Flávio Bolsonaro

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Flávio Bolsonaro negou qualquer ilegalidade no financiamento do filme sobre seu pai
    • Author, Mariana Schreiber
    • Role, Da BBC News Brasil em Brasília
  • Published Há 23 minutos

  • Tempo de leitura: 5 min

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) admitiu ter negociado com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, investimentos para custear as gravações de um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

De acordo com uma reportagem do portal The Intercept Brasil, o repasse total acordado seria de US$ 24 milhões, o equivalente a cerca de R$ 134 milhões na época.

Desse total, R$ 61 milhões teriam sido de fato liberados entre fevereiro e maio de 2025. Diante dos atrasos para os pagamentos restantes, Flávio teria enviado mensagens para Vorcaro cobrando a liberação.

O Banco Master pagou diretamente à Entre Investimentos R$ 2,329 milhões em 2025, empresa que teria sido utilizada para repasses de dinheiro entre Vorcaro e a produção do filme, segundo o jornal O Globo, com base em informações obtidas a partir das declarações de Imposto de Renda do banco.

O banqueiro está preso, acusado de ter comandado fraudes bilionárias no Banco Master, instituição liquidada pelo Banco Central em novembro. No momento, ele negocia um acordo de delação premiada.

O senador reagiu às revelações, negando qualquer ilegalidade no financiamento do filme e cobrando a instalação de uma comissão parlamentar de inquérito para investigar as suspeitas envolvendo Vorcaro.

"Mais do que nunca, é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes, dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet", disse Flávio, por meio de nota.

"Conheci Daniel Vorcaro em dezembro de 2024, quando o governo Bolsonaro já havia acabado, e quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro. O contato é retomado quando há atraso no pagamento das parcelas de patrocínio necessárias para a conclusão do filme", continuou.

O senador diz que não ofereceu nada em troca do financiamento.

"Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem. Isso é muito diferente das relações espúrias do governo Lula e seus representantes com Vorcaro. Por isso, reitero, CPI do Master Já", disse ainda.

Procurada pela BBC News Brasil, a defesa de Vorcaro ainda não se manifestou sobre o financiamento do filme Dark Horse (Azarão, em tradução livre).

As gravações foram encerradas em dezembro, em São Paulo, e o longa entrou em fase de edição, nos Estados Unidos.

Na sequência da divulgação, personalidades do campo conservador começaram a questionar a viabilidade da candidatura presidencial de Flávio, atual pré-candidato do PL.

"Eu realmente espero que esse áudio seja falso. Se for verdade, acabou", escreveu o economista e comentarista Rodrigo Constantino na rede social X.

Já o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), também pré-candidato ao Palácio do Planalto e que vinha sendo cotado para ser candidato a vice-presidente em uma chapa com Flávio, criticou o aliado.

"Flávio Bolsonaro, ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável. É um tapa na cara dos brasileiros de bem. Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer a mesma coisa", declarou, em um vídeo no Instagram.

Por outro lado, o ex-vereador Fernando Holiday (PL-SP) minimizou as revelações contra Flávio Bolsonaro.

"Eu não estou entendendo essa zona toda. Qual o problema de buscar financiamento privado para um filme? A outra opção é financiamento público. E, por acaso, para pedir investimento privado, tem que prever os crimes do sujeito? Consultar a Mãe Dinah?", escreveu no X.

As mensagens de Flávio para Vorcaro

Daniel Vorcaro

Crédito, PF

Legenda da foto, Daniel Vorcaro está preso acusado de ter comandado fraudes bilionárias no Banco Master

O Intercept Brasil teve acesso a mensagens trocadas por Flávio e Vorcaro em 2025, incluindo um aúdio enviado pelo senador em setembro, pedindo a liberação de valores pendentes.

Ainda segundo a reportagem, Vorcaro teria se compromotido a repassar US$ 24 milhões de dólares para a produção cinematográfica, que seria equivalentes a cerca de R$ 134 milhões na época.

"Documentos e mensagens obtidos com exclusividade pelo Intercept Brasil indicam que pelo menos 10,6 milhões de dólares — cerca de R$ 61 milhões, considerando a cotação do dólar nos períodos das transferências — haviam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações, para financiar o projeto cinematográfico ligado à família Bolsonaro", diz também o portal.

Diante do atraso na liberação dos valores restantes, porém, Bolsonaro teria feito contatos com Vorcaro cobrando os valores, com um áudio de 8 de setembro.

"Eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá? Mas, enfim... É porque está num momento muito decisivo aqui no filme e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso e preocupado aqui com o efeito contrário do que a gente sonhou pro filme, né?", teria dito Flávio no aúdio divulgado pelo Intercept Brasil.

"Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel ou num Cyrus [Nowrasteh], os caras renomadíssimos lá no cinema americano mundial, podia ser algo muito ruim", continua a gravação, citando o ator que interpreta Bolsonaro na produção e o diretor da obra.

Já no dia 16 de novembro, véspera da primeira prisão de Vorcaro, o senador teria feito outro contato em mensagem de texto: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!".

A reportagem cita ainda outras interações, como registros de ligações de áudio cujo teor não foi revelado e conversas marcando um jantar na casa de Vorcaro para que o banqueiro conhecesse os artistas envolvidos no filme — não há confirmação se o jantar de fato ocorreu.

Ainda segundo o Intercept Brasil, o material obtido ainda indica a participação de outros dois intermediários nas operações: o empresário Thiago Miranda, fundador e sócio do Portal Leo Dias, e Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e apontado pela Polícia Federal como seu principal operador financeiro. Zettel também está preso, negociando acordo de delação premiada.

Segundo o jonal O Globo, o publicitário Thiago Miranda confirma ter intermediado negociações com Vorcaro que teriam resultado em repasses de R$ 62 milhões para a realização da produção cinematográfica.

Ao jornal, Miranda disse que o projeto do filme foi apresentado a ele pelo deputado federal Mario Frias (PL-SP), que pediu ajuda por estar com dificuldade de financiamento.

"Eu tive uma reunião com o Mario Frias, que me apresentou o projeto. Conversei com vários empresários e mostrei pro Daniel [Vorcaro]. O Daniel falou: 'Cara, eu tenho interesse, sim, em patrocinar'. Na verdade, não é patrocinar, é ser investidor", afirmou Miranda ao jornal.

"Levei pro Mario Frias, falei: 'Olha, o Daniel vai entrar'. O contrato foi assinado", disse ainda.