seu discurso de posse, em referência a Maduro e Flores.
Ainda é cedo para determinar o rumo que irá seguir Delcy Rodríguez, considerando as dinâmicas internas, tanto da Venezuela quanto do próprio chavismo, além da natureza instável de Donald Trump.
Mas é possível sugerir uma linha, considerando seu histórico, o círculo de confiança que a rodeia e as pessoas a quem ela vem concedendo protagonismo.
'Dragão de duas cabeças'
Delcy Rodríguez não foi uma figura relevante no governo do ex-presidente Hugo Chávez (1954-2013).
Ela teve rápida passagem pela Secretaria da Presidência, "mas não teve as melhores relações possíveis com ele", conta à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) Mariano de Alba, pesquisador venezuelano associado ao Instituto Internacional para Estudos Estratégicos, no Reino Unido.
Quem conseguiu construir fortes vínculos no chavismo desde o princípio foi seu irmão, Jorge Rodríguez. De um dia para outro, ele deixou de atender pacientes no seu consultório de psiquiatria para ser reitor do Conselho Nacional Eleitoral (CNE).
Jorge Rodríguez chegou a ser presidente do Conselho e, posteriormente, vice-presidente executivo e prefeito do Município Libertador, onde se localiza Caracas. E seu currículo inclui ainda o Ministério das Comunicações, o cargo de deputado e, agora, presidente da Assembleia Nacional.
"Jorge sempre foi mais público, o que se mobilizou, que dirigiu campanhas para Chávez", segundo o jornalista César Bátiz, diretor do portal jornalístico venezuelano El Pitazo.
"Também é mais beligerante. Sua irmã mais nova [Delcy] é mais quieta, mas esta comparação é injusta. Não é possível compreendê-los separadamente", explica ele.

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Bátiz define a relação entre Jorge e Delcy Rodríguez com as palavras do pesquisador russo Daniel Estulin: "um dragão de duas cabeças".
"O maior aliado de Delcy Rodríguez é seu irmão. Eles têm uma agenda", segundo ele.
"Os dois passaram quase pelos mesmos cargos, exceto que Jorge não tem experiência com economia. Ambos sabem e conhecem como tudo funciona, por dentro e por fora. Você não pode considerá-los separadamente."
Andrés Izarra foi ministro de Chávez e de Maduro. Ele deixou o cargo dias depois da prisão do opositor Antonio Ledezma, padrasto de sua esposa, em 2015. Ele compartilha a mesma visão.
"Jorge acumulou o controle legislativo e os canais de negociação", explica ele. "Delcy ficou com a vice-presidência, a economia e as relações exteriores. Quando era preciso abrir as portas do lado de dentro, eles tinham as chaves."
Com a captura de Maduro, os principais poderes do país estão nas mãos dos Rodríguez. Ela é a chefe do Executivo e ele, do Legislativo.
Izarra classifica os irmãos como "os Fouché desta história". Ele faz referência ao político francês Joseph Fouché (1759-1820), que sobreviveu à Revolução Francesa (1789-1799), ao império de Napoleão (1804-1815) e à Restauração que se seguiu (1815-1830).
"A lealdade dos Rodríguez é ao poder em si, qualquer poder. Eles não teorizam sobre como exercê-lo, só como sobreviver a ele."
Existem diversos desafios à frente para Delcy Rodríguez.
"A elite autoritária tem diversos dilemas. Entre eles, manter o controle, satisfazer as exigências dos Estados Unidos e conseguir uma reconfiguração rumo a um 'chavismo 3.0', que permita sobreviver a esta conjuntura após a captura de Maduro", segundo Maryhen Jiménez, doutora em Ciências Políticas da Universidade de Oxford, no Reino Unido.
Paralelamente, a presidente enfrenta um paradoxo, pois "o chavismo se identificou como anti-imperialista e, agora, precisa conviver com a tutela dos Estados Unidos", declarou Jiménez.
A reorganização entre os participantes, com Trump, as diferentes facções do chavismo e as bases chavistas "é um equilíbrio muito frágil".
"É possível pensar que serão priorizados perfis com lealdade pessoal, a quem se possa delegar tarefas complexas e que permitam atravessar este momento", afirma Jiménez.
A especialista em autoritarismo e democratização explica que "é necessário fazer concessões para os Estados Unidos, sobretudo no setor econômico; existem, por sua vez, inúmeras demandas sociais acumuladas, causadas pelo colapso do Estado; e exigências de liberalização política, ou seja, o fim da repressão da sociedade e da oposição".

