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'El Helicoide': de "maior centro de tortura da América Latina" a complexo cultural na Venezuela

Hoje, em meio a relatos de tortura, as instalações do 'El Helicoide' se preparam para um novo capítulo: de shopping de luxo a prisão política, agora será um centro de lazer. O anúncio foi feito pela presidente interina Delcy Rodríguez, que confirmou a conversão do edifício em um "centro esportivo, social, cultural e comercial". A mudança ocorre em um momento de transição política, após a queda de Nicolás Maduro e a declaração de uma anistia geral que abrange os 27 anos dos governos chavistas.

Prisão El Helicoide, em Caracas — Foto: RONALDO SCHEMIDT / AFP

Após a notícia, familiares de presos políticos se reuniram do lado de fora do centro de reclusão aos gritos de “liberdade”, reportou a agência AFP. Analistas dos direitos humanos, como a ONG Foro Penal, estimam que a Venezuela tenha ao menos 711 presos, dezenas deles no Helicoide.

O sonho interrompido do "shopping drive-thru"

Localizado na região central de Caracas, o 'El Helicoide' nasceu na década de 1950 como o símbolo da modernidade venezuelana. O projeto, idealizado em 1956 durante a ditadura de Marcos Pérez Jiménez, previa um luxuoso centro comercial piramidal com passagens helicoidais, hotel cinco-estrelas e até um heliporto.

A estrutura foi desenhada para que os visitantes pudessem dirigir seus carros diretamente até as lojas, um conceito de "shopping drive-thru" que chegou a ser exibido no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). No entanto, a obra nunca foi inaugurada como planejado e acabou abandonada por décadas.

De ícone arquitetônico a sinônimo de terror

O destino do edifício mudou drasticamente em 1986, quando a polícia política (Disip) ocupou o local. Mais tarde, tornou-se sede da Polícia Nacional e do Sebin (Serviço de Inteligência). Para a população local, a imponente estrutura na colina deixou de representar o futuro para se tornar um símbolo de medo.

Para muitos venezuelanos, a palavra "Helicoide" é "sinônimo de muita tristeza e de muitas torturas", resume Raidelis Chourio, de 39 anos, à agência. Ele tem o irmão preso desde 2025 em outra prisão.

"É um alívio que fechem este centro".

O Helicóide foi projetado para ser um símbolo das ambições da Venezuela — Foto: Archivo Fotografía Urbana / Proyecto Helicoide via BBC

Víctor Navarro, ex-detento e diretor da ONG Vozes da Memória, classifica o local como o "maior centro de tortura da América Latina". Preso em 2018, Navarro relatou os horrores ocorridos ali durante o regime de repressão: "presenciei e, ao mesmo tempo, fui vítima de tortura. Colocaram uma arma na minha boca, carregada, destravada (...), batiam em mim", disse Navarro à AFP em 2023.

Outras denúncias detalham métodos como asfixia com sacos plásticos, espancamentos com tacos e o uso de correntes em várias partes do corpo.

Investigação internacional e o futuro como "centro de memória"

A situação no Helicoide e em outras prisões venezuelanas atraiu a atenção de órgãos globais. O Tribunal Penal Internacional (TPI) investiga possíveis crimes contra a humanidade, enquanto a ONU denunciou detenções arbitrárias e desaparecimentos forçados.

As autoridades venezuelanas sempre negaram estas acusações e questionaram a investigação por considerar que "instrumentaliza" a justiça internacional como arma política. Maduro chegou a dizer que o Helicoide era uma "referência moral".

Com o novo anúncio de revitalização, defensores dos direitos humanos, como Marino Alvarado, defendem que o espaço não seja apenas um centro cultural, mas sim um "centro de memória". O objetivo seria garantir que o horror perpetrado nas últimas décadas não seja esquecido nem repetido.

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