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Como uma máquina que usa IA pode parar a matança de pintinhos machos?

Eles têm apenas um dia de vida e são mortos por serem economicamente inviáveis. Atualmente, há uma preocupação global em relação ao abate de pintinhos machos na indústria de ovos e, para evitar que aproximadamente sete bilhões de pintinhos sejam triturados vivos ou asfixiados com dióxido de carbono, a inteligência artificial chega como aliada de alternativas que já vêm sendo implementadas ao redor do mundo.

É o caso de um sistema de sexagem in ovo, que utiliza tecnologia óptica otimizada por IA, criada pela empresa alemã Omegga e que recebeu a medalha de prata de inovação na EuroTier 2024, feira mundial em agropecuária e gestão pecuária. A solução pode acabar com um método de descarte brutal do ponto de vista ético, sustentável e de bem-estar animal e ainda promover eficiência e economia no longo prazo.

 Divulgação/Pexels (Quang Nguyen Vinh) Pintinhos machos de galinhas poedeiras não põem ovos e têm carne menos apreciada para consumo — Foto: Divulgação/Pexels (Quang Nguyen Vinh)

Pintinhos machos são triturados vivos

O relatório “Alternativas Para O Descarte de Pintinhos Machos: Tecnologias de Sexagem In Ovo”, da Animal Equility, apresenta uma estimativa que 84 milhões de pintinhos machos saudáveis são triturados com apenas um dia de vida anualmente no Brasil – e sem qualquer tipo de insensibilização. De acordo com Cleber Fernando Menegasso Mansano, doutor e coordenador do mestrado em Produção Animal e professor de Medicina Veterinária da Universidade Brasil, essa prática global de sacrifício reflete a realidade de um setor que prioriza a eficiência econômica.

“Frangos de corte e galinhas poedeiras [que põem ovos] são linhagens distintas. Machos de poedeiras crescem 40% mais devagar que os frangos de corte e consomem mais ração, inviabilizando a criação para carne. Alimentá-los até o abate custaria até três vezes mais que o valor de venda da carne. A carne de machos de poedeiras é mais fibrosa e menos apreciada, sem cadeia de processamento estabelecida”, explica o especialista.

Considerados subprodutos, os pintinhos machos são descartados logo após a eclosão, mortos comumente em um triturador mecânico ou através de gaseificação com dióxido de carbono. Com um dia de vida, eles são manuseados e inspecionados por funcionários que avaliam cloaca, padrões de penas e outros marcadores biológicos de sexo. É um processo desde o início invasivo, com alto potencial de causar traumas físicos e morte, além de facilitar erros.

Em adição ao conflito ético gerado pela prática padrão nos incubatórios que produzem esses animais, esse método de sacrifício ainda gera problemas ambientais como contaminação do solo, da água e do ar, além de expor ao risco microbiológico animais e seres humanos que podem ser infectados pelo material descartado.

Pensando em como solucionar esse problema, pesquisadores, cientistas e membros da própria indústria estudam alternativas como criação de linhagens de duplo propósito, ou seja, para carne e ovos e também o uso da sexagem in ovo, sendo esta última mais aceita pelos produtores e já viabilizada em alguns países da Europa graças aos subsídios governamentais.

 Divulgação/Pexels (Myriams Fotos) Pintinhos machos da indústria de ovos são triturados vivos ou asfixiados com dióxido de carbono — Foto: Divulgação/Pexels (Myriams Fotos)

Muita gente conhece a sexagem fetal, um exame de sangue que pode ser realizado pela gestante no comecinho da gravidez para descobrir o sexo do bebê. A sexagem in ovo, portanto, nada mais é do que uma técnica que permite identificar se o embrião da ave é macho ou fêmea antes da eclosão e em pouquíssimos dias.

“Essa tecnologia surgiu como resposta a um problema ético e econômico da avicultura industrial: o descarte de pintinhos machos de linhagens poedeiras, que não botam ovos e não são eficientes para produção de carne. A técnica não é nova. As primeiras pesquisas começaram na década de 2010, mas ganhou impulso com avanços em sensoriamento e inteligência artificial”, explica o Dr. Menegasso Mansano.

É justamente essa a novidade da solução desenvolvida pela empresa alemã Omegga, premiada na EuroTier 2024. O sistema utiliza espectroscopia de absorção alimentada por IA, que analisa padrões espectrais únicos do conteúdo de cada ovo e correlaciona com modelos pré-estabelecidos que diferenciam os embriões femininos dos masculinos.