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Mariano de Alba destaca que o círculo mais próximo de Delcy Rodríguez, além do seu irmão, é formado por "pessoas com vínculo técnico e econômico [...] mais tecnocrata, mas que têm como ponto de referência que este é o governo mais tecnocrata que se poderia esperar dentro do chavismo".
Um dos primeiros nomes é Félix Plasencia, atual Embaixador da Venezuela no Reino Unido.
Na semana passada, diversos órgãos de imprensa noticiaram que Caracas enviou Plasencia para Washington, a fim de mediar e fazer "avançar a reabertura da Embaixada da Venezuela", segundo o jornal The New York Times.
"Plasencia é um homem de Delcy e Jorge, você não pode separá-lo, sobretudo dela", explica César Bátiz.
"Ele tem um perfil mais limpo, não tem acusações contra ele e, onde está, não pode ser responsável por violações de direitos humanos. É fiel aos irmãos e fará o que lhe disserem. Se tiver que ser moderado, será."
"Não é um chavista tradicional, não tem uma posição tão forte", destaca ele.
Sobre Plasencia, Mariano de Alba afirma que é "uma pessoa com conexões no mundo empresarial e internacional".

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Delcy Rodríguez foi encarregada da política econômica nos últimos tempos do governo Maduro. A ela se atribuiu a liberalização que aliviou parcialmente a situação crítica do país.
A economia parece ser tema prioritário nesta nova etapa.
Neste sentido, outro membro do seu círculo é Calixto Ortega Sánchez, nomeado como vice-presidente setorial da Economia. Antes, ele foi presidente do Banco Central da Venezuela (BCV).
De Alba destaca que ele "estudou fora da Venezuela, é uma pessoa com muito boas conexões, conhece bem o tema econômico e o dirige com certa destreza".
O pesquisador destaca outros nomes no setor econômico. Um deles é o pouco conhecido Héctor Silva, "advogado especialista em negócios internacionais que vem dirigindo o tema da mineração no sul da Venezuela".
Román Maniglia, "presidente da Pequiven, a corporação estatal encarregada de produzir e comercializar produtos petroquímicos, foi presidente do Banco da Venezuela e um dos principais aliados de Delcy Rodríguez".
Outro nome é o da advogada e economista Anabel Pereira, vice-presidente do BCV e ministra da Economia e Finanças. Ela assumiu o cargo com Maduro "porque Delcy Rodríguez o convenceu da nomeação".
"Observando os nomes em conjunto, eu diria que são pessoas bem preparadas, profissionais, concentradas não tanto no lado ideológico do chavismo (embora sejam chavistas), mas em conseguir resultados econômicos", analisa De Alba.
Nomes não tão novos
Entre as últimas nomeações feitas por Delcy Rodríguez nos últimos dias, encontra-se Gustavo González como Comandante-Geral da Guarda de Honra Presidencial e principal responsável pela Direção Geral de Contrainteligência Militar (DGCIM).
César Bátiz explica que ele, "agora, é a mão militar mais forte de Delcy".
O jornalista ressalta que, anteriormente, González "era reconhecido como pessoa fiel e grande amigo de Diosdado Cabello", ministro do Interior. "Mas, agora, ele joga fechado com ela."
González foi responsável pelo Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin) e recebeu sanções dos Estados Unidos em 2015, durante o governo Barack Obama (2009-2017). Ele foi acusado de ser "responsável ou cúmplice de atos significativos de violência ou conduta que constituem abuso ou grave violação dos direitos humanos".
Outro nome que não é novo é o de Juan Escalona. Ele foi assistente de Chávez e membro próximo do círculo de Maduro.
Acreditou-se, em um primeiro momento, que ele havia sido morto nos ataques americanos do dia 3 de janeiro. Mas, agora, ele assume o Gabinete Presidencial.
"Não é um cargo pequeno", destaca Bátiz. "Tem muito acesso e isso é muito estranho. Pode ser um prêmio de consolação ou para manter a aparência."
"Eu o incluo como um dos possíveis traidores de Maduro, pois conhecia muitos detalhes sobre ele."

