
- Author, Steve Rosenberg
- Role, Editor de Rússia, BBC News, para Panorama
Há 3 horas
Tempo de leitura: 7 min
Em seu programa na TV estatal russa, um apresentador famoso faz duras críticas ao Reino Unido.
Ainda bem que não é ele quem controla o botão nuclear.
"Ainda não destruímos Londres nem Birmingham", vociferou Vladimir Solovyov. "Ainda não varremos toda essa escória britânica da face da Terra."
Ele soa decepcionado.
"Ainda não expulsamos essa maldita BBC com aquele Steve Rotten-berg [Steve Rosenberg]. Ele anda por aí parecendo um esquilo defecando… é um inimigo convicto do nosso país!"
Bem-vindos ao meu mundo: o mundo de um correspondente da BBC na Rússia.
É um universo do qual oferecemos um vislumbre em Our Man in Moscow (Nosso Homem em Moscou, em tradução livre). O documentário, do programa Panorama, acompanha um ano na vida do escritório da BBC em Moscou, enquanto o Kremlin, sede do governo russo, segue travando guerra contra a Ucrânia, aperta o cerco dentro do país e constrói uma relação com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A provocação do "esquilo" não me incomoda. Os esquilos são fofos. E têm pele grossa, algo de que um correspondente estrangeiro precisa por aqui.
Mas "inimigo da Rússia"? Isso dói.

Crédito, Solovyov Live, VGTRK
Eu passei mais de 30 anos vivendo e trabalhando em Moscou, capital da Rússia. Quando jovem, me apaixonei pela língua, pela literatura e pela música russa. Na Universidade de Leeds (Reino Unido), coordenei um coral que apresentava clássicos do folclore russo. Para um concerto, escrevi uma canção em russo sobre um boneco de neve que vestiu tantas roupas que acabou derretendo.
Como aquele boneco de neve, a Rússia que eu conhecia pareceu derreter em fevereiro de 2022. Com a invasão em larga escala da Ucrânia, o maior país do mundo entrou no caminho mais sombrio. A "operação militar especial" do presidente russo, Vladimir Putin, se tornaria a guerra mais letal na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Olhando para trás, isso não surgiu do nada: a Rússia havia anexado a Crimeia da Ucrânia em 2014; já tinha sido acusada de financiar, alimentar e orquestrar uma revolta armada no leste ucraniano. As relações com o Ocidente vinham se tornando cada vez mais tensas.
Ainda assim, a invasão em larga escala foi um divisor de águas.
Nos dias seguintes, novas leis repressivas foram aprovadas para silenciar a dissidência e punir críticas às autoridades. As plataformas da BBC foram bloqueadas. De repente, reportar a partir da Rússia passou a parecer caminhar numa corda bamba sobre um campo minado jurídico. O desafio era informar com precisão e honestidade sobre o que estava acontecendo sem cair do arame.
Em 2023, a prisão de um repórter do Wall Street Journal mostrou que um passaporte estrangeiro não era garantia de liberdade. Evan Gershkovich, cidadão dos EUA, foi condenado por acusações de espionagem. Passaria 16 meses atrás das grades. Ele, o seu empregador e as autoridades americanas denunciaram o processo como uma farsa.
No escritório da BBC em Moscou, hoje somos uma equipe bem menor. Juntos, tentamos lidar com os desafios diários de cobrir a Rússia.
O produtor Ben Tavener e eu frequentemente enfrentamos "verificações adicionais" ao entrar e sair do país. Os repórteres de países classificados como "hostis" pelo Kremlin, o que inclui o Reino Unido, deixaram de receber autorizações válidas por um ano. Nossos vistos de jornalista e cartões de credenciamento precisam ser renovados a cada três meses.
Muitos colaboradores que antes falavam conosco agora relutam em fazê-lo. Provavelmente avaliam que, em um momento de tensão internacional elevada, estar associado à BBC não compensa o risco.

