
Crédito, Reprodução
- Author, Vitor Tavares
- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
Published Há 4 minutos
Tempo de leitura: 9 min
O filme Dark Horse (algo como O Azarão, em tradução livre) pretendia ser um relato heroico da trajetória recente do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Retratando Bolsonaro entre a vida e a morte no leito de hospital após levar uma facada na campanha das eleições de 2018 em Juiz de Fora (MG), o filme foi descrito como um thriller de "baixíssimo orçamento" para padrões americanos pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP), ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro e principal idealizador da produção.
Apesar da intenção de projetar o bolsonarismo, Dark Horse acabou se tornando o centro de uma crise para Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente e pré-candidato à Presidência da República. E o "baixíssimo orçamento" é parte do cenário.
Flávio admitiu ter pedido dinheiro a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para custear "parcelas de patrocínio" da produção que estariam atrasadas — o pré-candidato veio a público depois de a informação ser revelada na quarta-feira (13/5) pelo site The Intercept Brasil, que disse que o valor negociado chegou a R$ 134 milhões.
O pedido foi feito em novembro de 2025, pouco antes da prisão de Vorcaro e de o escândalo do Master, que investiga fraudes financeiras, ter tomado as proporções que tomou.
Após a revelação do pedido de dinheiro, Flávio emitiu nota oficial justificando a conversa com Vorcaro.
"O que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de lei Rouanet", disse ele. "Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem", afirmou o senador.
Em vídeo, Flávio também afirmou que o filme "está pronto" e convidou "a todos para assistirem a essa obra-prima".
A ideia, segundo o diretor do longa, Cyrus Nowrasteh, disse em entrevista à BBC News Brasil, é de que o lançamento ocorra em 2026, em setembro, a um mês eleições presidenciais.
Entenda abaixo o que se sabia até então sobre financiamento do filme as ligações da produção com a direita global.

Crédito, Reprodução/Dark Horse
Produtora recebeu emendas parlamentares
A produção do filme Dark Horse está a cargo da emprea Go Up Entertainment, de Karina Ferreira da Gama.
A produtora aparece em documentos públicos como responsável por alugar o Memorial da América Latina, espaço cultural em São Paulo, para as gravações. O valor foi R$ 126 mil.
Gama também é presidente da Academia Nacional de Cultura (ANC), empresa que já recebeu, via emendas parlamentares de deputados do PL, R$ 2,6 milhões para produção de uma série sobre "heróis nacionais".
A empresária é ainda sócia do Instituto Conhecer Brasil, que recebeu mais de R$ 100 milhões da prefeitura de São Paulo para fornecer internet Wi-Fi em comunidades de baixa renda da cidade no último ano, segundo reportagem do Intercept Brasil.
Até a revelação sobre o Máster, Frias não vinha revelando a origem dos recursos para a produção de Dark Horse e tem dito que jamais o faria com "verba pública" ou apoio de leis como a Rouanet.
Em entrevistas, ele cita que teve muito apoio da SPCine, da prefeitura de São Paulo, e do governo Tarcísio de Freiras.
O governo de São Paulo e a prefeitura de São Paulo disseram à BBC que não deram nenhum apoio à produção.
"A SPCine autorizou as gravações do filme mencionado após análise técnica, seguindo exatamente o mesmo trâmite usado em todas as solicitações recebidas pelo Município", disse a prefeitura.
A BBC News Brasil tentou entrar em contato com Mario Frias e Karina da Gama, mas não teve resposta.
Arma bolsonarista na 'guerra cultural'
Além de agradar a base bolsonarista com uma história ficcionalizada e com "licença poética" sobre sua maior liderança, agora presa por tentar um golpe de Estado, o filme está dentro de um ecossistema global de produções com temáticas caras a lideranças de direita e conservadoras.
O guru, morto em 2022 nos EUA em meio à pandemia de covid-19, defendia que havia uma hegemonia da esquerda "comunista" na cultura e que os conservadores precisavam tomar conta desses meios de influência.
"Eu tinha visto um vídeo em que Olavo de Carvalho falava de guerra cultural e achei isso fantástico porque não via na boca das pessoas que representavam a direita. Eu via as pessoas de direita muito na questão de segurança e economia", disse Frias em entrevista ao canal de direita Conversa Timeline.
Pesquisador dessa chamada guerra cultural, o sociólogo Marco Dias explica que, para as novas direitas globais, prevalece uma defesa de que há uma cultura atual "em crise".
Essa ideia, diz Dias, se espalha mesmo que, nas ciências humanas, ela já tenha sido "desconstruída, porque não há uma cultura única, aquela ideia da Cultura com C maiúsculo".
"Mas o bloco da direita se coloca como guerreiro cultural, querendo transformar essa cultura ou, numa forma reacionária, voltar para algum momento da história em que eles achavam que as coisas eram mais simples", diz Dias, professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS).
Como é encarada como uma "guerra" para os conservadores, há uma busca de aliados para a batalha.
Segundo Frias, a ideia de realizar o filme veio em 2022, após ter um infarto e enfrentar um quadro depressivo. Seria uma forma agradecer o papel do ex-presidente na sua vida.
O deputado disse que buscou financiadores do projeto entre nomes que conheceu na direita americana quando era membro do governo Bolsonaro — nomes que disse na época que não poderia revelar por questões de contrato.
O diretor Cyrus Nowrasteh contou em dezembro de 2025 para a BBC que estava desenvolvendo outro projeto para ser feito no Brasil quando um produtor americano o colocou em contato com a produtora GoUp Entertainment, de Karina Ferreira da Gama, e com Mário Frias.
Marco Dias avalia que Dark Horse reflete justamente a busca da direita no Brasil em se encaixar em movimentos da direita conservadora global, especialmente os EUA.
"Tem um diálogo muito forte com essas correntes de um cinema cristão que o próprio diretor e ator principal estão inseridos", conta.
Roteirista e diretor, Nowrasteh é um cineasta americano de ascendência iraniana com histórico de produções com forte apelo cristão e político.
Seu filme mais famoso é O Apedrejamento de Soraya M, que trata de extremismo numa história real de uma mulher condenada à morte em praça pública no Irã devido a uma acusação falsa de adultério.
O filme teve certo reconhecimento, ficando terceiro lugar no prêmio do público no Festival Internacional de Cinema de Toronto, no Canadá.
A filmografia de Nowrasteh segue em torno de filmes mais focados no cristianismo, de "bem contra o mal", com pouco reconhecimento entre os críticos.
Em entrevista à BBC News Brasil, Nowrasteh disse que "sentiu que havia muitas perguntas sem resposta" em torno da facada contra Bolsonaro.
"Ajudará a iluminar muito do que está acontecendo no Brasil hoje — e no mundo", disse então.

