Especial para o JC*
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A agenda ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança) já impacta diretamente a competitividade das empresas, exigindo planejamento de longo prazo e foco em sustentabilidade. Aspectos como rastreabilidade e pegada de carbono melhoram a reputação, influenciam contratos internacionais e o acesso a crédito, inclusive para pequenos negócios. Com metas variáveis em razão de diferentes estágios nas áreas ambiental, social e de governança, companhias de diferentes setores têm avançado em sustentabilidade, inclusive com retorno financeiro. É o caso de Lojas Renner (foto), Randoncorp e Mercur, que colocaram o ESG no centro de suas estratégias.
A adoção de práticas ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança) já impacta diretamente os resultados e a competitividade das empresas, e a tendência é intensificar cada vez mais sua importância. Exigências regulatórias, mudanças no comportamento do consumidor e pressões da cadeia de fornecimento vêm moldando um cenário em que o sucesso nos negócios estará obrigatoriamente ligado à sustentabilidade.
"Pensar a agenda ESG requer que se considere horizontes de tempo mais longos: cada vez mais, competitividade e sustentabilidade caminharão juntas", afirma Guilherme Portella dos Santos, coordenador do Conselho de Meio Ambiente (Codema) do Sistema Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs). O Codema tem como papel atuar junto aos fóruns de representação ambiental ao nível estadual e federal, para construir linhas de ação para aumentar a competitividade das indústrias e a preservação do meio ambiente. Santos destaca que aspectos como rastreabilidade da cadeia produtiva, origem dos insumos e pegada de carbono já aparecem em contratos comerciais, especialmente com mercados internacionais como a União Europeia, que avança com normativas como o Ajuste de Carbono na Fronteira e a Lei Anti desmatamento.
Embora ainda não obrigatórias para todos os setores, essas exigências têm reflexos diretos na escolha de fornecedores, no processo produtivo, no marketing, na reputação das marcas e na estruturação de cadeias produtivas mais resilientes a desastres climáticos, seja por meio da adaptação e prevenção, do fortalecimento da cadeia, da gestão de riscos ou da transparência.
Os resultados práticos da agenda ESG variam entre segmentos e portes das indústrias. De acordo com Santos, alguns setores têm se destacado, principalmente no que se refere à transição verde: agroindústria, com alta capacidade de inovação no uso eficiente da terra, bioenergias e resíduos orgânicos; química e plásticos, setores-chave para o desenvolvimento de insumos verdes; coureiro-calçadista e têxtil, com alto potencial na economia circular; papel e celulose; aço; e mobilidade elétrica. Marcas gaúchas têm se consolidado como protagonistas na agenda ESG ao integrarem a sustentabilidade à estratégia empresarial, como Gerdau, Renner, Randoncorp e Grendene, entre outras. O dirigente destaca, ainda, que a preocupação com a sustentabilidade não se restringe às grandes: "Observamos cada vez mais iniciativas de empresas de menor porte estabelecendo estratégias sólidas nessa direção". Para a especialista do Sebrae no Rio Grande do Sul, Kelly Valadares, a agenda ESG é uma jornada e representa uma grande oportunidade para os pequenos negócios.
"É uma estratégia de negócio, em que se pode trabalhar desenvolvimento, reputação e até mesmo a solidificação da marca no mercado. É uma forma de tornar o negócio mais eficiente, competitivo e preparado para o futuro", afirma. Para isso, é necessária uma mudança de matriz de pensamento, o que deve começar com as lideranças. É preciso acreditar nas mudanças e em seus resultados em todos os níveis hierárquicos, independentemente do porte da empresa.
"A sustentabilidade é ambiental, social e de governança. Ter ética, transparência e estar conforme a legislação torna a empresa mais respeitada e atrativa, inclusive para o consumidor final", diz Kelly. Melhorar os indicadores das empresas também serve como um diferencial ao buscar linhas de crédito. Segundo a especialista, bancos e cooperativas de crédito vêm priorizando empresas que consigam comprovar práticas sustentáveis no sentido amplo da palavra.
Para começar a adotar os princípios Ambiental, Social e de Governança, a orientação do Sebrae é iniciar com uma autoavaliação, analisar o que pode ser melhorado, estabelecer metas e prazos e avaliar os resultados. Segundo Kelly, pequenas empresas têm, inclusive, mais agilidade para implantar mudanças e colher resultados mais rapidamente por terem estruturas menores e mais flexíveis. Silva exemplifica como iniciar o processo para definir indicadores ESG relevantes nas três esferas: ambiental, como emissões de gases de efeito estufa e consumo de energia; social, como diversidade e inclusão e impacto comunitário; e governança, como a existência e aplicação de políticas de ética e compliance.
