O que acontece quando você tenta acertar o momento
No começo de 2025, o dólar estava em R$ 6,19. Os principais analistas do país, segundo a pesquisa Focus, do Banco Central, esperavam que a moeda americana encerrasse o ano a exatos R$ 6. Alguns especialistas chegavam a prever o dólar a R$ 7, o que representaria uma alta de 13,1%.
E o que ocorreu? Uma queda de 11,1%, para R$ 5,50. O curioso é que não faltavam bons argumentos para o pessimismo em relação ao real. Dívida pública aumentando, governo com dificuldade de atingir superávit fiscal, o presidente dos EUA anunciando medidas protecionistas e provocando tensão geopolítica mundial?
Tudo isso, em tese, contribuiria para manter o dólar caro em relação ao real e às demais moedas do mundo. No entanto, a trajetória do câmbio foi completamente oposta.
O problema é que não foi um caso isolado. Em 2024, os mesmos analistas previam uma alta de 3,3% da moeda americana, considerando a mediana das projeções. No fim, ela disparou 27,9%, ou seja, nada menos do que 24,6 pontos percentuais a mais do que o previsto.
Fiz um levantamento dos últimos dez anos da pesquisa Focus e comparei as projeções para o câmbio com o resultado real. O ano em que os analistas chegaram mais perto de acertar foi 2017. Eles previam uma alta de 5,9% no dólar, e ocorreu uma alta de 1,5%.
Já o pior erro ocorreu em 2016, quando se previa uma alta de 8,9% da moeda americana e houve uma queda de 16,5%.
Na média, as projeções para o dólar erravam a sua cotação em 13,1%, para mais ou para menos.
Ou seja, se alguém lhe disser que o dólar fechará o ano em R$ 5,30 (que é a mediana atual das projeções), o mais provável é que ele varie entre R$ 4,61 e R$ 5,99 (erro de 13,1% para mais ou para menos).
E, se este ano as previsões tiverem um erro semelhante ao de 2017, pode-se esperar o dólar entre R$ 3,69 e R$ 6,91.
Dessa forma, considerando a amplitude das possibilidades de erro, é impossível tomar alguma decisão minimamente segura com base em projeções para o dólar - e aqui estamos falando de alguns dos analistas mais gabaritados do país.
Em longo prazo, é possível prever?
Algumas pessoas acreditam que é possível prever o comportamento do dólar, em relação ao real, em longo prazo.
As visões mais simplistas se baseiam em argumentos do tipo: "O Brasil não vai para frente, mesmo, então, em longo prazo, o real certamente vai se desvalorizar".
Mas há também análises mais aprofundadas que chegam à mesma conclusão. Por exemplo, a ideia do diferencial de inflação, segundo a qual uma moeda A se desvaloriza em relação a B quando a inflação no país de A é maior do que no país de B em longo prazo.
Sendo assim, enquanto a inflação no Brasil for maior do que nos EUA, o real estaria fadado a perder valor, em longo prazo, em relação ao dólar.
Agora vamos aos dados. Desde que o real começou a circular, em julho de 1994, até outubro de 2002, o dólar subiu nada menos do que 321%. No entanto, a partir dali, a moeda americana entrou em um ciclo de desvalorização que durou nove anos, até 2011, e acumulou uma perda de 60% no seu valor no período. O preço da moeda americana só foi recuperar seu antigo patamar em setembro de 2015.
Se considerarmos a inflação, a situação é bem pior. O brasileiro que comprou dólares em outubro de 2002, achando que estava se protegendo, ainda não recuperou o dinheiro, pois, nesses 24 anos, a alta acumulada da moeda americana está em 27,2%, enquanto a inflação acumulada ficou em 292%.
Para você, 24 anos são suficientes para considerar "longo prazo"? Aos que defendem que o dólar "sempre", "em longo prazo", bate o real, sugiro que definam o que entendem por "longo prazo" e por "sempre".
Como, então, investir no exterior?
Para investir no exterior, em vez de procurar o melhor momento do câmbio, o caminho mais pé no chão, baseado em evidências, é a escolha consciente de ativos que, por si só, são bons, independentemente da cotação da moeda.
Por exemplo, se for investir em ações, dedique mais energia a escolher boas empresas do que a tentar prever as oscilações do dólar. As boas empresas, do ponto de vista do investidor, são aquelas com maior perspectiva de gerar caixa (e, portanto, dividendos) em longo prazo.
Como saber quais são elas? Olhando para o seu passado, conseguimos ter uma ideia de para onde elas estão caminhando, diferentemente do que acontece com o câmbio.
Se olharmos, especificamente, para o fluxo de caixa das empresas, vemos que as empresas com melhores resultados nesse indicador tendem a obter melhores retornos para o acionista. Um estudo mostrou que US$ 1 investido em 1988 em empresas da Bolsa americana que apresentavam fluxo de caixa consistente teria se transformado em US$ 15,30, enquanto na média do mercado o valor teria chegado a US$ 9,85.
Se o seu objetivo for diversificar sua carteira, acrescentando investimentos no exterior, o mais indicado é focar em ativos com bons fundamentos e não comprá-los todos de uma vez. Aplicando um pouco por mês, de forma regular, em longo prazo, você dilui os riscos cambiais e se protege de oscilações imprevistas do câmbio.
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Opinião
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