
Crédito, Universidade Mackenzie
- Author, Priscila Carvalho
- Role, De Bangkok (Tailândia) para a BBC News Brasil
Há 25 minutos
Tempo de leitura: 10 min
Poucos Estados brasileiros carregam, no próprio nome, a história de uma pessoa. Rondônia, no norte do país, é um deles.
E não é por uma vitória militar ou disputa territorial, mas pelo legado de um general que, ainda no início do século 20, defendeu o contato pacífico com povos originários em meio à expansão do Estado brasileiro pela Amazônia.
O sobrenome que batiza o Estado remete a Cândido Rondon, figura importante da integração territorial e da política indigenista no país.
Nascido em 1865, no interior do Mato Grosso, Rondon construiu uma trajetória marcada pela formação intelectual e pelo serviço público.
Órfão ainda criança, foi criado em Cuiabá por um tio materno, de quem herdou o sobrenome que entraria para a história.
Formou-se professor no Liceu Cuiabano e, mais tarde, engenheiro militar e bacharel em Ciências Físicas e Naturais pela Academia Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro.
A passagem pela Academia Militar da Praia Vermelha, na capital fluminense, foi decisiva para sua formação política e intelectual, segundo os especialistas ouvidos pela reportagem.
Entre 1883 e 1890, Rondon integrou a chamada Mocidade Militar da Praia Vermelha. De acordo com o historiador Carlos Martins Junior, mestre e doutor em História Social pela USP, o grupo tinha no positivismo de Auguste Comte seu principal referencial teórico e esteve diretamente envolvido nos movimentos abolicionista e republicano do final do século 19.
A partir de 1894, essa base teórica se traduziu em atuação prática no interior do país.
Rondon passou a chefiar comissões responsáveis pela construção de linhas telegráficas em regiões até então pouco conhecidas pelo Estado brasileiro. Foram mais de 1.700 quilômetros de linhas implantadas em diferentes frentes, ligando Cuiabá a áreas estratégicas do Mato Grosso e da Amazônia, incluindo o território que mais tarde daria origem ao Estado de Rondônia.
É nesse ponto que sua trajetória militar se aproxima da defesa dos povos indígenas.
Para Martins Junior, embora a ascendência indígena possa ter influenciado sua visão (sua mãe era Bororo, povo indígena da etnia Boe, habitantes tradicionais do estado de Mato Grosso), o fator decisivo foi a formação positivista e o aprendizado técnico adquirido nas expedições pelo sertão.
"Como positivista e engenheiro militar, ele propunha uma abordagem pacífica das populações indígenas, acompanhada de rigorosa preparação estratégica e planejamento técnico das ações", afirma o historiador.

Crédito, Universidade Mackenzie
A atuação de Rondon junto aos povos indígenas precisa ser entendida no contexto de expansão econômica e disputa territorial que marcava o Oeste e o Noroeste do país no início do século 20.
Segundo o historiador Martins Junior, a região era atravessada por interesses ligados à exploração da borracha, da erva-mate e da pecuária — cenário que estimulava o avanço das frentes pioneiras, a concentração fundiária e a expropriação de territórios indígenas.
Até a chegada das comissões telegráficas, os conflitos eram, em geral, solucionados pela violência.
Nesse ambiente, a presença das comissões chefiadas por Rondon passou a representar a atuação direta do Estado nacional em áreas de fronteira ainda pouco definidas.
Para Martins Junior, a proposta do militar era substituir o confronto armado por uma estratégia de incorporação das populações locais à estrutura do Estado brasileiro.
A ideia era transformar indígenas em trabalhadores nacionais, o que, na visão da época, contribuiria para a defesa do território e para a estabilidade das fronteiras.
Essa abordagem estava alinhada à formação positivista de Rondon e ao papel atribuído aos militares no período republicano.
Conforme explica historiador, caberia às comissões atuar como agentes do Estado, promovendo a integração territorial sob uma lógica técnica e administrativa, sem recorrer à violência como instrumento de mediação com os povos indígenas.
Na prática, essa política envolvia uma ampla articulação institucional.
Rondon conectava suas expedições a diferentes órgãos do Estado, como o Ministério da Guerra, o Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio — ao qual estavam vinculados o Serviço de Proteção ao Índio e Localização de Trabalhadores Nacionais e o Museu Nacional —, além do Ministério da Viação e Obras Públicas, responsável pela Repartição Geral dos Telégrafos.
"Essas instâncias definiam as instruções que orientavam as comissões, o que mostra o caráter estratégico e estatal da atuação de Rondon", afirma o historiador.
Em maio de 1955, quando fez 90 anos, Rondon recebeu do Congresso Nacional o título honorífico de marechal.
