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Direita cita Bíblia para responder a esquerda sobre raio em ato de Nikolas

Com uma coisa esquerda e direita até concordavam quando correram às redes sociais para trovejar sobre o raio que feriu dezenas de bolsonaristas em ato convocado pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-SP) em Brasília, no domingo (25): é Deus no controle.

Se Ele estava contra ou a favor os manifestantes, aí vai depender de que lado você está nesse cabo-de-guerra ideológico.

Entre a turma que antipatiza com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), sobraram ironia e crítica. Um chiste que fez sucesso na internet, por exemplo, diz que é impossível um ateu não se converter após o que seria uma prova irrefutável de poder divino.

Parlamentares do campo, em geral, adotaram tom de cobrança. A deputada Erika Hilton (PSOL-SP) disse que Nikolas ignorou "as condições do céu", inclusive a presença de crianças num dia de tamanha adversidade meteorológica. "Entre proteger seus apoiadores de uma tempestade ou perder o timing político, Nikolas optou por colocar pessoas em risco em nome de ganhos pessoais e eleitorais."

O líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias, também acusou o colega de irresponsabilidade.

A tropa bolsonarista adotou estratégias diversas para comentar o acidente climático que rapidamente se tornou mais um capítulo da polarização no país.

O esforço tem sido o de neutralizar qualquer leitura simbólica negativa. O deputado federal Marcelo Crivella (Republicanos-RJ) estava no protesto no instante em que o raio caiu, quando "tremeu o chão, uma barulheira, um som incrível", conforme descreveu.

O episódio, em sua análise, foi uma prova de que Deus é bom o tempo todo se você está lutando pela causa certa. Para ilustrar seu ponto, ele pediu que todos dessem "uma olhadinha no que acontece" quando um raio atinge algo.

Crivella então mostrou vídeo em que um homem lamenta a morte de 66 novilhas vítimas de uma dessas descargas elétricas. O deputado se antecipou à pergunta que julgava inevitável: "As pessoas dizem: ué, se vocês são de Deus, por que caiu um raio na manifestação?".

Ele respondeu lembrando de passagens bíblicas que relatam como Jesus acalmou uma tempestade enquanto atravessava o Mar da Galileia. Entre "ondas altas" e "vento forte", quando seus discípulos "achavam que iam morrer", o messias cristão sabia que tudo daria certo. "Deus nos protegeu como protegeu Jesus na tempestade", afirmou o deputado, que é sobrinho do bispo Edir Macedo.

A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) foi outra que recorreu à Bíblia para justificar o caos climático de domingo. "Como diz a palavra em Ezequiel: ‘Farei descer chuva; haverá chuvas de bênçãos’", escreveu numa rede social. "Essa multidão é a resposta de que não aceitaremos mais o jugo daqueles que tentam roubar a inocência das nossas crianças e destruir os nossos valores."

Colega de Senado, Magno Malta (PL-ES) enveredou por outra linha discursiva. Compartilhou uma animação que reencenou, com alta carga dramática, o que aconteceu no evento de domingo. "O raio não foi o pior que aconteceu ali", diz o narrador do filme.

A certa altura, enquanto manifestantes ao fundo lutam por suas vidas, mesas com pessoas vestidas com uma camisa vermelha alusiva ao PT brindam com champanhe. A ideia é retratar a esquerda como insensível a um cenário potencialmente fatal. "A comemoração não é sobre ideologia, é sobre caráter."

O pastor batista Kenner Terra, doutor em ciências da religião, diz que usar a fé para fins políticos gera um importante capital simbólico. "Não é sem motivo que Nikolas, estrategicamente, afirmou ao longo de todo o percurso de sua marcha que se tratava de uma ação de Deus, expressão da vontade divina."

Brasília Hoje

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O incidente do raio, contudo, provocou o que Terra chama de "um verdadeiro tilt teológico", já que acontecimentos afins costumam ser interpretados, no imaginário religioso, como punição divina. "Na Bíblia há narrativas em que Deus pune com chuva e raios."

Vide trecho do livro de Samuel, do Antigo Testamento, que fala como "o Senhor trovejou com grande trovoada sobre os filisteus, e os aterrou de tal modo que foram derrotados diante de Israel".

Para manter a coerência do discurso, segundo Terra, parte dos apoiadores ajustou a narrativa recorrendo à antiga ideia de batalha espiritual. "Ou seja, poderes malignos teriam usado a natureza para retaliar os servos de Deus que estariam em luta contra o mal."

Ao interpretar a tragédia como castigo de Deus, com seriedade ou deboche, a esquerda buscou questionar a ação dos opositores, diz o pastor.

Para ele, ambos os lados se arriscam ao valer-se do nome de Deus para legitimar interesses. "Ultrapassa a linha do razoável afirmar que Deus tenha punido os manifestantes. Fazer esse tipo de associação superficial é abrir as portas do absurdo, pois permitiria tratar como juízo divino todas as tragédias que atinjam adversários políticos."

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