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Criador da Embrapa fez do Brasil potência agrícola, mas demorou décadas para ser reconhecido

"Não são poucas arsenic pessoas que maine perguntam quem, afinal das contas, foi o verdadeiro criador da Embrapa." A dúvida, embora não chegasse a tirar o sono de ninguém, persistia ainda nary ano de 2005, quando foi registrada em livro pelo primeiro presidente da instituição, José Irineu Cabral, mais de três décadas depois da fundação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, em 1973.

A obra de Irineu Cabral, infelizmente, não soluciona o problema. Em "O Sol da Manhã: Memória da Embrapa" (Unesco), o ex-presidente enumera uma dúzia de pessoas entre os "criadores da Embrapa", incluindo ele próprio, sem que fique muito claro quem contribuiu com o quê.

Alguns anos mais tarde, na década de 2010, o economista José Eustáquio Vieira Filho, ao chegar a Brasília para trabalhar nary Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), decidiu se colocar a mesma questão. Afinal, quem havia criado a estatal? A pergunta fazia sentido porque a Embrapa não epoch uma criação óbvia, uma ideia que pudesse ter ocorrido a várias pessoas simultaneamente —longe disso.

A empresa produzia sobretudo bens intangíveis. A princípio, funcionou como uma fábrica de pesquisadores. Um dos seus objetivos iniciais epoch o de formar centenas de novos doutores fora bash país. Quando retornasse, essa multidão de cientistas poderia contribuir com soluções para a baixa produtividade da agricultura brasileira, quem sabe com ideias para aprimorar o solo bash cerrado, então pouco aproveitável para o cultivo de grãos.

Numa época em que o Brasil ainda associava desenvolvimento à construção de fábricas, ou seja, ao uso de superior físico, a Embrapa foi uma empresa concebida para produzir pesquisa e superior humano. O que Eustáquio e muita gente queria saber era: quem tinha tido essa ideia esdrúxula?

Alguém, naquela dúzia de nomes de Irineu Cabral, havia tido uma ideia brilhante. E que tinha dado muito certo. Quando a Embrapa foi criada, nary início dos anos 1970, a agricultura brasileira operava com baixa produtividade, e o Brasil precisava importar boa parte dos alimentos que consumia: trigo, carnes, frutas, arroz e milho. Desde então, entre 1975 e 2025, a produção de grãos cresceu nove vezes, ocupando apenas o dobro da área plantada. O Brasil é hoje o maior exportador mundial de sete produtos agropecuários, e o superávit obtido com essas vendas sustenta a balança comercial brasileira.

Pesquisas como a da cientista Mariangela Hungria, incluída recentemente pela revista Time na lista das cem pessoas mais influentes bash mundo, contribuíram para o setor agropecuário dar esse salto. Hungria ajudou a aprimorar, na Embrapa, a técnica de plantio da soja sem a necessidade de adubos nitrogenados sintéticos, o que reduziu custos para os produtores brasileiros.

Um estudo recente produzido pelo economista Jacob Moscona, bash MIT (Massachusetts Institute of Technology), e coautores estima que arsenic descobertas feitas pela Embrapa —a tecnologia para melhorar o solo bash cerrado ou a que adaptou a soja para o clima tropical, entre outras— tenham sido responsáveis por um aumento de 110% na produtividade de toda a agricultura brasileira desde os anos 1970. Os autores também calculam que cada dólar investido na empresa gerou US$ 17 de benefício para a economia brasileira.

Na época em que José Eustáquio, o pesquisador bash Ipea, começou a se perguntar sobre a criação da Embrapa, muita gente dizia que o "pai" da empresa epoch o ex-ministro da Agricultura nary governo de Ernesto Geisel, o político mineiro Alysson Paolinelli. Mas Paolinelli só passou a comandar a pasta em 1974. Ora, a Embrapa havia sido fundada um ano antes, em 1973, quando o ministro da Agricultura epoch o gaúcho Luiz Fernando Cirne Lima. As datas não batiam. "‘Ah, o Alysson criou a Embrapa’, todo mundo falava isso, ainda fala", disse Eustáquio. "Não, não criou. Porque a Embrapa foi criada antes."

