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Em pleno século 21, Brasil volta aos anos 50 com 'yankees go home' de Lula

Segundo o Departamento de Estado, Carvalho atuou de forma ilegal para forçar a prisão de Alexandre Ramagem, ex-deputado federal e ex-diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) no governo Bolsonaro, pela polícia de imigração americana. Ele teria tentado contornar a demora na análise do pedido de extradição de Ramagem, que foi condenado pela participação na alegada tentativa de golpe de Estado e fugiu para os EUA antes cumprir pena no Brasil. Com o agravante de que o ex-diretor da Abin tem uma solicitação de asilo político pendente, o que lhe dá o direito de permanecer no país até que ele seja analisado pelas autoridades.

Aposta eleitoreira

O caso de Ramagem, porém, é apenas o capítulo mais recente da aposta eleitoreira de Lula na escalada do confronto com os EUA. Há meses, ele está pavimentando o terreno para o que vem por aí, ironizando Trump, pregando a "paz no mundo" e criticando a passividade do Conselho de Segurança da ONU em relação ao presidente americano. Vinha também realizando críticas recorrentes ao aumento unilateral de tarifas promovido por Trump e às suas ações no Irã, na Venezuela, com a captura do ditador Nicolás Maduro, e contra Cuba, com o corte do fornecimento de petróleo venezuelano a preços de pai para filho.

A estratégia de Lula já vem se delineado desde que o presidente americano anunciou um aumento pesado nas tarifas incidentes sobre as exportações brasileiras, em meados de 2025. E ganhou força com o cancelamento de vistos de ministros do STF e de outras autoridades e com o enquadramento do ministro Alexandre de Moraes e de sua mulher Viviane Barci na Lei Magnitsky — o dispositivo que permite ao governo dos EUA aplicar sanções a estrangeiros envolvidos em graves violações dos direitos humanos ou em atos de corrupção — da qual foram excluídos meses depois.

Houve apenas uma breve interrupção na discórdia após a "química" que teria rolado no encontro inesperado de Lula com Trump durante a Assembleia Geral da ONU, em setembro, que acabou levando a uma reunião de ambos na Malásia, com a promessa de um encontro posterior na Casa Branca, que ainda não ocorreu. Mas logo, a "química" se diluiu e o conflito voltou à escalar, até porque interessa eleitoralmente a Lula.

Discurso embolorado

Amparado nas pesquisas, que mostram uma posição desfavorável da população em relação a Trump, Lula parece convencido, como gosta de dizer, de que o discurso antiamericano e nacionalista pode dar uma contribuição relevante para ele recuperar sua popularidade e vencer as eleições. Principalmente com a exploração da relação entre Trump e Flávio Bolsonaro na campanha, que o lulopetismo já vem procurando "demonizar".

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Não fosse pela menção a Trump, a impressão de quem ouve as bravatas de Lula contra o "grande satã" americano — ou "estadunidense", como sua turma costuma falar — seria de que ele entrou no túnel do tempo e voltou aos tempos de Getúlio Vargas, Jango e Brizola, nos anos 1950 e no início da década de 1960, no auge da Guerra Fria. Na época, palavras de ordem como "yankees go home" embalavam protestos contra o "imperalismo" dos EUA e davam o tom no discurso verde-amarelo da esquerda no Brasil e no mundo.

Pode parecer brincadeira de mau gosto, mas não é. Em pleno século 21, na era da inteligência artificial, dos carros sem motoristas, das cirurgias sem médicos, dos robôs humanóides e das redes sociais, Lula e sua tropa resolveram resgatar o nacional-populismo de esquerda que tantos males causou ao país e eleger um inimigo externo como alvo para levantar a arquibancada. Isso só reforça a percepção de boa parte dos eleitores, em especial os mais jovens, de que o discurso do presidente envelheceu, ficou embolorado - e, com ele, o do PT e o de boa parte da esquerda brasileira que atua à sua sombra.

No fundo, o discurso antiamericano desse pessoal embute não apenas o ódio ao "Trump malvadão", mas ao capitalismo, que levou o mundo a um desenvolvimento e a uma redução da pobreza sem precedentes na história da humanidade, ao Ocidente, em particular aos EUA, e à chamada "democracia liberal", que ele já disse várias vezes que é "relativa".

Agenda woke e socializante

É certo que, no Brasil, o discurso antiamericano tem o seu apelo. É certo também que as pesquisas apontam que os apoiadores e simpatizantes de Trump são minoria no país. Isso, porém, não significa de antemão que a aposta de Lula na reedição do confronto contra os EUA e com o presidente americano vai dar certo agora, em 2026.

Trump tem os seus problemas e diz coisas que chocam a elite econômica e intelectual do Brasil e do mundo. Embora de direita, ele é, ao seu modo, um representante do nacional-populismo com sinal trocado - uma corrente que vem ganhando espaço, para o bem ou para o mal, no mundo todo, inclusive na América Latina, num cenário em que os liberais da estirpe de Margareth Thatcher e Ronald Reagan não conseguem seduzir os eleitores como alternativa à agenda woke e socializante que a esquerda quer impor à sociedade.

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Apesar de ser torpedeado pela esquerda e pela mídia progressista, no Brasil e em outros países, especialmente por veículos de comunicação da chamada "imprensa profissional" dos Estados Unidos, Trump é visto por muita gente como um ativo, um aliado, e não como um passivo, que vai levar à lona qualquer um que seja seu aliado.

