Peter Smith está deitado em uma cama de hospital, estendendo a mão para tocar a mão de outra pessoa (não retratada). Ele usa óculos e uma camisola hospitalar, cercado por equipamentos médicos

Legenda da foto, Peter Smith e a mulher viajavam com amigos, sem preocupação com ataques de tubarão naquela pequena ilha do Caribe. Segundo o International Shark Attack File, o caso de 2024 foi o único ataque já registrado em Tobago
    • Author, Will Vernon
  • Há 27 minutos

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Era a última hora do último dia de férias de Peter Smith em Tobago, no Caribe, quando ele decidiu dar um mergulho no mar.

"As condições estavam perfeitas para nadar", recorda o diretor de TI aposentado. "Eu mergulhei nas ondas, nadei não mais do que 6 metros e fiquei com a água até a cintura".

Ele e a sua esposa Joanna, de Hertfordshire, no Reino Unido, estavam viajando com amigos, e o risco de ataques de tubarões estava longe de suas preocupações — eles são praticamente inexistentes nessa pequena ilha caribenha.

"De repente, eu senti um objeto muito pesado atingir minha perna. Eu olhei para baixo e vi um tubarão, e ele era grande", diz Smith.

"Estamos falando de algo em torno de 3 metros. É quando o cérebro passa a funcionar a mil por hora."

Smith foi mordido por um tubarão-cabeça-chata (também conhecido no Brasil como tubarão-touro), uma das espécies mais perigosas do mundo, notória por caçar em águas rasas.

Na primeira entrevista desde o ataque, em abril de 2024, Smith conta à BBC News sua experiência aterrorizante e explica por que ainda não tem medo de tubarões.

'A situação ficou grave muito rápido'

Smith, hoje com 66 anos, diz que reconheceu instantaneamente as mandíbulas que se fechavam em sua perna como as de um tubarão-cabeça-chata. Com medo de ser arrastado para debaixo d'água, decidiu reagir.

"Eu comecei a socar o tubarão. Para ser honesto, não sei o que eu estava tentando fazer, mas eu o estava acertando", afirma Smith. "Posso dizer com toda a sinceridade que nunca bati em nada com tanta força quanto bati naquele tubarão."

"Depois de atingir a minha perna, ele conseguiu atacar meu braço esquerdo e depois meu estômago. A situação ficou grave muito rápido. Perdi muito sangue."

Por fim, o animal interrompeu o ataque por tempo suficiente para que Smith fosse retirado da água por pessoas que estavam por perto.

Seus amigos John e Moira, que estavam ao lado dele no mar, ajudaram a enfrentar o tubarão e a dar o alerta. De volta à praia, Joanna, avisada pelos gritos de Moira, correu até a beira do mar.

Tubarão-cabeça-chata nadando nas Bahamas, no Caribe

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, O tubarão-cabeça-chata (também conhecido no Brasil como tubarão-touro) é um dos tubarões mais perigosos do mundo

"Eu me lembro de entrar na água e ver os ferimentos terríveis dele. Eu conseguia ver seus ossos, foi simplesmente horrível", relembra Joana. "E alguém disse: 'Tirem ela daqui'."

Smith foi levado ao único hospital de Tobago com lacerações profundas no estômago, uma grande mordida em um dos braços e uma enorme parte da coxa superior arrancada.

Ele descreve o momento em que a dor começou, enquanto era colocado na ambulância. "Eu estava gritando, chorando, perdendo muito sangue e perdendo a consciência. As pessoas gritavam comigo para eu ficar acordado."

Joanna, de 64 anos, aposentada do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS, na sigla em inglês), diz que não sabia se o marido sairia vivo da ambulância. "Ele estava muito pálido, foi realmente assustador."

Peter Smith deitado na praia após o ataque, cercado por pessoas

Legenda da foto, Peter Smith foi retirado da água por pessoas que estavam por perto

Ela lembra que os médicos de Tobago perguntaram se ela poderia assinar um formulário autorizando a amputação dos membros do marido, caso fosse necessário; depois, os médicos concluíram que ele precisava ser retirado da ilha. "O sangue tinha acabado… Ele tinha usado todo o sangue de Tobago", diz Joanna.