Funciona assim: um braço de medição rotativo é integrado à infraestrutura pré-existente da incubadora, o que seria fundamental para agilizar e escalar a transição. O braço se desloca até cada um dos ovos, que será escaneado de forma não invasiva por luz visível, sem expor o embrião a produtos químicos ou agulhas. Essa etapa vai se repetir algumas vezes do 3º ao 6º dia de incubação, coletando dados que serão enviados para a nuvem.

 Divulgação/Pexels (Eimi Vergara) Solução que utiliza IA para sexagem in ovo será integrada à estrutura pré-existente de cada incubadora — Foto: Divulgação/Pexels (Eimi Vergara)

Até o 7º dia de incubação, a inteligência artificial vai determinar o sexo do embrião com base em vários indicadores coletados no período. Marco Giroto, fundador da SprintHub e Supergeeks e especialista em IA, acredita que a solução da Omegga seja um bom exemplo de uso da tecnologia para além dos filtros criativos e criação de imagens artísticas.

“Nesse caso, a IA trabalha em conjunto com espectroscopia de absorção para analisar características ópticas específicas que indicam biomarcadores ligados ao sexo do embrião. A confiabilidade do sistema é bastante alta. Estamos falando de modelos treinados com grandes volumes de dados, que reconhecem padrões com precisão. Naturalmente, como qualquer tecnologia baseada em aprendizado de máquina, pode haver falsos positivos nos estágios iniciais, mas a grande vantagem da IA está na sua capacidade de melhorar com o tempo. A cada nova amostra analisada, o sistema aprende e se ajusta, o que significa que a taxa de acerto tende a se aproximar da perfeição conforme o modelo evolui”, explica o especialista.

De acordo com a Omegga, após a sexagem, os ovos machos serão removidos, liberando espaço da incubadora e permitindo que se transformem em novas fontes de receita para os produtores.

Indústria de ovos e bem-estar animal

Até o momento, nenhuma tecnologia in ovo atingiu 100% de precisão, mas ela oferece análises muito mais seguras do que os métodos tradicionais passíveis de erro humano. A expectativa é que sistemas automatizados também gerem ganhos em termos de eficiência, processando milhares de ovos em ambientes de produção de alto volume.

A implementação, no entanto, vai exigir um investimento inicial que países como o Brasil terão que suportar com financiamento governamental, cooperação entre países ou parcerias público-privadas. Para além do dinheiro, a indústria enfrenta outros desafios como capacitação e até a criação de regulamentações específicas, segundo Cátia Borges Ferreira, doutora em produção de não ruminantes e professora do curso de Veterinária da UniArnaldo Centro Universitário, de Belo Horizonte (MG).

“Os principais desafios incluem custos de implementação, adaptação de infraestrutura, capacitação de mão de obra, regulamentações e certificações e aceitação do mercado. Superar esses desafios é essencial para promover um manejo mais sustentável e ético na indústria avícola, alinhando-se às demandas contemporâneas por bem-estar animal e eficiência produtiva”, diz a especialista.

Em 2019, a Suíça proibiu a trituração de pintinhos, mas ainda permite o descarte por dióxido de carbono. Desde 2022, a Alemanha tornou-se o primeiro país a utilizar a sexagem in ovo para restringir o abate cruel, sendo seguida pela vizinha França na resolução com um investimento governamental de 10 milhões de euros para financiar as tecnologias, segundo informações da Animal Equility.

 Divulgação/Pexels (Gabriel Frank) Ovos com embriões masculinos podem ser utilizados para produção de vacinas e ração animal — Foto: Divulgação/Pexels (Gabriel Frank)

No Brasil, há esforços em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias alternativas. Uma deles é a iniciativa da Embrapa Suínos e Aves em detectar biomarcadores de sexo biológico em fluidos do ovo. Algumas empresas locais também estão testando raças com duplo propósito. Na tentativa de acabar com uma prática atroz de descarte, a indústria pode ainda se deparar com um subproduto inestimável.

“Os ovos identificados como contendo embriões machos podem ser direcionados para diversos usos como produção de vacinas, ração animal, aproveitando seu conteúdo nutricional, indústria de biotecnologia e outras aplicações que contribuem para a redução do desperdício e promovem uma utilização mais sustentável dos recursos”, conclui a Dra. Borges Ferreira.

Essa matéria faz parte da iniciativa #UmSóPlaneta, união de 19 marcas da Editora Globo, Edições Globo Condé Nast e CBN. Conheça o projeto aqui 👈

 Divulgação/Um Só Planeta — Foto: Divulgação/Um Só Planeta

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