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- Author, Santiago Vanegas
- Role, BBC News Mundo
- Author, Atahualpa Amerise
- Role, BBC News Mundo
Há 4 minutos
Tempo de leitura: 8 min
O presidente dos EUA, Donald Trump, aumentou ainda mais a pressão sobre o governo cubano na quinta-feira (29/01), ao assinar uma ordem executiva que ameaça impor tarifas adicionais aos países que fornecem petróleo à ilha.
Essa medida pode agravar a escassez de petróleo em Cuba, que já causa apagões massivos que duram horas todos os dias, além de outras graves consequências econômicas.
Após a recente intervenção dos EUA na Venezuela, Trump anunciou que não haveria mais remessas de petróleo para Cuba vindas do país sul-americano. Com sua nova ordem, ele põe em risco o fluxo de petróleo para a ilha proveniente de seu outro principal fornecedor: o México.
O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, reagiu à medida acusando Trump de querer estrangular a economia cubana e chamando seu governo de "fascista, criminoso e genocida".
Trump negou estar tentando estrangular Cuba, mas ao mesmo tempo afirmou que "a ilha não conseguirá sobreviver". Segundo dados da empresa belga Kpler, publicados pelo Financial Times, Cuba tem petróleo suficiente para apenas mais 15 a 20 dias.
A seguir, explicamos em quatro pontos principais como Trump está usando o petróleo para aumentar a pressão sobre uma Cuba já fragilizada.
1. Ordem executiva de Trump

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Em termos estritos, a ordem executiva emitida por Trump na quinta-feira declara estado de emergência nacional, argumentando que "a situação em relação a Cuba constitui uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos".
O documento acusa o governo cubano de "desestabilizar a região" e de se aliar a adversários dos EUA, como Rússia, China e Irã, e a "grupos terroristas" como o Hamas e o Hezbollah.
"Ao declarar estado de emergência em relação a Cuba, o governo Trump está argumentando, na prática, que o fornecimento de energia da ilha agora é uma questão de segurança nacional dos EUA", explica o correspondente da BBC News, Will Grant.
Em resposta à suposta ameaça representada por Cuba, a ordem busca dissuadir países terceiros de vender petróleo para a ilha sob a ameaça de tarifas mais altas.
Desde seu primeiro mandato como presidente, Trump tem tomado medidas decisivas para enfraquecer o apoio econômico ao governo cubano.
Em 2017, ele reverteu a política de abertura adotada por seu antecessor, Barack Obama, e restabeleceu restrições e sanções severas ao fluxo de dinheiro, bens e pessoas para Cuba.
Após a intervenção na Venezuela em 3 de janeiro, o presidente dos EUA afirmou que Cuba estava "pronta para cair", na medida em que deixaria de receber dinheiro daquele que fora seu aliado mais próximo por décadas.
Contudo, seu governo esclareceu que não pretende forçar uma mudança de regime.
Nesta quarta-feira, perante a Comissão de Relações Exteriores do Senado, o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, explicou: "Gostaríamos muito de ver uma mudança de regime, mas isso não significa que vamos provocá-la".
Ele acrescentou: "Não há dúvida de que seria muito benéfico para os Estados Unidos se Cuba não fosse mais governada por um regime autocrático".
2. Crise do petróleo em Cuba

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Fontes especializadas estimam que Cuba necessita de cerca de 110 mil barris de petróleo por dia e produz aproximadamente 40 mil, o que a torna altamente dependente de importações.
No auge da aliança entre Hugo Chávez e Fidel Castro, no início dos anos 2000, a ilha recebia cerca de 100 mil barris por dia da Venezuela.
A situação agora é bem diferente.
Segundo dados da Kpler publicados no Financial Times, até o momento, em 2026, Cuba recebeu apenas um carregamento, do México, de 84 mil barris de petróleo (o equivalente a menos de 3.000 barris por dia).
A escassez foi agravada, naturalmente, pelo fato de que, após a intervenção de Trump no mercado petrolífero venezuelano, a ilha deixou de receber remessas do país sul-americano.
"Não haverá mais petróleo nem dinheiro para Cuba", declarou o presidente dos EUA em 11 de janeiro. O petróleo venezuelano tem sido vital para a ilha, mesmo nos últimos anos, quando os volumes de exportação têm diminuído.
Segundo observadores do setor e um alto funcionário americano citado pelo Miami Herald, o governo cubano utilizava o petróleo venezuelano não apenas para suprir parte de sua demanda interna, mas também para revendê-lo e obter divisas, algo que o país considera muito difícil sob o embargo americano.
Diante da atual crise de escassez de petróleo, o México tornou-se a principal esperança de Cuba. Estima-se que, ao longo de 2025, o país tenha enviado cerca de 12 mil barris de petróleo por dia para Cuba.
Mas é justamente aí que a medida anunciada por Trump na quinta-feira pretende surtir efeito.
"Especificamente, a intenção parece ser alertar o México contra a substituição da Venezuela como principal fornecedor de energia da ilha, após a deposição forçada de Nicolás Maduro do poder em Caracas no início deste mês", observa Will Grant.
O economista Ricardo Torres explicou à BBC Mundo que, mesmo com o fornecimento de petróleo mexicano, os sistemas elétrico e de transporte da ilha já corriam o risco de uma paralisia completa.
Se os carregamentos de petróleo do México forem interrompidos, esse risco será muito maior.

