"Edificando a nação: Alicerçadas!", bradam em uníssono 15 mulheres reunidas numa tarde ensolarada de sábado na sala de estar da esteticista Aline Biazotto, 41, em um sobrado no bairro Vila Vitória em Mauá, na Grande São Paulo.
O grito de guerra marca o final do segundo encontro promovido no município conforme o manual do Projeto Alicerça Brasil (PAB), lançado no ano passado pelo PL Mulher, sob a liderança da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Todas usam camisetas cor-de-rosa combinando com o tom da cartilha que receberam ao aceitar a missão de se tornarem "Alicerçadas", ativistas conservadoras que assumem a missão de ser alicerces do lar e da nação.
Uma das convidadas é Tailane de Castro, 33, que vestiu a camisa do movimento e diz ter se identificado de cara com um dos 12 temas propostos na cartilha, o de número 11: "Brilha, brilha, estrelinha".
"Eu acredito que cada mulher tem uma estrela dentro de si e que pode fazer outras estrelas brilharem."
Já a consultora de vendas Daniela Moraes Alves, 25, relata ter se sensibilizado com o tema "Vida: Fonte de Esperança em Tempos Difíceis".
O drama de uma jovem de 15 anos que engravida e a mãe a pressiona a abortar convida ao debate sobre "o extermínio de bebês no ventre materno normalizado" na sociedade.
Além de trazer visões éticas e filosóficas antiaborto, o texto cita a Entrega Legal (adoção) como alternativa.
"Estamos aprendendo muito com o manual. Sou esposa e filha. Pessoas vão tentar nos calar, mas temos que saber como nos posicionar", afirma Daniela.
Após a rodada de apresentações, a missionária e influencer Priscila Faria, "42 anos e carinha de 22", dá início às discussões com uma oração para que o "senhor abençoe" a reunião política.
Coordenadora do encontro como presidente do PL Mulher municipal, ela escolheu o tema do dia: "Política é coisa de gente do bem".
Priscila tem 21 mil seguidores no Instagram, onde se apresenta como psicóloga, teóloga, esposa e mãe. Fez um post emocionado ao descobrir que Michelle Bolsonaro passou a segui-la nas redes sociais.
A coordenadora do Alicerça em Mauá agradece a liderança da "nossa eterna primeira-dama" e da presidente estadual do PL Mulher, a deputada Rosana do Valle (PL-SP), por estruturar o pensamento e a ação das mulheres conservadoras em 401 PABs em atividade de Norte a Sul do País.
"Este não é de jeito nenhum um grupo de feministas", ressalta Priscila, ao conclamar as participantes a se tornarem protagonistas. "Temos que lutar pelo que acreditamos: Deus, família, pátria e liberdade."
Com o temário aberto à página 91, Priscila segue o script sugerido no livreto.
Cada tema se subdivide em quatro partes: Ver (uma história que ilustra o debate), Refletir (hora de falar sobre o tema proposto), Iluminar (aprofundamento do assunto do dia) e Agir (proposta de ações concretas para mudar a realidade).
"Nós acreditamos num país melhor. É por isso que estamos reunidas. Todo mundo aqui é do bem", afirma a também funcionária da Câmara dos Vereadores, que cursa gestão pública e pretende se candidatar nas próximas eleições municipais.
"Tem como mudar a política do mal?", indaga Priscila para embalar as reflexões. "A política está manchada", responde Maria de Lurdes Rodrigues, 59. "Mas é o caminho mais correto para um país melhor."
Lurdes se voluntaria para ler a história fictícia que vai ilustrar as discussões da tarde. Dá voz à narrativa sobre dois casais que trocam vivências sobre agir ou se omitir politicamente enquanto compartilham uma pizza.
Alice e César, casal-símbolo da cartilha, são os protagonistas de todos os capítulos, que começam sempre com uma situação cotidiana.
Os nomes não foram escolhidos ao acaso. A junção sonora de Alice e César soa próxima de "Alicerça", título do projeto, reforçando a ideia de família como alicerce do país.
Um dia, Ana voltou da escola falando de “identidades fluidas” e “expressão de gênero”, termos que confundiam sua cabecinha de 10 anos. “Mamãe, a professora disse que eu não preciso ser menina. Mas eu gosto de ser menina!... Aquilo não era só conversa de escola; era uma pressão para mudar o que seus filhos acreditavam. César, vermelho de raiva, disse: “Isso é doutrinação! "
Alice e César dialogam com Lia e Gleison ao longo de duas páginas em que o contexto da desilusão é desenhado.
