Segundo Guterres, a nível global, a situação no Haiti só não é pior que no Sudão e nos Territórios Palestinos.
Numa coletiva de imprensa com jornalistas, o chefe da ONU apontou a violência de gangues que "aterrorizam" a população como causa da crise que levou 1,5 milhão a fugirem para o interior do país e deixou mais da metade de seus 11,7 milhões de habitantes dependendo de ajuda humanitária para ter o que comer.

Agora no g1
A violência no país produziu 2,3 mil mortos só neste ano, segundo a ONU. Em 2024, o país era líder mundial em homicídios, de acordo com um levantamento da ONG Igarapé.
Em média, mais de 20 mulheres e meninas foram agredidas por dia no primeiro trimestre deste ano, e o número de crianças recrutadas pelas gangues triplicou, informou Guterres. "Agora um em cada dois membros das gangues é uma criança."
Guterres critica "indiferença" da comunidade internacional
País mais pobre das Américas, o Haiti sofre há anos com a instabilidade, enquanto gangues poderosas assassinam, estupram, saqueiam e sequestram de forma desenfreada.
Guterres lamentou que o plano de resposta da ONU para o Haiti é o programa humanitário das Nações Unidas "menos financiado". Até agora, a entidade só conseguiu arrecadar 24% dos 880 milhões de dólares previstos para endereçar a crise.
"O Haiti não pede caridade. O Haiti pede que o mundo cumpra sua palavra. E o Haiti não pode esperar", declarou.
Guterres cumprimenta soldados do Chade enviados para participar de força especial contra gangues no Haiti. — Foto: Danica Coto/AP Photo/dpa/picture alliance via DW
Ele destacou que a Força de Repressão de Gangues (GSF, na sigla em inglês), aprovada pelas Nações Unidas em setembro passado para combater as gangues armadas e que prevê um efetivo máximo de 5,5 mil soldados de vários países, oferece uma "possibilidade real de fazer recuar a violência e restabelecer a autoridade do Estado".
Até agora, Jamaica, Chade, El Salvador e Guatemala enviaram tropas menos de mil soldados para formar a GSF, que deve começar a operar nas próximas semanas. A força deve atuar em conjunto com a polícia nacional e as Forças Armadas.
Haiti sem eleições desde 2016
1º de março - Homem com o rosto coberto pede que os manifestantes parem durante um protesto contra o governo do primeiro-ministro Ariel Henry e a insegurança, em Porto Príncipe, Haiti — Foto: Ralph Tedy Erol/Reuters
A crise de segurança no Haiti se agravou no início de 2024, quando gangues lançaram uma onda de violência que forçou o primeiro-ministro do país, que não havia sido eleito, a renunciar.
Ele foi substituído por um conselho presidencial interino, mas, quando o mandato do conselho expirou em fevereiro, o poder Executivo passou para o primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé — que recebeu Guterres na chegada.
O Haiti não realiza eleições desde 2016, principalmente por causa da insegurança. Seu último presidente, Jovenel Moïse, foi assassinado em julho de 2021.
A posição estratégica do país, suas extensas fronteiras terrestres e marítimas — assim como seus numerosos portos públicos e privados, estradas precárias e pistas de pouso clandestinas — tornaram o país particularmente vulnerável ao tráfico de mercadorias contrabandeadas, especialmente armas de fogo, munições e drogas.
O Haiti também depende fortemente de importações, com quase todos os setores de sua economia ligados a bens vindos do exterior. Como resultado, há um intenso fluxo de bens e serviços através de suas fronteiras e portos — o que oferece aos atores criminosos amplas oportunidades para contrabandear mercadorias ilegais.
Gangues dominam cadeias de suprimentos e extorquem rotas comerciais e de transporte humanitário, o que lhes dá enorme poder para desviar recursos do Haiti e desestabilizar sua economia. E como são mais bem armadas que as próprias forças de segurança, elas conseguem se impor pela força.

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