A mensuração correta e transparente dos resultados ESG é um requisito essencial para um planejamento efetivo. O processo envolve a adoção de indicadores claros, comparáveis e certificáveis que traduzam a atuação e os impactos de forma fidedigna. Isso porque como os resultados são mensurados impacta, também, a confiabilidade e a credibilidade perante o mercado, destaca o coordenador do Codema. Manter a perenidade da empresa e deixar um legado, seja para sucessores ou para a sociedade, requer planejamento de longo prazo.
No âmbito ambiental, um dos desafios para o futuro é ter insumos disponíveis em quantidades que permitam uma produção em larga escala. Para isso, as empresas têm de se adequar. A escassez de matéria-prima é uma preocupação real. "Ainda temos abundância, mas e daqui a dez anos?", questiona a especialista do Sebrae.
"Sustentabilidade é pensar no futuro da empresa e da sociedade", reforça Kelly.
Como estruturar a agenda na empresa
- Estude os conceitos relacionados à temática ESG para que a estratégia seja implementada de forma integral e sem grande resistência pelas pessoas que trabalham na empresa.
- Crie um conselho ou comitê ESG na empresa, que irá aprofundar as discussões e trazer conhecimentos para definir estratégias e promover ações práticas.
- Realize um diagnóstico da sua empresa, para mapear impactos positivos e negativos da atuação quanto aos quesitos Ambiental, Social e de Governança.
- Defina prioridades ESG, trata-se de uma jornada, sendo preciso avaliar a capacidade de cumprir os objetivos a longo prazo.
- Estabeleça metas e indicadores para avaliar com mais facilidade a evolução.
- Coloque em prática a partir de campanhas de conscientização e de capacitação dos funcionários.
- Faça medição e monitoramento constante e frequente.
- Trabalhe a transparência e a comunicação a partir de relatórios, e divulgue entre colaboradores, empresas parceiras e comunidade.
Fonte: Sebrae
Instituições e metodologias que podem auxiliar na mensuração de métricas de desempenho
- Global Reporting Initiative (GRI): Iniciativa Global de Relatórios, com foco em impacto e materialidade.
- Sustainability Accounting Standards Board (SASB): Normas Contábeis de Sustentabilidade, com indicadores por setor.
- International Sustainability Standards Board (ISSB): Conselho Internacional de Padrões de Sustentabilidade, com as normas IFRS S1 e S2.
Fonte: Codema
Onde buscar apoio
A Fiergs estimula de forma ativa a adoção de práticas ESG, tanto entre as indústrias gaúchas quanto dentro da entidade. Isso se dá por meio de ações institucionais, programas de capacitação, produção de conhecimento técnico e articulação com políticas públicas. A estrutura do Sistema Fiergs tem atuação transversal que permeia a agenda de diferentes formas.
- Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial do Rio Grande do Sul (Senai-RS): trabalha com consultoria, serviços tecnológicos, capacitação, inovação e sustentabilidade. Oferece formação profissional nas áreas de gestão ambiental, eficiência energética, energias renováveis, segurança do trabalho, diversidade e saúde ocupacional.
- Instituto Euvaldo Lodi (IEL): apoia gestão, governança e estruturação de indicadores, com crescente ênfase em sustentabilidade.
- Serviço Social da Indústria do Rio Grande do Sul (Sesi-RS): se conecta especialmente ao pilar social, com serviços focados em saúde e educação. Sua atuação é voltada a promover a qualidade de vida dos trabalhadores da indústria e apoiar ambientes de trabalho mais seguros, inclusivos e éticos. No eixo de educação, o Sesi mantém rede de escolas de Ensino Fundamental e Ensino Médio. Já os Bancos Sociais promovem a reutilização de materiais como forma de apoio a comunidades em situação de vulnerabilidade social.
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável instituídos pela Organização das Nações Unidas (ODS-ONU)
Todas as práticas em ESG colaboram para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estipulados pela Organização das Nações Unidas (ONU). Estes objetivos são compromissos mundiais em favor do desenvolvimento sustentável.