"O pai de Gleison era sindicalista e sempre ensinou a causa dos trabalhadores para todos em casa", diz a cartilha. "Gleison seguia os passos do pai e torcia para que uma chamada ‘justiça social’ e condições dignas de trabalho realmente se tornassem parte da agenda política do país."
O texto base da reunião realizada em 25 de abril deságua em um chamado à ação.
"A cartilha une neurociência e storytelling puro. É quase uma novela", explica André Costa, coordenador de comunicação do PL Mulher e um dos autores. "As narrativas são usadas para estabelecer pontes e conexões, numa linguagem simples."
O método "ver, julgar e agir" da cartilha do PL mimetiza aquele usado historicamente pela esquerda em Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e pastorais que conectavam fé e ação política.
Com o crescimento evangélico, a esquerda perde parte da capilaridade comunitária antes mediada pela Igreja Católica, enquanto o PL tenta esse enraizamento popular no século 21 com o Alicerça Brasil.
Diante da mesa com salgadinhos e bolos, como o de pamonha trazido por Priscila, a anfitriã do Alicerça Mauá explica que foi criada dentro de um lar cristão onde não se falava sobre política. "Eu achava que todo político era corrupto até escutar uma frase do meu pastor: ‘Se os bons não se levantam, os maus tomam conta’."
Aline conta que arregaçou as mangas na clínica de estética para combater a desinformação política entre a clientela. "De oito mulheres que atendo por dia, se eu conseguir conversar com três, vou falar que comprar pão é política, porque você paga imposto."
“O Semselho Nutelar é um órgão que tem como uma de suas funções acompanhar se os direitos de crianças e adolescentes estão sendo cumpridos, contudo, existiam denúncias de intervenções indevidas, afirmando que os membros do tal Semselho aplicavam ideologias contrárias às crenças do casal... Influenciados por ideologias woke e socialistas, esses membros, frequentemente, questionavam os métodos de criação considerados tradicionais, dizendo que eram excessivos ou antiquados
Aline diz não ter intenção de ocupar cargos nem participar de conselhos, como sugerido na cartilha, mas quer entender como pode apoiar outras mulheres conservadoras a chegar a esses espaços de poder.
"Não sou feminista, sou feminina. Meu marido é o provedor do lar e eu sou submissa no sentido dele cuidar de mim", afirma. "Só que eu tenho conteúdo, sou inteligente. Tenho muita vontade de aprender para escolher as coisas por mim mesma."
Aline e o marido, Jesley Biazotto, 43, empresário na área de informática, estão casados há 23 anos e têm dois filhos, Camille, 19, e Caio Lucca, 11. Eles são a personificação da família fictícia retratada na cartilha.
Além da divisão tradicional de papéis, o casal evangélico comunga de valores conservadores e são contrários à chamada agenda woke. Combatem ideias associadas à militância progressista e feminista, como identidades de gênero e masculinidade tóxica.
A cartilha prega a organização de grupo de mães para fiscalizar o currículo escolar e frear a suposta doutrinação em sala de aula. Recomenda reclamação formal junto à escola, à Secretaria de Educação e à Câmara Municipal.
O mesmo impasse relatado no capítulo 7 do Projeto Alicerça Brasil foi vivido pela família Biazotto. Assim como no texto "Um dilema sobre o futuro", Aline ficou em dúvida na hora de mandar a filha mais velha para a universidade pública.
A cartilha recomenda que Lucas, o jovem da ficção, opte pelo ensino profissionalizante em detrimento do superior, como um caminho mais rápido e prático para o mercado de trabalho e "livre de ideologias".
Ao tratar da questão da baixa produtividade, a cartilha coloca de um lado a universidade pública, descrita como ambiente de festas, drogas e doutrinação, e do outro o ensino técnico, com formação da mão de obra que o país mais necessita.
Após concluir o curso técnico de gestão de RH e já trabalhar na área, a primogênita dos Biazotto decidiu prestar vestibular. Passou em uma unversidade pública em Bauru, mas optou por uma faculdade privada em Mauá.
Lucas quebrou o silêncio: “Mãe, pai, eu não sei o que fazer. Todo mundo diz que eu preciso ir para a universidade pública, mas eu ouvi tantas coisas ruins sobre o que acontece lá... doutrinação, festas, drogas...Alice olhou para César, ambos compartilhavam a mesma preocupação. Eles sabiam que as universidades brasileiras, especialmente as públicas, estavam repletas de ideologias esquerdistas que muitas vezes ofuscavam o verdadeiro propósito da educação.