Smith foi levado para o Jackson Memorial Hospital, em Miami, na Flórida (EUA), para tratamento especializado. Nas semanas seguintes, passou por dezenas de cirurgias, incluindo uma em que os médicos disseram que colocariam uma membrana especial sobre uma ferida para criar uma superfície melhor para um enxerto de pele.

"Então, eles [os médicos] riram. E nós perguntamos: 'Bom, o que é engraçado?' E eles disseram, 'a membrana é feita de tubarão'." Smith ri. "Eu tenho um pedaço de tubarão na minha perna."

Peter Smith com o braço esquerdo enfaixado, deitado em uma cama de hospital, com a mulher, Joanna, ao seu lado

Legenda da foto, Peter Smith, fotografado no hospital ao lado da mulher, Joanna, passou por dezenas de cirurgias

E assim começou um longo caminho para a recuperação. A lesão na parte superior da coxa fez com que ele tivesse de aprender a andar novamente, e os problemas no nervo do braço, atingido pela mordida do tubarão, fazem com que ele ainda não tenha sensibilidade nos dedos e enfrente dificuldade para segurar objetos — limitações que terá pelo resto da vida.

"Eu sou muito grato. Pelo menos tenho problemas de mobilidade. Pelo menos tenho membros", reflete. "Em determinado momento, parecia que eu não teria nenhum."

Smith diz ser grato não apenas aos médicos, mas também aos amigos que o ajudaram durante o ataque. "Eu lutei junto com outras pessoas que foram realmente corajosas. Serei eternamente grato a elas".

Grande marca de mordida de tubarão no braço de Peter Smith

Legenda da foto, Os danos no nervo do braço, provocados pela mordida do tubarão, fazem com que ele ainda não tenha sensibilidade nos dedos e dificuldade para segurar objetos

O tubarão-cabeça-chata tem sido associado a vários ataques recentes na Austrália. No fim de janeiro, o país registrou quatro ataques de tubarão em apenas 48 horas, um deles com a morte de um menino de 12 anos. Três dos ataques ocorreram em um trecho de 15 km entre si, na costa leste.

Isso levou especialistas a alertar que ataques de tubarão continuam sendo muito raros quando comparados às altas taxas de pessoas que usam o mar para lazer, e a pedir que o público se lembre de que o oceano é um ambiente selvagem, com riscos.

No Brasil, um tubarão-cabeça-chata, espécie comum no Grande Recife, mordeu um adolescente de 13 anos na praia de Del Chifre, em Olinda, na quinta-feira (29/1). O ataque levou à morte do garoto.

Segundo o renomado International Shark Attack File, o ataque sofrido por Smith em 2024 foi o primeiro e único ataque de tubarão já registrado em Tobago.

O especialista em tubarões Tom Hird explica que os tubarão-cabeça-chata "certamente têm um fogo interior" e "são conhecidos por retaliar quando são perseguidos por barcos ou quando foram marcados".

Mas ele diz que o fato de mortes por mordidas de tubarão serem raras mostra que os humanos não são necessariamente suas presas. "Vamos ser muito claros aqui: se um tubarão-cabeça-chata, ou um tubarão-tigre, ou um tubarão-branco realmente quisesse caçar um humano, não sobraria corpo", diz.

A demonização dos tubarões é injusta, acredita Hird, ao afirmar que a maioria dos tubarões percebe rapidamente que humanos costumam reagir e não são bons para comer.

Smith não quer que o que aconteceu com ele manche a reputação de Tobago e diz não ter motivo para sentir medo.

"As pessoas em Tobago foram muito boas comigo. Elas dependem do turismo para sobreviver. Eu voltaria", insiste. "Ainda penso no céu e no mar. Qual é o sentido de sobreviver a um ataque de tubarão se você vai passar o resto da vida com medo?"