Confira os objetivos:
- Erradicação da pobreza
- Fome zero e agricultura sustentável
- Saúde e bem-estar
- Educação de qualidade
- Igualdade de gênero
- Água potável e saneamento
- Energia limpa e acessível
- Trabalho decente e crescimento econômico
- Indústria, inovação e infraestrutura
- Redução das desigualdades
- Cidades e comunidades sustentáveis
- Consumo e produção responsáveis
- Ação contra a mudança global do clima
- Vida na água
- Vida terrestre
- Paz, justiça e instituições eficazes
- Parcerias e meios de implementação
Fonte: ONU
Renner transforma práticas em resultados
Uma das indústrias de maior impacto ambiental e líder desse segmento do varejo de moda no Brasil, a Lojas Renner S.A. decidiu, há mais de dez anos, colocar a sustentabilidade no centro dos valores corporativos para reverter a lógica do setor. Com objetivos estratégicos e resultados mensuráveis, a companhia vem impulsionando inovações do ponto de vista ambiental e social, promovendo a diversidade e a inclusão, e mantendo políticas de governança corporativa.
A estratégia é orientada por ciclos de compromissos. No primeiro (2018 a 2021), todas as metas foram superadas. O percentual de produtos de vestuário com menor impacto ambiental alcançou 81,3%, acima dos 80% do objetivo.
Também foram reduzidas em 35,4% as emissões corporativas de CO², passando a contar com 100% do consumo corporativo de energia proveniente de fontes renováveis de baixo impacto e com toda a cadeia de fornecimento de artigos têxteis certificada socio ambientalmente.
Loja aposta em tecidos com tratamento diferenciado dentro dos conceitos focados em logística reversa TÂNIA MEINERZ/JC
Na segunda etapa (2022 a 2030), a companhia assumiu 12 compromissos, desdobrados em três pilares: soluções climáticas e regenerativas; conexões que amplificam; e relações humanas e diversas. O período prevê a transição de todos os negócios para uma economia de baixo carbono, permitindo à companhia atingir a neutralidade climática (net zero de emissões) até 2050, alinhada ao Acordo de Paris.
Em 2024, a empresa alcançou uma redução de 60,9% nas emissões absolutas de gases de efeito estufa nos escopos 1 e 2 (emissões diretas da companhia ou relacionadas à geração, ou compra de energia), em relação ao inventário de 2019. O resultado fez a Renner superar a meta prevista de 46,2% até 2030 e avançar rumo ao compromisso de neutralidade climática até 2050, validado pela iniciativa internacional Science Based Targets (SBTi, em português, Metas Baseadas na Ciência).
Nas lojas físicas, desde 2021, todas as unidades novas ou reformadas adotam o modelo de ecoeficiência com base na circularidade, priorizando o menor consumo de água e energia, além da redução de resíduos e emissões. Essa abordagem é acompanhada por avanços tecnológicos, como o uso de inteligência artificial no desenvolvimento de coleções, reduzindo desperdício de matérias-primas.
Oito em cada 10 peças de vestuário vendidas têm atributos de sustentabilidade - ou seja, são confeccionadas com materiais como algodão certificado, viscose certificada e fio reciclado, ou utilizam processos como a redução no uso de água e componentes químicos. A meta é alcançar 100% até 2030. Para o mesmo período, a empresa irá incorporar os princípios da circularidade no desenvolvimento de todos os produtos, matérias-primas e serviços.
Atualmente, 100% dos fornecedores de vestuário, casa e decoração estão certificados com critérios socioambientais, e 50,5% dos fornecedores de revenda de moda atingiram alta desempenho em conformidade socioambiental.
"Este avanço é fundamental para nossa agenda de fornecimento responsável, promovendo práticas mais sustentáveis ao longo de toda a cadeia produtiva e assegurando resultados concretos na mitigação de impactos socioambientais", considera o diretor de Sustentabilidade da Lojas Renner, Eduardo Ferlauto.
Em relação ao pós-consumo, a Renner lançou, em 2014, o Jeans For Change da Youcom, que consiste na coleta de peças jeans usadas para dar origem a um novo produto com menor impacto ambiental. A partir dos materiais arrecadados no projeto, em 2020 foi lançada a primeira calça circular pós-consumo do País. Outro serviço focado em logística reversa é o EcoEstilo, que envia resíduos para reciclagem, desfibragem, reutilização ou doação. Apenas em 2024, foram destinadas corretamente 13,8 toneladas de roupas e 60,8 toneladas de frascos de beleza.