Crédito, Steve Rosenberg
Ainda assim, junto com as outras emissoras ocidentais que mantiveram presença na Rússia, continuamos a receber convites para eventos do Kremlin.
E, ocasionalmente, tenho a oportunidade de questionar o presidente Vladimir Putin.
Mesmo uma única pergunta e resposta em uma entrevista coletiva pode oferecer pistas valiosas sobre o pensamento do presidente russo.
Putin é movido pelo ressentimento em relação ao Ocidente, pela expansão da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) para o leste e pelo que ele percebe como anos de desrespeito à Rússia por parte de líderes ocidentais. Seus críticos o acusam de ambições imperialistas e de tentar refazer a esfera de influência russa.
"Haverá novas 'operações militares especiais'?", perguntei ao presidente Putin em dezembro passado, como parte de uma questão mais ampla sobre seus planos.
"Não haverá operações se vocês nos tratarem com respeito. Se respeitarem os nossos interesses…", respondeu o líder da Rússia.
O que levanta a pergunta: se Putin concluir que os interesses da Rússia não foram respeitados, o que acontecerá então?
Com Donald Trump de volta à Casa Branca, Moscou sente que os EUA lhes conferem mais respeito. Na cúpula do Alasca em agosto passado (15/08/25), o presidente americano recebeu calorosamente o líder russo, convidando Putin para Anchorage, no Alasca, em um gesto visto como aproximação, embora o encontro não tenha resultado no fim da guerra da Ucrânia.
Nem tudo, porém, tem ocorrido a favor de Moscou. Nicolás Maduro, aliado da Rússia, foi deposto após uma operação militar dos EUA na Venezuela. Em outra ação no Atlântico, os EUA apreenderam um petroleiro que navegava sob bandeira russa e tinha vínculos com a Venezuela.
Ainda assim, chama atenção o fato de o governo russo ter criticado pouco os EUA nos últimos 12 meses. A Rússia aparentemente acredita que relações melhores com o governo Trump podem ajudá-la a encontrar uma forma de encerrar a guerra na Ucrânia em termos favoráveis a seus interesses.
Assim, boa parte da retórica anti-Ocidente nos meios de comunicação estatais russos passou a ser dirigida não tanto aos EUA, mas à União Europeia e ao Reino Unido.

Crédito, Ben Tavener/BBC
Como as coisas mudaram.
Em 1997, fui convidado para o programa de comédia The White Parrot Club (O Clube do Papagaio Branco, em tradução livre), um show de TV bem popular na Rússia estrelado por um papagaio branco chamado Arkasha. As celebridades russas se sentavam num bar para contar piadas britânicas e falar com carinho do Reino Unido.
"Em 1944, eu estava na linha de frente na Segunda Guerra Mundial", recordou a lenda do cinema Yuri Nikulin. "Me lembro de como o Reino Unido e os Aliados abriram a Segunda Frente. Isso nos ajudou tanto."
Os integrantes do Parrot Club me convidaram para "cantar algo britânico". Eu sentei ao piano e cantei sobre "Daisy! Daisy!" e sua "a bicycle made for two" (bicicleta feita para dois, em tradução livre), música do compositor britânico Harry Dacre.

Crédito, AFP via Getty Images
Sentado naquele bar em Moscou, parecia que o Reino Unido não poderia estar mais próximo do coração dos russos. Me lembro de pensar que a Rússia e o Ocidente estavam naquela "bicicleta feita para dois" e que o confronto ao estilo da Guerra Fria fazia parte do passado.
Não deu certo.
Em 30 anos, passamos dos "papagaios brancos" aos "esquilos defecando".
Pior ainda, saímos da esperança de amizade entre Oriente e Ocidente para uma guerra de quatro anos na Europa, devastadora, em primeiro lugar, para a Ucrânia.
A forma como essa guerra terminará afetará não apenas o futuro da Ucrânia e da Rússia, mas também o futuro da Europa.
Ao longo dos últimos quatro anos, houve momentos que me chocaram. Nunca vou esquecer minha conversa com Vera em um comício pró-Putin altamente coreografado, em 2022. Perguntei se ela tinha um filho. Tinha.
"Você não tem medo", perguntei, "de que ele seja convocado para o Exército e enviado para a Ucrânia?"
"Eu prefiro que meu filho morra lutando na Ucrânia a vê-lo aprontando em casa", respondeu Vera. "Veja quantos jovens aqui não têm emprego e passam o tempo bebendo."
Também houve encontros mais agradáveis. Alguns dias depois de o apresentador de TV Vladimir Solovyov me rotular de "inimigo da Rússia", vários moradores de Moscou se aproximaram para apertar minha mão e pedir selfies.
É como o símbolo nacional da Rússia: a águia de duas cabeças. Uma delas rosna e chama você de "esquilo defecando".
A outra diz: "Obrigado por estar aqui."

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12 horas atrás
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