Para Maurício Meneses, membro do Conselho Deliberativo do Instituto Presbiteriano Mackenzie e autor do livro Rondon, o Marechal da Paz, a relação de Rondon com os indígenas ultrapassou o campo administrativo.
"Com os índios foi uma paixão especial", afirma.
Meneses destaca que o militar nunca foi acusado de irregularidades na condução das obras que comandou e que sua postura no contato com povos indígenas lhe rendeu reconhecimento internacional, incluindo três indicações ao Prêmio Nobel da Paz ao longo da vida.
Uma dessas indicações partiu de Albert Einstein, em 1925, após o físico assistir a um filme que mostrava a abertura de linhas telegráficas sem o uso de violência contra indígenas.
"Einstein se impressionou com o fato de Rondon não ter matado nenhum índio em suas expedições", afirma Meneses.
A carta só viria a público décadas depois, quando o acervo do cientista foi doado a um museu na cidade de Tel Aviv, em Israel.
Rondon também esteve à frente da criação do órgão que deu origem à atual Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e participou indiretamente de debates internacionais sobre políticas indigenistas.
Em 1911, enviou o médico e antropólogo Roquette-Pinto a um encontro de povos indígenas na Europa.
Segundo Meneses, o regimento elaborado por Rondon para a proteção indígena serviu de base para documentos adotados por outros países, reforçando a projeção internacional de sua atuação.
Expedições e linhas de telégrafo

Crédito, Biblioteca Nacional
As expedições lideradas por Rondon marcaram uma inflexão na forma como o Estado brasileiro avançou sobre o território do Centro-Oeste e da Amazônia, segundo especialistas ouvidos pela BBC Brasil.
Até então, esse processo era conduzido majoritariamente pela força, herança de práticas que vinham desde as bandeiras, as expedições que se embrenhavam pelo interior do Brasil e ocupavam novos territórios durante o período colonial, entre os séculos 16 e 18..
"As expedições militares recorriam à violência direta, com expulsão, escravização e até o extermínio de populações indígenas", afirma Carlos Trubiliano, professor da Universidade Federal de Rondônia.
Segundo ele, Rondon rompeu com essa lógica ao propor que a incorporação territorial ocorresse sem o uso da força letal contra os povos originários.
Esse movimento ganhou peso estratégico após a Guerra do Paraguai, quando a incorporação da fronteira Oeste passou a ser vista como uma questão de soberania nacional.
A presença do Estado se dava por meio da infraestrutura — primeiro com as linhas telegráficas, depois com ferrovias e rodovias — e, nesse processo, os povos indígenas eram enquadrados na lógica da cidadania brasileira.
"Era preciso ter brasileiros nos chamados 'espaços vazios'", explica Trubiliano, ao resumir a mentalidade predominante naquele período.
As comissões telegráficas chefiadas por Rondon tiveram papel direto nessa integração.
Além de instalar milhares de quilômetros de linhas, os grupos reuniam engenheiros, médicos e cientistas responsáveis por mapear regiões até então pouco conhecidas pelo poder público.
"Não se tratava apenas de comunicação, mas de um levantamento cartográfico, econômico e humano do território", diz Trubiliano.
Carlos Martins Junior destaca que esse trabalho só foi possível porque as expedições estavam articuladas a uma ampla estrutura estatal.
"Essas instâncias definiam as instruções que orientavam as comissões, o que evidencia o papel estratégico e a supervisão direta do Estado", afirma.
"As comissões telegráficas comandadas por Rondon, em especial a Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas, em atividade de 1997 a 1915, eram verdadeiros laboratórios a céu aberto, ou melhor 'laboratórios itinerantes'", complementa o historiador.
Entre as expedições, a chamada linha norte, que estendeu o telégrafo de Cuiabá a Santo Antônio do Madeira, teve impacto decisivo.
Segundo Martins Junior, ela integrou ao território brasileiro uma vasta área até então tratada como desconhecida nos mapas oficiais.
A região, definida por Rondon como "verdadeiro sertão", passou a ter suas fronteiras demarcadas, processo que resultaria na publicação da Carta de Mato Grosso, em 1942.
Esse avanço territorial veio acompanhado de um esforço sistemático de registro científico. Houve inventário das riquezas naturais, das potencialidades econômicas e das populações locais, o que permitiu a incorporação administrativa de uma área extensa ao restante do país.
Para Martins Junior, esse processo expressa as contradições do projeto de Rondon. Ao mesmo tempo em que evitava a violência direta e estruturava políticas de proteção indígena, subordinava essas ações a uma lógica tutelar e unificadora, integrada ao projeto de ocupação do território nacional.
Batismo de um Estado
O nome Rondônia não surgiu como uma homenagem neutra.
Ele foi adotado em 1956, quando o então Território Federal do Guaporé passou a carregar o sobrenome de Rondon, em meio a um projeto mais amplo de interiorização do país e ocupação da Amazônia.