Outra iniciativa é o Guia de Moda Circular. Lançado em 2024 para nortear o desenvolvimento de seus produtos, o guia apresenta opções de materiais e processos com menor impacto, estratégias de design para redução de resíduos, reciclagem e aproveitamento de insumos existentes, design para durabilidade e adaptabilidade, e design para reciclabilidade.
Rede tem metas de equidade com foco no aumento em cargos de alta liderança
A presença feminina na alta liderança da Lojas Renner passou de 45% e atingiu 47,9%, enquanto a representatividade de pessoas negras em cargos de liderança subiu de 30,5% para 34,4% em 2024. Pessoas com deficiência passaram a representar 5,1% do quadro de colaboradores, evolução de 1,8 ponto percentual em relação ao ano anterior.
"Trabalhamos diariamente para seguir evoluindo na construção da cultura de diversidade, equidade e inclusão de outros grupos minorizados, como pessoas negras, LGBTQIAP e pessoas com deficiência", afirma Ferlauto.
Os avanços são creditados a programas estruturados de inclusão, como o Plural, lançado em 2020 e orienta a estratégia da Lojas Renner sobre o tema, com treinamentos e iniciativas de sensibilização contínuas em todas as áreas da companhia; e o Instituto Lojas Renner.
Direcionado ao desenvolvimento de comunidades e à geração de renda, capacitação e apoio ao empreendedorismo de mulheres no ecossistema da moda, o instituto já beneficiou mais de 460 mil pessoas.
Esse conjunto de práticas levou a Renner a ser reconhecida como a empresa brasileira mais bem colocada no ranking das 500 companhias mais sustentáveis do mundo, da Revista Time (2025). É a única do setor de moda nacional presente no Índice de Sustentabilidade Dow Jones nos últimos 10 anos. A companhia também foi incluída na cobiçada A-List do Carbon Disclosure Project, na categoria mudanças climáticas.
Mercur aposta na sustentabilidade como valor central
Com mais de 100 anos de história, a Mercur tem adotado uma abordagem estratégica em torno da sustentabilidade, indo além do que preveem as diretrizes de ESG. Para a empresa, práticas sustentáveis fazem parte do DNA organizacional e são tratadas como valor, não apenas investimento.
"Muito antes de a gente tratar essa pauta como ESG, para a Mercur já era valor entender qual era o seu impacto no mundo", afirma Fabiane Maison, facilitadora de direção da empresa. Uso de energia solar e captação de água da chuva, produção de borrachas escolares e bolsas térmicas com materiais renováveis, desenvolvimento de produtos com menor impacto ambiental, implantação de logística reversa, destinação correta de resíduos e equidade entre homens e mulheres na diretoria são algumas das iniciativas que se refletem em economia, redução do consumo de recursos naturais e melhor gestão da companhia.
Caroço de açaí é utilizado para a confecção de bolsas térmicas sustentáveis Mercur/Divulgação/JC
Hoje, o portfólio tem entre 1.000 e 1.200 SKUs (Stock Keeping Units), ou, em português, Unidades de Manutenção de Estoque. Com os lançamentos previstos para 2026, deve haver uma ampliação em torno de 20%. A indústria, que atua nas áreas da Saúde (representando 60% dos produtos) e Educação (com uma fatia de 40%), tem a peculiaridade de trabalhar com diferentes tecnologias e cadeias produtivas, como borracha, tecido e metal. Os produtos Mercur estão em canais como farmácias, ortopedias, papelarias, lojas de material escolar e de escritório. O desenvolvimento desses novos produtos está ligado à governança — o objetivo é investir para manter o crescimento econômico da empresa. Neste ano, a Mercur alterou suas práticas e ritos de governança, que passaram a contar com acompanhamentos estratégicos. A mudança coincidiu com a entrada da quarta geração da família nos processos e na liderança da empresa. Também foi elaborado um novo planejamento estratégico a partir da análise de tendências e, neste ano, foi criada uma área institucional e estratégica.
"Olhamos para o futuro da empresa, para o futuro dos segmentos em que a gente está inserido, a Saúde e a Educação. E, com base em tendências, entendemos qual era o nosso papel e definimos os objetivos estratégicos", conta Fabiane. A Mercur agrega o social ao ambiental. No projeto Borracha Nativa da Amazônia, que começou em 2010, a marca adquire o látex e estimula a capacitação dos produtores como forma de contribuir para a preservação das matas originárias e da cultura dos povos locais. A iniciativa envolve comunidades locais, gera renda e ajuda a preservar a floresta.
