A criação do chamado Conselho da Paz, anunciada por Donald Trump, é menos uma iniciativa diplomática e mais uma tentativa de demonstração de poder. Ao propor um mecanismo internacional paralelo, Trump tenta contornar décadas de construção institucional do multilateralismo, criando um espaço no qual as regras não o constrangem, e no qual ele próprio dá as cartas.
Para o Brasil, o movimento coloca Lula em uma situação complexa. Aceitar o convite de Trump significa legitimar uma arquitetura alternativa que esvazia a ONU e outros organismos que o governo brasileiro historicamente defende. Recusar, por outro lado, pode custar capital diplomático num momento em que a boa vontade do presidente americano tem sido explicitada.
Não por acaso, o tema ganhou tração nas redes. Nos mais de 100 mil grupos de WhatsApp e Telegram analisados em tempo real pela Palver, mais de 70% das mensagens são de apoio à iniciativa de Trump, considerando apenas quem expressou opinião explícita sobre o tema.
Esse dilema externo se soma ao risco de interferência política internacional no processo eleitoral brasileiro. Nas redes monitoradas, cerca de 40% das mensagens que conectam Trump ao Brasil mencionam eleições, quase sempre em tom de alerta ou desconfiança. Uma indisposição com Trump nesse momento pode significar um aumento desse receio, tirando o foco da política nacional e criando um elemento adicional de preocupação.
No campo da direita, a reorganização é visível. Com Jair Bolsonaro fora do jogo, Flávio Bolsonaro aparece como o grande nome, mas sem unanimidade. Tarcísio de Freitas, apesar de reafirmar a candidatura à reeleição em São Paulo, é pressionado a assumir o papel de representante da direita. O vídeo de apoio de Tarcísio à caminhada convocada por Nikolas Ferreira foi lido como gesto ambíguo, em que, apesar de não falar como candidato, sinaliza alinhamento com a base mobilizada.
A chamada "caminhada pela liberdade" promovida pelo deputado federal Nikolas Ferreira e outros nomes da direita ajuda a entender o momento. Os dados da Palver mostram que o evento não explodiu nas redes. Aproximadamente 35% das menções foram favoráveis, enquanto 45% foram críticas, com o restante neutro. Ainda assim, o ponto não é volume, mas qualidade da mobilização. Nikolas conseguiu ativar um público que não depende exclusivamente do bolsonarismo, projetando-se como vetor de rua e de imaginação política.
O outro eixo que atravessa todo o debate é o caso Banco Master. A cada nova revelação, o assunto se mantém no topo da agenda digital. As menções ao banco cresceram mais de 60% em janeiro, impulsionadas por reportagens envolvendo o ministro Dias Toffoli e o patrimônio de familiares. Nos grupos analisados pela Palver, cerca de 70% das menções a Toffoli têm tom negativo, com termos como "conflito de interesses", "blindagem" e "família" dominando a conversa.
Nesse cenário, Lula aparece menos como protagonista e mais como um representante institucional. A associação entre governo e Supremo é explorada nas redes, onde quase metade das mensagens que citam STF também mencionam o Planalto, geralmente para sugerir proteção mútua. É a lógica do sistema contra o antissistema, reforçada por cada ruído institucional.
O fio que costura Trump, STF, rua e eleições é a erosão da confiança. Com o atual contexto da política institucional favorecendo o discurso antissistema, as instituições deixam de exercer o papel de origem e passam a ser entendidas como participantes da disputa eleitoral. As decisões que o STF, por ser o caso mais em evidência, tomará nos próximos meses como instituição podem tanto aprofundar a crise de confiança institucional no país, ou responder aos anseios da população e criar mecanismos de controle mais eficazes, tirando a organização do debate eleitoral.

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2 horas atrás
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