Para Martins Junior, a escolha teve um sentido político claro, ao associar a expansão territorial a uma imagem de integração pacífica e presença estatal organizada.
Segundo o historiador, ao longo do tempo, o legado de Rondon foi apropriado de forma seletiva pelo Estado brasileiro, acompanhando diferentes projetos nacionais.
"Menos que um elemento histórico, Rondon se tornou um símbolo em permanente disputa", afirma.
Nesse processo, sua imagem passou a funcionar como um elemento legitimador da produção do território, conferindo um "verniz humanitário" à expansão estatal e, ao mesmo tempo, apagando conflitos e contradições, especialmente aqueles relacionados às populações indígenas.

Crédito, Biblioteca Nacional
A decisão de batizar um território com o nome de Rondon também chama atenção por sua singularidade.
O historiador observa que, assim como Tiradentes é o único personagem da história brasileira a dar nome a um feriado nacional, Rondon é o único a nomear um Estado da federação.
Para o historiador, essa escolha não teve caráter apenas comemorativo, mas simbólico, ao reforçar uma determinada narrativa sobre a ocupação da Amazônia.
Trubiliano lembra que o território passou a existir formalmente em 1943, reunindo áreas antes vinculadas ao Mato Grosso e ao Amazonas.
"Em 1956, pouco antes da morte de Rondon, o governo Juscelino Kubitschek altera o nome para Território Federal de Rondônia, já sinalizando um projeto político de ocupação mais efetiva daquela região", explica.
Esse projeto se intensificaria a partir do fim da década de 1950 e, sobretudo, nos anos 1960, com a construção da BR-364 e a atuação do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
Segundo Trubiliano, Rondônia se tornou um dos maiores experimentos de assentamento populacional do país, recebendo migrantes do Sul e do Sudeste.
"Até os anos 1960, o território tinha apenas dois municípios. Hoje são 52, sendo que a maioria foi criada diretamente a partir da ação do Incra", diz.
Nesse contexto, o nome Rondônia passou a sintetizar um projeto de ocupação baseado em infraestrutura, controle territorial e integração nacional.
Para Martins Junior, o simbolismo associado a Rondon ainda opera como referência de autoridade do Estado sobre a fronteira amazônica, dando sustentação a políticas de desenvolvimento e infraestrutura, ao mesmo tempo em que silencia outras histórias e geografias que também marcaram a formação do Estado.
Legado
A trajetória de Rondon deixou marcas que ultrapassam a política indigenista e a ocupação territorial, mas também carrega limites próprios do tempo em que atuou, reforçam os especialistas.
Para Martins Junior, embora ele possa ser visto como um precursor de práticas não violentas no contato com povos indígenas, suas ações estavam inseridas em um modelo estatal que não reconhecia direitos, como a autodeterminação e a autonomia territorial e cultural nos termos atuais.
Ainda assim, seu trabalho teve impacto duradouro na produção de conhecimento sobre o interior do país. Sob seu comando, as comissões reuniram cientistas de diferentes áreas.
"Entre 1907 e 1915, foram mapeados cerca de 50 mil quilômetros de território nacional até então tratados como desconhecidos", afirma Martins Junior.
Esse esforço resultou em um amplo acervo científico. De acordo com o historiador, a Comissão Rondon enviou ao Museu Nacional aproximadamente 5,6 mil exemplares de animais e 8,8 mil espécies de plantas, além de registros sistemáticos de vocabulários, costumes, músicas, rituais e vestimentas de diferentes povos indígenas.
Rondon também recorreu aos recursos tecnológicos mais avançados da época, como fotografia, filmagem e gravação sonora, para divulgar ao restante do país o que era realizado nos chamados sertões.
Do ponto de vista territorial, o historiador avalia que Rondon atuou como agente da consolidação das fronteiras internas e da incorporação de áreas vistas como "vazios demográficos" ao Estado nacional.
Militar discreto, deixou poucos textos sobre si mesmo, limitando-se a relatórios de campo. A maior parte da divulgação de seus feitos ficou a cargo do coronel Amílcar Botelho de Magalhães, responsável pelo escritório central da Comissão Rondon.
O reconhecimento público, no entanto, cresceu ao longo das décadas.
Segundo Meneses, Rondon tornou-se o único brasileiro a dar nome a um Estado da federação. Além de Rondônia, seu nome batiza cidades, escolas, rodovias e aeroportos em diferentes regiões do país.
"Ele entendia isso como parte da missão e não gostava de homenagens", afirma.
Para o especialista, Rondon ocupa um lugar singular na memória nacional, reconhecido oficialmente como herói da pátria e associado ao desenvolvimento da ciência no Brasil.
"Darcy Ribeiro dizia que ele era o maior herói brasileiro", lembra.

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