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O presidente cubano reagiu à ordem executiva anunciada na quinta-feira, afirmando: "Sob um pretexto mentiroso e infundado, [...] o presidente Trump pretende estrangular a economia cubana impondo tarifas a países que comercializam petróleo com Cuba de forma soberana."
Ele acrescentou que essa medida "demonstra a natureza fascista, criminosa e genocida de uma camarilha que sequestrou os interesses do povo americano para obter ganhos puramente pessoais."
O ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, descreveu a ordem executiva como uma "nova escalada dos EUA contra Cuba" e disse que os argumentos de Trump para rotular Cuba como uma ameaça são baseados em mentiras.
"Os EUA também recorrem à chantagem e à coerção para tentar forçar outros países a aderirem à sua política de bloqueio universalmente condenada contra Cuba, ameaçando-os com tarifas arbitrárias e abusivas caso se recusem, em violação de todas as normas do livre comércio", acrescentou Rodríguez.
3. O papel do México

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Segundo dados do Banco do México, desde que Claudia Sheinbaum assumiu a presidência, as exportações de petróleo para Cuba aumentaram consideravelmente.
Dados da Kpler indicam aproximadamente 12 mil barris por dia durante 2025.
Sheinbaum argumenta que esses embarques são motivados por razões humanitárias; ou seja, visam evitar a interrupção do funcionamento de hospitais e outros serviços essenciais.
Ela reiterou isso na sexta-feira (30/01), durante sua coletiva de imprensa matinal, reagindo à medida anunciada por Trump.
"Impor tarifas aos países que fornecem petróleo para Cuba pode desencadear uma crise humanitária de grandes proporções", disse ela, acrescentando que o México buscará alternativas para evitá-la.
No entanto, ela também reconheceu que não quer colocar o país em risco de ter mais tarifas impostas e, portanto, instruiu seu Ministro das Relações Exteriores, Juan Ramón de la Fuente, a entrar em contato com o governo dos EUA para entender o alcance da ordem executiva.
Segundo Sheinbaum, os embarques de petróleo para Cuba representam menos de 1% da produção total do México.
Antes do anúncio da ameaça de tarifas de Trump, a Bloomberg havia noticiado que o México cancelara um carregamento de petróleo planejado para Cuba nesta semana.
Em resposta, a presidente Sheinbaum declarou, sem confirmar se o carregamento ocorreria, que se tratava de uma decisão "soberana" que cabia à estatal petrolífera Petróleos Mexicanos (Pemex).
4. Uma economia à beira do colapso

Crédito, AFP via Getty Images
Os cubanos enfrentam há meses as consequências da escassez de combustível: apagões que duram horas, longas filas para gasolina, transporte e alimentos a preços exorbitantes e montes de lixo nas ruas que não são recolhidos.
"Em muitas partes do país, os apagões duram pelo menos 20 horas por dia. Isso significa que eles só têm eletricidade por quatro horas, e essa é uma situação difícil", disse o economista Omar Everleny, ex-diretor do Centro de Estudos Econômicos Cubanos da Universidade de Havana, à BBC Mundo.
Com o último anúncio de Trump, o país pode entrar em uma crise humanitária sem precedentes.
O próprio ministro das Relações Exteriores reconheceu que o "bloqueio total do fornecimento de combustível" pode submeter o povo cubano "a condições de vida extremas".
O país está mergulhado em recessão há anos, incapaz de pagar suas múltiplas dívidas ou obter financiamento externo, com queda na produção e sem conseguir garantir o fornecimento de alimentos e bens básicos à população. A produção industrial em 2024 foi a mais baixa em 40 anos, segundo os dados governamentais mais recentes. A agricultura está paralisada devido à ineficiência do sistema de gestão estatal e à escassez de fertilizantes e combustível.
E o turismo internacional — uma importante fonte de divisas — encerrou 2025 com menos de 2 milhões de visitantes, o pior número em mais de 20 anos, excluindo a pandemia.
Essa situação é agravada pela grave escassez de medicamentos em meio a surtos simultâneos de dengue, zika e chikungunya, e pela drástica redução dos subsídios alimentares.
Nas palavras do presidente Miguel Díaz-Canel, "esta não é apenas mais uma crise", mas sim "o acúmulo de distorções, adversidades, dificuldades e nossos próprios erros, exacerbados por um embargo externo extremamente agressivo".

Crédito, Reuters

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