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Outra nomeação recente foi a de Miguel Pérez Pirela como ministro das Comunicações, considerado "um dos funcionários afrancesados". A própria Delcy se formou na França e no Reino Unido.
"Uma escolha que pode ter sido tomada, por um lado, por terem poucos quadros no setor de comunicação e, por outra, para Delcy tentar se mostrar mais moderada", explica Bátiz. "Ela está em campanha e talvez esteja buscando ideias novas."
Cabe recordar que, além da presidência, Delcy Rodríguez ainda ocupa a vice-presidência executiva e é ministra de Hidrocarbonetos. E, ao controle do Executivo, some-se a aliança no Legislativo, comandado pelo seu irmão Jorge.
Mas, a julgar pelos cargos ocupados anteriormente por Jorge Rodríguez, eles também têm aliados em outro poder fundamental: o eleitoral.
A ONG Transparência Venezuela publicou um relatório detalhando os vínculos da atual presidente. Ela destaca, como seu principal aliado, o reitor e vice-presidente do CNE, Carlos Quintero Cuevas, "que ingressou no órgão eleitoral em setembro de 2004, quando Jorge Rodríguez era o reitor principal".
Nestas movimentações, uma das quedas que se destacam é a de Álex Saab, controvertido empresário que esteve preso nos Estados Unidos, acusado de lavagem de dinheiro. Ele foi devolvido em um intercâmbio de prisioneiros e, até agora, era ministro das Indústrias e Produção Nacional.
Bátiz destaca a saída desta figura "muito vinculada a Maduro e protegida por ele" como uma mensagem para o ex-presidente.
"Se eu fosse Maduro e tivesse a esperança de que Delcy e Jorge fossem me tirar da situação em que ele está, esta movimentação seria uma mensagem muito ruim."
Para Izarra, esta saída "pode ser lida como uma concessão aos Estados Unidos, mas também como uma bomba-relógio, que Washington pode detonar quando quiser. Saab solto também é Saab que sabe demais."
'Chavismo 3.0'
Estas mudanças "feitas em muito pouco tempo" buscam "uma certa reacomodação, com muita ênfase no setor econômico, sem subestimar a questão militar e ideológica", segundo De Alba.
"Estamos frente a um 'chavismo 3.0'?", questiona Jiménez.
"Não sabemos que rumo irá tomar, mas podemos antecipar uma adaptação a esta nova realidade, que eles tentarão navegar para manter o controle e resistir. O chavismo pretende seguir existindo para dar continuidade histórica."
Para Izarra, o objetivo da nova formação de Delcy Rodríguez é "sobreviver" e, por isso, ela "não se pode dar ao luxo de se rodear de pessoas leais a Maduro ou com agenda própria".

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Mariano de Alba destaca que existe uma diferença em relação à velha guarda militar chavista neste círculo de poder.
Para ele, o objetivo é "conseguir resultados, oferecer maior garantia de um melhor governo, maior eficiência, melhoria econômica e, com isso, usar os ganhos para fins políticos, recuperar a popularidade e ficar em melhor posição eleitoral".
Izarra destaca que, entre os desafios que precisarão ser enfrentados nesta nova etapa, destacam-se "manter o equilíbrio com Diosdado Cabello, que controla o aparato de segurança e pode provocar o caos, se decidir que convém para ele; satisfazer Washington sem perder a fachada de soberania de que necessita para sobreviver internamente; e evitar a pressão do povo ou da oposição, se encontrarem um espaço para desafiá-la."
Ainda que de forma diferente, De Alba não rotula Delcy Rodríguez de moderada.
"Nós que a conhecemos sabemos que ela tem um perfil bastante combativo", segundo ela.
"Agora, dentro do chavismo, ela representa uma ala que não é a mais ideológica e sua facção é mais aberta a negociar certas concessões. Ela quer se concentrar na estabilização da economia."
Rodríguez ainda está sob sanções da União Europeia por atos contra a democracia e o Estado de Direito, violações dos direitos humanos e repressão à sociedade civil e à oposição no país.
A nova presidente parece ter dado início a mudanças que satisfazem a Donald Trump. E, paralelamente, afirma que defende o regresso do "sequestrado" Maduro.
É um equilíbrio difícil, que demonstra, nas palavras de Jiménez, que a Venezuela está em "um momento incerto, também para o governo".

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