Crédito, Getty Images
Protagonista atuou em 'O Som da Liberdade'
O interprete de Bolsonaro em Dark Horse é um velho conhecido de Nowrasteh em seus filmes e, segundo Frias, era sua única escolha: o ator americano Jim Caviezel.
Ele ganhou fama internacional em 2004 ao interpretar Jesus no filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, marcado por polêmica nos EUA por sua violência e pela acusação de supostamente promover antissemitismo ao focar nos judeus como culpados pela morte do messias.
Após essa produção, a carreira de Caviezel focou em filmes com temas religiosos ou com argumentos caros à direita.
Gravado em 2018 e financiado por investidores independentes, o filme narra a história de um agente do governo americano (na vida real, Tim Ballard; e, na tela, Jim Caviezel), que desmantela uma rede de abuso sexual infantil que operava na Colômbia.
Ballard é líder da organização sem fins lucrativos Operation Underground Railroad, que apura casos de crianças vitimizadas pelo tráfico sexual internacional e muito reverenciada na direita americana, inclusive pelo presidente Donald Tump.
Mais tarde, Ballard foi acusado de usar seu poder na organização para cometer abusos sexuais, segundo denúncias às quais o jornal New York Times teve acesso.
O Som da Liberdade também foi associado por críticos ao movimento americano QAnon — que propaga a tese de que políticos como Trump estariam travando uma guerra secreta contra pedófilos traficantes de crianças e adoradores de Satanás que supostamente ocupariam cargos no alto escalão do governo dos Estados Unidos, do mundo empresarial e da imprensa no país.
O próprio Caviezel participou de uma conferência temática QAnon em 2021 e apareceu várias vezes no podcast de ideólogo Steve Bannon, que chegou a dizer a teoria do QAnon é "uma coisa boa".
Na época, a produtora do filme negou a que estivesse alimentando pensamentos conspiratórios.
Caviezel é católico praticante e, em eventos, já falou sobre a importância da fé para seu trabalho e que há uma cultura "decadente".
Apoiador abertamente de Trump, ele topou interpretar Bolsonaro sem negociar valores, segundo Mario Frias.
Em um vídeo compartilhado nas redes sociais pela esposa de Frias, Juliana, é possível ver Cavizel rezando em aramaico, língua apontada como a falada por Jesus Cristo, com Carlos Bolsonaro no set de filmagens.
"Jim seria o único a aceitar fazer um papel polêmico como esse ", disse Frias ao Conversa Timeline.
"Se as coisas fossem justas, era coisa para Oscar."

Crédito, Mario Frias/Reprodução
O Som da Liberdade teve uma bilheteria impressionante enquanto filme independente e, segundo analistas, foi uma prova de uma demanda reprimida por produções culturais religiosas e alinhadas aos valores tanto de grupos que se identificam como conservadores quando aqueles alinhados à direita radical americana.
A esse fenômeno se soma ainda o avanço de produções com temas religiosos que eram de nicho agora têm ficado disponíveis para um público amplo em plataformas de streaming, ou seja, de transmissão em tempo real pela internet.
Para o sociólogo Marco Dias, que acompanha a produção cultural da direita, a fronteira do cinema foi ultima a ser rompida por esse setor que acredita na necessidade de ocupar espaços da cultura.
"É uma questão de crescimento passo a passo", diz.
"São redes muito bem estruturadas, em que já temos uma série de editoras que traduzem livros de direita, e plataformas como Brasil Paralelo"
Dias avalia que o cinema ainda tem poucos exemplos de destaque porque uma produção cinematográfica é a mais difícil de ser realizada, além de custosa.
Por isso, diz o especialista, o filme sobre Bolsonaro com participação internacional vai invitalmente ser encarado como "uma vitória grande" pela direita brasileira, ao colocar a história do ex-presidente para ser vista no mundo todo.
"É um projeto que provavelmente vai ter visibilidade, com a construção de Bolsonaro como alguém perseguido — e talvez tenha um mercado bem grande dentro desses grupos da nova direita global."
*Esta reportagem foi publicada originalmente em 26 de dezembro de 2025 e atualizado em 13 de maio de 2026

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