Trump e seus apoiadores podem ser chamados de "nazistas", fascistas" e "de extrema direita" por seus adversários. Mas ele chegou ao poder pelo voto, por duas vezes, dentro das regras do jogo, porque sua agenda tem apelo popular. Não dá para imaginar que os quase 80 milhões de eleitores que votaram nele em 2024 fazem todos parte de uma espécie de Gestapo americana. Ou que foram todos enganados por ele.

Nem que os demais líderes da direita e da centro-direita latino-americana e mundial que são aliados de Trump e venceram as eleições de forma democrática, inclusive o presidente da Argentina, Javier Milei, o primeiro libertário a chegar ao poder, são pupilos de Hitler e Mussolini.

Anticristo

Apesar das controvérsias que o cercam Trump tem os seus méritos. E, hoje, com as redes sociais e o fim do monopólio da mídia tradicional na apuração e distribuição de informações para o público, é possível encontrar visões alternativas à narrativa dominante, que o coloca como um anticristo que vai levar o mundo ao apocalipse.

Em pouco mais de um ano de governo, Trump redesenhou a geopolítica global, na direção oposta à defendida por Lula e pelo PT. Entre outros feitos, ele deu fim à ditadura de Maduro - recebido por Lula com tapete vermelho no Palácio do Planalto assim que tomou posse. Com isso, acabou com a influência que a China, um dos maiores compradores de petróleo da Venezuela, a Rússia de Vladimir Putin e grupos terroristas islâmicos como o Hezbollah, com quem Maduro mantinha relações próximas para exportação de cocaína e a compra de armamentos, tinham no país e na América do Sul.

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Na Guerra Fria 2.0, que opõe as duas grandes potências globais, também tirou as garras da China, até hoje dominada com mão de ferro pelo Partido Comunista, do Canal do Panamá, no quintal dos Estados Unidos, que Pequim pretendia controlar.

Em vez da hesitação do governo Biden, aliou-se de forma incondicional a Israel em sua luta contra o Hamas, responsável pelos atentados sanguinários de 7 de outubro de 2023, o Hezbollah, que tem sua base principal no Líbano, e o Irã, principal financiador do terrorismo islâmico no mundo.

Sua maior tacada, porém, foi colocar em xeque o regime dos aitolás do Irã, que estava no limiar de produzir a bomba atômica. Ainda não foi um xeque-mate, mas Trump deixou a República Islâmica respirando por aparelhos. Com o apoio de Israel, ele praticamente destruiu as instalações nucleares e boa parte da infraestrutura do país, incluindo centros de produção de mísseis e drones.

De quebra, bloqueou o Estreito de Hormuz, por onde passa a maior parte dos petroleiros do Oriente Médio, e os principais portos do Irã, impedindo o país de exportar petróleo para a China e asfixiando-o financeiramente, ao causar um prejuízo diário estimado em US$ 450 milhões. Com o controle de Hormuz e da Venezuela, Trump assumiu pela força o controle de boa parte do comércio mundial de petróleo, mas cortou os canais que irrigavam duas forças do chamado Eixo do Mal.

Outro dia, Lula fez troça com a ambição de Trump de ganhar o prêmio Nobel da Paz, que ele mesmo já acalentou, sabe-se lá com base em quê, mas o fato é que o presidente americano mudou o tabuleiro geopolítico global. E aqui não se trata de ser a favor da guerra ou da paz, como diz o presidente brasileiro, mas de estar do lado certo da história, das causas do bem, ainda que elas envolvam ações militares, que devem ser evitadas sempre que possível, em vez de se aliar com regimes tirânicos amigos, como faz Lula, que costuma posar por aí como grande defensor da democracia.

Modelo retrógrado

Na economia, o modelo retrógrado de "desenvolvimento" que Lula e a esquerda defendem também tem raízes nas ideias nacionalistas e anti-imperialistas de meados do século passado. Centrado no protecionismo e na substituição de importações; na restrição aos investimentos estrangeiros em "setores estratégicos"; no intervencionismo estatal; e na carga tributária excessiva, que sufoca os empreendedores e os cidadãos, foi ele que condenou o Brasil ao atraso que ainda hoje assola o país.

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É um modelo que só gerou ineficiência, ao blindar as empresas nacionais da concorrência externa, desestimulou o aumento da produtividade e a inovação, e isolou o Brasil, ainda hoje um dos países mais fechados do mundo. Impulsionou também o capitalismo de compadrio, que turbinou a corrupção em escala industrial, com escândalos como os do Banco Master, e do petrolão.

Hoje, depois de quase duas décadas de promessas de melhoria feitas por sucessivos governos do PT desde o início dos anos 2000, cerca de 90 milhões de pessoas, o equivalente a 40% da população, vivem dos programas sociais, enquanto o investimento privado, em vez de subir, ficou praticamente estagnado ou subiu muito pouco desde que o lulopetismo chegou ao poder.

É como dizia o economista Roberto Campos (1917-2001), ex-deputado federal, ex-senador e ex-ministro do Planejamento, chamado ironicamente de Bob Fields pela esquerda, por sua defesa do capitalismo americano e do liberalismo econômico: "O doce exercício de xingar os americanos em nome do nacionalismo nos exime de pesquisar as causas do subdesenvolvimento e permite a qualquer imbecil arrancar aplausos em comícios." Quase 30 anos depois de sua morte, suas palavras continuam atuais no Brasil de Lula e no discurso em defesa da "soberania nacional" que ele pretende sustentar na campanha à reeleição.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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