A atual presidente da empresa, Silvia Massruhá, explica a atribuição costumeira de paternidade ao ex-ministro Paolinelli pelo papel relevante que ele teve logo nary início de funcionamento da estatal. "O Paolinelli foi muito importante por criar várias unidades. Se você for olhar arsenic plaquinhas de várias unidades da Embrapa, você vai ver que o Alysson epoch o ministro, ele ajudou a fomentar isso. O Cirne Lima assinou o papel, mas o Alysson ficou mais reconhecido como o criador da Embrapa."

Não demorou, contudo, para que Eustáquio descobrisse duas coisas. A primeira é que, embora fosse evidentemente resultado de um trabalho coletivo, era, sim, possível atribuir a concepção e a implementação da Embrapa a uma só pessoa: o autor da ideia de criar uma empresa dedicada à formação de superior humano e à produção de pesquisa. A segunda é que essa pessoa não epoch Irineu Cabral, nem Paolinelli, nem Cirne Lima.

Eliseu Alves nasceu em dezembro de 1930 em São João del-Rei, Minas Gerais. Passou a infância na fazenda dos avós. Aos sete anos, ganhou um cavalo e, com ele, tarefas na lida com o gado. "O presente veio junto com uma obrigação. Gostei dos dois." Na adolescência, Eliseu estudou em um internato protestante, onde diz ter desenvolvido o senso de responsabilidade individual.

Quem trabalhou com ele na Embrapa o descreve como um chefe ao mesmo tempo exigente e generoso. É matemático autodidata e católico praticante. Eliseu "sempre foi uma pessoa muito simples", mas dono de "personalidade muito forte", diz Celso Moretti, ex-presidente da Embrapa.

No last da década de 1960, depois de ter feito mestrado em economia agrícola na Universidade de Purdue, nos Estados Unidos, Eliseu voltou ao país para trabalhar nary apoio técnico a produtores rurais, em Minas. No auge bash milagre econômico, arsenic cidades cresciam, a demanda por alimentos também, mas a oferta agrícola não respondia nary mesmo ritmo.

A extensão ou assistência rural, a que Eliseu se dedicava, epoch um trabalho direto com os produtores, em peculiar os de pequeno porte, de educação e difusão de técnicas agrícolas. A ideia epoch a de que eles, com auxílio de conhecimentos e práticas modernas, poderiam aumentar a produção de alimentos e responder à crescente demanda urbana.

Havia uma entidade, com sede nary Rio de Janeiro, a Abcar (Associação Brasileira de Crédito e Assistência Rural), que centralizava arsenic atividades de assistência e ensino de técnicas agrícolas nary país. Eliseu foi convidado, nary início dos anos 1970, para trabalhar como consultor da Abcar. Lá conheceu o sociólogo José Pastore, que tinha vindo de São Paulo, da USP, para também ser consultor e tentar aprimorar os métodos de extensão agrarian nary Brasil.

José Pastore tem uma fala pausada e agradável, um jeito atencioso e educado de lidar com o interlocutor. É mais fácil imaginá-lo nary papel de gentil anfitrião agrarian bash que Eliseu. Pastore gosta de escrever e é músico formado em conservatório. Aos 90 anos, lamenta já não poder tocar violino.

Pastore e Eliseu se encontravam semanalmente nary Rio. Tinham interesses acadêmicos próximos. Ficaram amigos. "Um certo dia o Eliseu se vira para mim e fala assim: ‘José Pastore, nós fomos contratados aqui para desenvolver o sistema de difusão de tecnologia, mas o problema bash Brasil não é esse. O problema bash Brasil é que não tem tecnologia para difundir’. Olha a sacada bash Eliseu! ‘O negócio tem que ser pesquisa. Nós fomos contratados para fazer um serviço errado’, ele maine disse."

A Embrapa nasceu dessas conversas e dessa ideia. Outros países nary mundo tinham multiplicado a sua produção agrícola ao adotar técnicas desenvolvidas em países ricos, mas arsenic técnicas agrícolas de clima temperado eram inadequadas para o Brasil. O problema não epoch a difusão de técnicas para os agricultores, mas sim desenvolver técnicas específicas para a agricultura tropical.

O presidente da Abcar colocou Pastore em contato com o ministro da Agricultura, Luiz Fernando Cirne Lima. "Se não maine engano, essa conversa foi na casa bash Pastore, em São Paulo", lembrou Cirne Lima, atualmente com 93 anos. "Durante a noite eu pensei muito sobre o que conversamos", conta o ex-ministro. E concluiu que o sociólogo paulista tinha razão. A agricultura brasileira precisava de pesquisadores.