"Meu esposo e eu falamos pra ela que não queríamos que fosse para uma faculdade federal, por conta da ideologia", afirma Aline.
Camille seguiu a orientação dos pais. "Decidi ficar. Para mim, o que é mais precioso é estar perto da família. Os meus pais sabem o que é melhor pra mim."
Entre as "alicerçadas" da tarde, a professora municipal Daiane Vital, 40, mãe de dois filhos, conta que a mais velha estuda numa universidade federal. "Ela se mudou há pouco tempo e estou com o coração bem apertadinho."
É hora de encerrar a discussão. A coordenadora do grupo fala sobre o papel de cada uma nas próximas eleições. "Quem aqui já foi mesária?", indaga, acrescentando que o PT estará lá. É a única citação explícita ao Partido dos Trabalhadores, principal opositor do PL no pleito 2026 para Presidência da República.
O dever de casa é que todas se preparem para a próxima reunião, marcada para o último sábado de maio.
"Vamos nos infiltrar", diz Priscila, sugerindo que as mulheres do grupo participem de conselhos municipais.
O PAB é estruturado em modelo de influência exponencial: uma mulher inspira 12, que inspiram 144, criando uma rede que pretende atingir milhões de eleitoras de Norte a Sul do país.
Desde que assumiu a presidência estadual do PL Mulher em Mato Grosso em dezembro de 2025, Gislaine Yamashita tem a missão de capilarizar o movimento feminino, já presente em 68 dos 141 municípios do estado.
As "microcélulas" do PAB são desenhadas como resposta ao domínio histórico da esquerda em movimentos comunitários.
"Não estamos contra ninguém, mas lutamos para que certas escolhas não sejam impostas para nossas crianças", afirma a advogada. "Nosso papel é despertar o senso crítico nos adolescentes sobre família, drogas e valores."
Jornalista de formação, Priscila Costa, presidente do PL Mulher no Ceará, relata que ocupou a linha de frente deste debate ao se sentir "estrangeira" no meio acadêmico. "Encontrei um ambiente tomado por ideologias que desprezavam o que eu recebi dos meus pais: a valorização da família, da liberdade de fé e da vida do bebê no ventre."
No Ceará, o Alicerça Brasil conta com cerca de 20 grupos ativos para "empoderar a mulher comum na mesa de sua casa".
"A ordem é ocupar não apenas cargos eletivos, mas conselhos tutelares, de educação e saúde. É convencer a mulher de que ela se torna uma líder quando convida as amigas para um café com cuscuz para falar de política e proteção da infância."
O Alicerça Brasil é apresentado como um braço estratégico para contrapor "narrativas progressistas" e o "feminismo moderno", compondo uma tríade de ferramentas que inclui a "necessaire política" (formação para candidatas) e o e-book "Edificando a Nação – Sobre Bases e Valores".
Para reforçar o sentimento de pertencimento, as alicerçadas vão receber broches de diferentes cores, que vão classificá-las pelo nível de engajamento, em um esquema gamificado com pontos para aquelas que mobilizarem mais mulheres.
Pesquisas mostram que o eleitorado feminino tende a ser mais crítico ao bolsonarismo do que o masculino. A rejeição a Jair Bolsonaro foi expressa em movimentos como o #EleNão na eleição de 2018. A má-gestão na pandemia também afetou a avaliação do governo Bolsonaro em segmentos femininos.
Na disputa presidencial de 2022, Michelle Bolsonaro foi escalada para suavizar a imagem do marido. Percorreu o país para falar com mulheres evangélicas.
Ainda longe do corpo a corpo da campanha 2026 em razão dos cuidados com o marido em prisão domiciliar, Michelle se faz onipresente por meio do Alicerça Brasil e do PL Mulher, estruturado em todos os estados e em cerca de 2.000 municípios.
Michelle mantém a militância motivada promovendo encontros virtuais com lideranças regionais em um quadro no Instagram intitulado "Da Cozinha para o Brasil".
"Nesse momento em que estou reclusa cuidando da nossa maior liderança, o meu marido, vocês estão cuidando do nosso movimento Alicerça Brasil", agradeceu Michelle, em um papo com representantes do PL Mulher do Acre, enquanto prepara o almoço para o ex-presidente.
É também na cozinha conjugada com a copa da residência de Aline que o PAB de Mauá se encerra com outra oração, após duas horas e meia de trocas, discussões e confraternização regada a chá, bolo e salgadinhos.
Chega de falar de política, o papo agora entre as Alicerçadas é sobre as canetinhas emagrecedoras, tema que extrapola bolhas, conflitos ideológicos e convicções políticas e religiosas.

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