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Crise de Jaques Wagner perde espaço para Copa do Mundo em grupos de mensagem

A nova fase da Operação Compliance Zero, que investiga o caso do Banco Master, mirou o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado, na quinta-feira passada (18), com a Copa do Mundo iniciada apenas uma semana antes. A PF cumpriu mandado de busca e apreensão na residência do senador, e Wagner passou a figurar entre os alvos da investigação que já corria sobre o banco.

No dia seguinte, sexta-feira (19), o Brasil venceu o Haiti por 3 a 0 na segunda rodada da fase de grupos, e enquanto o país discutia o desempenho da seleção, Wagner sofria os primeiros impactos das suspeitas de vantagens indevidas.

Os números do monitoramento de mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp pela Palver entre 18 e 21 de junho mostram Wagner com 8% de menções que o defendiam, entre as mensagens com sentimento, contra 92% de menções negativas.

Apesar de um nível altíssimo de rejeição, é possível notar que o assunto foi tema relevante apenas para os usuários que são mais politicamente engajados. Quando olhamos para todas as mensagens sobre política e futebol, a Copa representou 43% de todas as mensagens, contra 57% sobre política nos grupos de WhatsApp. Entre os dois temas, o futebol, sozinho, ocupou quase metade do espaço de conversa pública em um período de crise política aguda.

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A dinâmica fica mais clara hora a hora. Na sexta-feira, dia do jogo contra o Haiti, às 18h, antes do apito inicial, a Copa já ocupava 65% da atenção e a política caiu para 35%. Às 22h, com o jogo em andamento, a Copa subiu para 79% e a política despencou para 22% —ao contrário do que costuma acontecer em crises políticas, em que as mensagems sobre o tema ganham terreno sobre outros assuntos mesmo às sextas à noite.

A crise de Wagner, que deveria estar no auge naquela sexta-feira, simplesmente não tinha espaço para circular. O futebol achatou o espaço que a política normalmente ocupa durante as horas em que a bola rolou. Esse acontecimento confirma a hipótese que levantamos na coluna há duas semanas. A Copa do Mundo não desloca atenção da política de forma momentânea, como faria um jogo amistoso em período normal.

O futebol captura atenção estrutural durante a Copa e reduz cronicamente o tamanho do palco onde a política inteira opera. Isso acontece porque o interregno entre jogos que prendem a atenção é curto. Com a competição em andamento desde 11 de junho e jogos praticamente todos os dias, a vida útil de qualquer pauta política encurta. Wagner foi atingido precisamente quando a janela de atenção política estava no seu ponto mais estreito do ano.

Porém essa redução de espaço não explica completamente por que Wagner sofreu menos do que Flávio Bolsonaro. Jaques Wagner não é candidato a presidente e não é uma figura conhecida na disputa nacional, como Flávio. E a operação contra ele, embora real, não veio acompanhada de um gatilho de concretude material como o áudio que expôs Flávio. Ouvir o próprio interlocutor falando é diferente de uma notícia sobre operação. Isso porque o senador do PT não tem esse elemento material que naturalmente reduz o potencial de viralização da crise.

Esse ponto é importante porque a direita demonstrou no caso Vorcaro uma capacidade de mobilização em rede muito superior. Os dados do monitoramento mostram que a militância bolsonarista ataca Wagner com intensidade forte na maioria das mensagens de confronto, enquanto a militância petista, em sentido oposto, abandona a própria defesa de Wagner na maior parte das ocorrências.

Em condições normais, fora do ciclo da Copa, essa assimetria de mobilização poderia impulsionar a crise de Wagner com muito mais força do que ela está alcançando. Em condições normais a direita tem a capacidade de transformar esse fato político em pauta dominante. O que a Copa faz é limitar o terreno onde essa capacidade se exerce.

Vale registrar também que, ao longo do fim de semana, o presidente Lula não foi associado de forma consistente à crise de Wagner. Apenas no primeiro dia da crise houve mobilização clara que buscava associar o PT e o governo Lula ao Banco Master, porém isso perdeu força no dia seguinte, com o jogo do Brasil. Sua aprovação se manteve estável em 21% ao longo dos quatro dias. Isso demonstra que, durante essa janela de oportunidade, a direita não conseguiu emplacar uma narrativa que associe de forma estrutural o presidente Lula à crise do Banco Master.

O monitoramento de mensagens em grupos públicos mede como militâncias mobilizam discurso e como as narrativas são trabalhadas. A conclusão é que a Copa não necessariamente salvou Wagner nem o PT. O senador segue com rejeição altíssima e em deterioração ao longo dos dias. O que a Copa fez foi reduzir o palco, encurtar a vida útil da pauta e neutralizar a vantagem de mobilização que a direita teria em período normal. Quando a Copa terminar, em 19 de julho, o espaço político se reabrirá. Basta entender se essa crise conseguirá ser requentada de forma a gerar custo político real ou se novos assuntos irão capturar a atenção do eleitor.

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