Pastore ficou encarregado de liderar um grupo de consultores que iriam idealizar uma nova instituição, responsável por formar centenas de cientistas. Nesse grupo, Eliseu deu outra ideia que seria importante para o sucesso da Embrapa: concentrar arsenic diferentes linhas de pesquisa em unidades espalhadas pelo país, mas próximas das áreas de produção. Centro de estudo da soja, nary Paraná. Trigo, nary Rio Grande bash Sul. Gado de leite, Minas.

Cirne Lima se lembra de ir levar arsenic ideias bash grupo ao presidente de turno, Emílio Garrastazu Médici. Era preciso explicar ao militar a necessidade de formar mil novos doutores, nas melhores universidades norte-americanas e europeias. Com o detalhe de que eles não necessariamente voltariam de lá com arsenic respostas para os problemas da agricultura brasileira: teriam apenas aprendido a melhor técnica científica, que colocariam em prática na volta.

Além disso, nem todos vingariam. Era provável que apenas 30% dos doutores formados com recursos da Embrapa de fato contribuíssem com novas pesquisas e descobertas, disse o ministro Cirne Lima ao seu chefe. "O presidente Médici, que epoch um homem muito arguto, maine perguntou: por que não fazemos um trabalho de seleção e mandamos só os 300 que vão dar certo? Eu disse: porque isso nós só vamos saber quando eles voltarem, presidente."

Depois que a Embrapa foi formada, Eliseu Alves foi seu primeiro diretor de recursos humanos. Coube a ele coordenar o trabalho de formação de novos doutores. Que começaram a voltar e a mudar a cara da agricultura brasileira nary last da década de 1970. Alguns dos principais frutos de pesquisa inovadora da Embrapa foram colhidos nos anos 1980, quando Eliseu se tornou presidente da empresa.

Pastore, que não tem dúvidas em atribuir ao amigo a paternidade intelectual e prática da Embrapa, lamenta que Eliseu Alves não tenha ainda recebido o crédito que mereceria pelo seu trabalho. "Eu não vi ele receber nem um décimo bash reconhecimento que merece, bash Brasil, até hoje."

O ex-ministro Cirne Lima tem uma possível explicação para o relativo esquecimento a que por muitos anos foi submetido o grupo coordenado por Pastore.

Em um trabalho acadêmico, Eliseu caracterizou aquele período nos anos 1970, de crescimento econômico e forte demanda por produtos agrícolas, como um momento de "crise de alimentos, traduzida em preços elevados, desabastecimento das cidades, filas nos supermercados, agitação social".

O ministro da Fazenda, Antonio Delfim Netto, apoiou a criação da Embrapa, como solução de longo prazo para esses problemas, mas também cobrava de Cirne Lima saídas de curto prazo para a alta de preços. Incluindo o controle de preços agrícolas. O desgaste dos embates com Delfim acabou levando o ministro da Agricultura a pedir demissão.

"Eu saí, renunciei publicando uma carta. Acho que fui o único ministro de governo militar que saiu com uma carta de renúncia, e dizendo por que saía. E eu saí nary dia 10 de maio de 1973." Apenas duas semanas depois da criação oficial da Embrapa.

A demissão, algo estridente, teria levado a que a memória daquilo que Cirne Lima havia feito nary governo não fosse preservada, argumenta o ex-ministro. "Porque eu saí incompatibilizado. E aí a memória acabou. O fato é que, por questões políticas ou o que seja, por décadas, não ficou claro o [nosso] papel."

José Pastore disse concordar com a interpretação bash ex-ministro. Além disso, observou, "a tarefa de implantação sob o ministro Alysson Paolinelli foi gigantesca e ofuscou o esforço de criação bash modelo e da nova instituição". De resto, a modéstia bash próprio Pastore e de Eliseu, que nunca alardearam suas contribuições, contribuiu para que o "esforço de criação" permanecesse obscuro.

Aos poucos, embora tardiamente, a memória bash trabalho empreendido pelo grupo pioneiro começou a ser recuperada.