"Por mais que seja uma relação de fornecimento, o impacto social é imenso", afirma a executiva. Um dos resultados dessa parceria é a primeira borracha nativa da Amazônia, feita com látex 100% extraído de árvores nativas, lançada em 2024. A borracha de apagar, icônica para a Mercur, traz um QR code onde é possível conhecer o caminho da borracha até chegar ao consumidor. O produto visa conscientizar sobre a preservação da Amazônia e é composto por até 78% de matérias-primas renováveis. Na Saúde, a linha de bolsas térmicas de algodão orgânico tem, em seu interior, caroço de açaí, subproduto da produção do fruto. Pode ser aquecida ou resfriada e é produzida a partir de matéria-prima 100% renovável. Apesar do impacto positivo para a imagem da marca, os itens ainda são irrelevantes economicamente.
"Estes produtos são muito caros para nós, mas têm baixo retorno financeiro. Para ampliar, é preciso um consumo mais maduro. Às vezes, o consumidor quer fazer essa escolha, mas não consegue financeiramente", avalia Fabiane.
Empresa estimula melhorias na cadeia de fornecedores
Ao mesmo tempo em que apresenta novidades de menor impacto, a Mercur atua como influenciadora na cadeia de fornecedores, estimulando práticas como a compensação de carbono.
Após a decisão, em 2009, de diminuir drasticamente a emissão de gases de efeito estufa — quando foram lançadas 3.145 tCO₂e (toneladas de CO₂ equivalente) —, em 2025 a Mercur completa 10 anos como empresa carbono neutro, a partir de mudanças de processos e iniciativas como plantio de mudas e compra de créditos de carbono. A empresa adota práticas de governança para mensurar seus impactos, a fim de adotar medidas que mitiguem essas consequências, sejam ambientais ou sociais. Por meio de tecnologias e indicadores de desempenho, a indústria conecta toda a operação — do chão de fábrica à liderança —, otimizando processos e reforçando a cultura de responsabilidade.
"O operador tem seu próprio indicador, que se conecta ao objetivo global. Isso dá clareza e melhora o clima organizacional", explica Fabiane. Em relação à equidade, a empresa apresenta equilíbrio de gênero. Segundo a facilitadora, indicadores de governança relacionados à inclusão de negros devem avançar, mas pondera que a pauta ultrapassa o mundo corporativo: é preciso avançar como sociedade.
Nos últimos anos, a Mercur tem se dedicado a trazer a governança como forma de qualificar o negócio para se perpetuar. O mais sólido é o "E", de Environmental (Ambiental). "Mas sinto muita falta de um 'E' no ESG, de Econômico, porque é um negócio, precisa ser visto como negócio", considera, reforçando que a agenda ESG deixará de ser uma opção. Os negócios não terão mais como pautar decisões sem considerar os impactos gerados.
"A Terra já não está mais aguentando nossa intervenção. Não vejo isso como uma escolha, é uma certeza", afirma.
Transversalidade e inovação impulsionam práticas na Randoncorp
A Randoncorp vem promovendo avanços expressivos em sua agenda ESG ao integrar sustentabilidade, responsabilidade social e governança à estratégia do negócio.
"ESG não é um tema central, é transversal na companhia", conta o diretor de Pessoas e Cultura da companhia, Marcos Baptistucci. As metas são discutidas por um comitê multidisciplinar, que inclui áreas como finanças, compras, responsáveis por unidades e relações com investidores.
"Temos um modelo que integrou ESG na governança, o que garante perenidade", detalha. Acima de 80% da liderança já passou por mais de uma ou duas áreas da empresa. Segundo o executivo, essa vivência transversal garante empatia e facilita a construção coletiva. Um exemplo ilustra a importância da agenda no Grupo. Em recente reunião de diretoria, um importante investimento em ESG foi aprovado em menos de dois minutos pelo comitê executivo, e sem discussão. "Isso mostra que temos compromisso, a empresa entende seu valor como responsável pela sociedade, entende a sua contribuição com a sociedade", diz o executivo, que representa o Comitê Executivo junto à pauta de sustentabilidade da Randoncorp. Após aprovarem uma Política de Sustentabilidade em 2024, em 2025 o Grupo instituiu uma gerência na área. A pasta ficou a cargo da gerente de Saúde, Segurança e Meio Ambiente (SSMA) da Randoncorp, Luciane Sartori, que assumiu também a área de ESG. Agora, Luciane prepara o processo de reavaliação das metas para além de 2030.