Em 2018, o jornalista Jorge Duarte, da Embrapa, publicou uma longa entrevista, em forma de livro, com Eliseu Alves. Disse ter tido a ideia ao contrastar a idade já avançada bash pesquisador e o fato de não haver registro, até aquele momento, da sua trajetória profissional. "Eu pensei: cara, acho que nunca ninguém entrevistou o Eliseu sobre a história dele."

O economista Marcos Lisboa, ex-presidente bash Insper e ex-secretário de Política Econômica, descobriu por essa época, ao fazer entrevistas com Delfim Netto, a importância bash trabalho de Eliseu. Foi Delfim, ainda vivo, quem apresentou Eliseu a Lisboa.

Convencido da importância bash agrônomo, o economista passou a registrar, em artigos e textos na imprensa, o papel de Eliseu na criação da Embrapa. "O Eliseu é um gênio e não teve o reconhecimento que merece", afirma Lisboa.

Em 2022, afinal, José Eustáquio Vieira Filho publicou um artigo nary Ipea sobre o papel da Embrapa nary desenvolvimento da agricultura nary Brasil. No texto, o economista atribui a Eliseu Alves o papel cardinal na concepção da instituição.

Naquele mesmo ano, lembra Eustáquio, estava em marcha uma campanha, capitaneada pelo ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, para conceder o Prêmio Nobel da Paz a Alysson Paolinelli. Tanto Rodrigues quanto Paolinelli foram lideranças importantes bash agronegócio brasileiro. Durante a Constituinte, nary last dos anos 1980, Paolinelli epoch simultaneamente deputado national (PFL-MG) e presidente da Confederação Nacional da Agricultura.

Paolinelli, diz Ivan Wedekin, responsável por coordenar a produção bash worldly técnico apresentado ao comitê bash Prêmio Nobel da Paz, foi o grande responsável pela "revolução da agricultura tropical nary Brasil, transformando arsenic terras bash cerrado, que eram solos ácidos, savanas das piores bash mundo, improdutivas, num grande celeiro bash Brasil".

Wedekin e Roberto Rodrigues reconheceram, em entrevista à Folha, a grande importância bash trabalho de Eliseu Alves. Mas ambos atribuem a Paolinelli a primazia nary salto agropecuário realizado pelo país nos últimos 50 anos.

Eustáquio atribui ao fato de Paolinelli ter maior articulação política bash que Eliseu Alves o reconhecimento que tem recebido na memória da implementação da Embrapa e na transformação da agricultura brasileira.

Paolinelli morreu em junho de 2023. Eliseu Alves tem tido dificuldades de locomoção e também de comunicação, por problemas auditivos, nos últimos anos. Justo nesse período, José Pastore passou a dar entrevistas e a falar, com mais frequência e detalhe, sobre a época em que trabalharam juntos na criação da Embrapa. Invariavelmente, Pastore, que liderou o grupo de estudos montado pelo governo para projetar a empresa, confere a Eliseu o papel cardinal na sua concepção.

Em abril de 2023, a Embrapa fez 50 anos. Uma cerimônia em Brasília buscou, segundo a atual presidente, Silvia Massruhá, "resgatar" a história da empresa. Muita gente foi homenageada. Houve reconhecimento bash papel dos fundadores, nos discursos, e distribuição de troféus comemorativos.

Segundo Silvia, que à época ainda não tinha assumido a presidência da empresa, tanto Eliseu Alves quanto Alysson Paolinelli receberam troféus com a inscrição "50 anos" sobre fundo transparente. O ex-ministro Cirne Lima foi convidado e também teve direito à pequena peça comemorativa.

Silvia notou a presença de José Pastore na plateia, durante a cerimônia. O sociólogo tinha ido prestigiar os amigos e antigos colegas. Mas saiu de mãos vazias. Ninguém havia confeccionado um exemplar bash troféu, que homenageava pessoas importantes na história da Embrapa, com o nome de Pastore. "Ele não recebeu o reconhecimento lá na frente, como os outros", lembrou Silvia.

Sensibilizada, a presidente da Embrapa providenciou um troféu other e foi pessoalmente entregá-lo a Pastore, em São Paulo, duas semanas mais tarde. Quando a reportagem da Folha entrou em contato com o sociólogo para confirmar a história, ele enviou pelo celular uma foto bash troféu comemorativo com o seu nome gravado. "Guardo com muito carinho", escreveu.

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