Luciane conta que uma das metas é a de influenciar outras empresas Alex Battistel/Divulgação/JC
A busca por melhorias está alinhada ao propósito de gerar valor e influenciar outras empresas a reduzirem seus impactos ambientais e aumentarem a eficiência. São mais de R$ 212 milhões de receita oriunda de pesquisa, desenvolvimento e inovação baseada em critérios de ESG. Nos últimos cinco anos, 44,4% da receita líquida foram geradas por lançamentos de produtos.
"A cultura está disseminada em nossa engenharia, que faz o cálculo da pegada de carbono de toda alteração ou novo produto, selecionando matérias-primas do ponto de vista de emissões de gases de efeito estufa. Assim, cada lançamento tem um impacto positivo quando comparado ao processo anterior", detalha Luciane. A transversalidade da agenda ESG se reflete em inovações.
Entre os exemplos está o eixo elétrico e-Sys, utilizado por caminhões Volkswagen, que reduz até 25% o consumo de combustível. Outra inovação é o Concept Trailer, que, por meio do processo de fabricação e design, permite uma redução de uma tonelada no rodotrem basculante em comparação a modelo similar. Rodotrem é um veículo composto por um cavalo mecânico combinado a dois ou mais semirreboques. A Randon lançou ainda o AT4T - Autonomous Technology For Transportation (em português, Tecnologia Autônoma para Transporte), veículo autônomo para ambientes controlados com sistema de tração 100% elétrico.
Descarbonização e inclusão avançam
A Randoncorp investiu quase R$ 42 milhões em iniciativas de gestão ambiental. A meta é reduzir em 40% as emissões de gases de efeito estufa até 2030 (com base em 2020, quando emitia 2,72 kgCO₂e).
Em 2024, o índice de emissões foi de 1,91 kgCO₂e por tonelada produzida, o que coloca a companhia próxima de atingir sua meta seis anos antes do prazo. Entre os projetos de descarbonização, a Frasle Mobility desenvolveu, em 2024, o Caldeira Verde. Utilizando biomassa para gerar vapor, reduziu em 60% as emissões de gases de efeito estufa em processos produtivos da empresa — o equivalente a 10 mil toneladas de CO₂ por ano. Entre as empresas do Grupo, 70% dos veículos de movimentação interna são elétricos, incluindo, por exemplo, empilhadeiras. A circularidade é outro foco. Hoje, 90% dos resíduos da empresa têm destino reaproveitável, e há parcerias para reinserção de materiais no processo produtivo, como a realizada com a Gerdau para o reaproveitamento de sucata metálica. Outro resíduo, a areia de fundição, vem sendo reutilizada na pavimentação asfáltica em parceria com a Pedreira Caxiense, do Grupo Fagundes, de Caxias do Sul.
Já a meta de reutilizar 100% do efluente tratado deverá ser atingida até o fim de 2025, com a conclusão de uma rede de interligação entre unidades e a estação de tratamento. A cultura organizacional também reflete o compromisso com o social. A meta de dobrar a presença feminina em cargos de liderança até 2025 está em curso: passou de 11% em 2020 para 20% em 2024 (excluindo aquisições). A companhia tem programas de desenvolvimento de talentos como o Jornada Delas, que incentiva a liderança feminina, e o Leading the Future, aberto ao público e com foco em ESG.
Com cerca de 19 mil colaboradores, a Randoncorp conta com um sistema próprio de saúde, centros médicos nas unidades e iniciativas voltadas à saúde mental e segurança psicológica. No eixo social, criou o programa Qualificar, voltado à formação para o primeiro emprego. Já o Instituto Elisabetha Randon desenvolve o Florescer, que atua na educação de crianças.
O impacto positivo da agenda ESG vai além dos muros da empresa. A Randoncorp foi a primeira companhia brasileira a receber um financiamento de US$ 100 milhões do IFC, braço do Banco Mundial, destinado exclusivamente a projetos com metas ambientais. A cada dois anos, os resultados são auditados, com benefícios em taxas de juros conforme o desempenho. Os resultados reforçam a atratividade da empresa junto a investidores e clientes.
"Somos chamados proativamente pelos clientes para projetos ESG. Isso nos dá prioridade em diversas iniciativas", conta Baptistucci.
*Karen Viscardi é formada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica (Pucrs). Atuou como editora no Jornal Zero Hora, e como editora e repórter no Jornal do Comércio.
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