7 horas atrás 6

Fui criminalizada por ser amiga do filho do presidente Lula, diz empresária

Uma viagem mágica, de sonhos, ao lado das filhas e de amigos com passeios na neve, visita ao Papai Noel na Lapônia e imagens espetaculares da aurora boreal. É assim que a empresária Roberta Luchsinger, 41, resume o passeio de cinco dias pela Finlândia, em janeiro de 2025, na companhia de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, a mulher dele, Renata, e filhos. A mesma viagem que ganhou manchetes como "Lulinha foi à Finlândia bancado por lobista em hotel com diária de R$ 37 mil".

As despesas de viagem, as contas bancárias, os contratos e até o closet de Roberta, repleto de bolsas e roupas de grife, viraram objeto de investigação da Operação Sem Desconto, que apura suspeitas de desvios no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

"Desde dezembro, sou criminalizada, julgada e ameaçada de todas as formas por ser amiga do filho do presidente Lula", diz a herdeira de um ex-acionista do antigo banco Credit Suisse, ao reafirmar laços com Fábio e a mulher dele, Renata. "Minha melhor amiga."

Amizade sacramentada com a mesma tatuagem de um R da inicial do nome de ambas no pulso esquerdo e em memórias registradas em inúmeras fotos do casal que Roberta mostra no iPad.

Uma delas foi parar em um porta-retrato de madrepérola na estante da suíte master do apartamento da empresária em um bairro nobre de São Paulo, alvo de mandado de busca e apreensão cumprido pela Polícia Federal em 18 de dezembro do ano passado.

Com o aposto de "amiga do Lulinha", Roberta se viu no epicentro do inquérito que apura a aproximação entre o filho do presidente e o empresário Antônio Camilo, que ganhou notoriedade sob a alcunha de "Careca do INSS".

Em depoimento à PF em 20 de maio, a empresária confirmou que os apresentou, mas classificou o ato como um gesto de "boa educação". "Jamais apresentei os dois com intuito de negócio. Tanto que eles nunca tiveram transações comerciais."

Aproximação que ocorreu, segundo ela, quando não havia nada que desabonasse a conduta de Camilo. "Ele virou o Careca do INSS depois da CPMI [Comissão Parlamentar Mista de Inquérito], quando colocaram esse apelido. Até então era uma figura ilesa."

A empresária diz que firmou contrato com o então ex-executivo de sucesso da indústria farmacêutica. Uma consultoria de R$ 300 mil mensais, totalizando R$ 1,5 milhão em pagamentos ao longo de cinco meses.

"Quando meus advogados levantaram os antecedentes do Antônio e da empresa dele para assinarmos o contrato, não havia um único processo", diz. Após as denúncias sobre desvios no INSS, decidiu fazer o distrato.

Quanto às suspeitas que pairam sobre a contratação de sua empresa, a RL Consultoria, Roberta diz que sua atuação foi técnica. "A polícia chegou a colocar no inquérito que eu queria vender canabidiol para o Ministério da Saúde. Isso jamais existiu, até porque não havia produto nem regulamentação."

A lista de suspeições foi crescendo a partir de "vazamentos seletivos" e uso político do caso, critica Roberta.

"Em ano eleitoral e num país tão dividido, o fato de eu expressar minhas opiniões políticas em rede social acabou dando munição para criar narrativas e ilações."

Roberta diz ter comprovado que não bancou a tal viagem à Finlândia, organizada pela agência de turismo de luxo da amiga Marina Mantega, filha do ex-ministro Guido Mantega.

Reafirma não ser sócia nem ter feito transferências a Lulinha, conforme quebra de sigilo fiscal e bancário de ambos.

Vestida com um conjunto de calça e blusa de seda e scarpin Valentino, ela recebeu a Folha no apartamento decorado com requinte. Mostrou o armário central do closet danificado pelos agentes durante a operação da PF.

"Estava em Brasília, quando minha funcionária me ligou apavorada. Minha filha pequena estava dormindo e ficou nervosa", relata ela, sobre a caçula de 14 anos, fruto do relacionamento com o ex-deputado Protógenes Queiroz.

Segundo relato da empregada, o delegado que chefiou a operação foi educado e profissional, enquanto um dos agentes teria cometido excessos como se referir a Roberta usando termos chulos e intimidar a funcionária ao vasculhar gavetas e armários.

Os fatos foram relatados ao ministro André Mendonça, relator do caso no STF (Supremo Tribunal Federal). "Fizemos representação sobre estes excessos", diz Bruno Salles, advogado da empresária. "O ministro sempre foi muito técnico."

A expectativa da defesa dos dois investigados é de que a Procuradoria-Geral da República não apresentará denúncia. "Do ponto de vista jurídico, o arquivamento é necessário pela inexistência de crime. A tese acusatória de que a Roberta receberia valores para repassar ao Fábio sem prestação de serviços foi desmontada", completa o criminalista.

A seguir os principais trechos da entrevista em que Roberta apresenta detalhes de sua relação com Lulinha e da atuação como consultora. Ela lamenta o tom preconceituoso sobre o seu estilo de vida e posicionamentos, bem como o "carnaval midiático" em torno de suas relações pessoais.

A minha amizade com Fábio e Renata é de verdade, forte. Independe de o pai dele estar ou não presidente. Sou aquela amiga das horas boas e ruins. De quando o presidente Lula estava preso.

Hoje eles estão morando em Madri, e sinto muita falta. Nos falamos diariamente. Costumamos passar juntos Natal, Ano Novo, feriados. Sempre viajamos. Já fomos à Disney.

Uma dessas viagens, à Finlândia, virou alvo de crítica. Falam que eu teria custeado tudo. Sou metódica na organização de hotel, avião, restaurantes, passeios. Comprei passagem, paguei hotel. Depois a gente se acertou. Paguei essas despesas, e eles, outras. Tudo demonstrado de forma clara para a polícia.

Abri 20 anos da minha vida financeira e fiscal. O Fábio também. Sem que nenhuma irregularidade fosse constatada.

VIAGEM LUXUOSA

Por que ficamos no Octola? Porque é o único hotel de lá. As pessoas falam sem saber. Quem conhece esse tipo de passeio sabe que fica no meio do nada. Não dá para sair para restaurante, museu. Na verdade, é uma casa com serviços de hotelaria.

Você está no Círculo Polar Ártico para ver a aurora boreal, em um parque gigantesco que só tem neve. Colocaram nos jornais como turismo de altíssimo luxo. É o oposto disso. É turismo de natureza, não de ostentação.

Foram cinco dias, all inclusive, com passeios, guias e roupas de proteção, com diárias de € 3.000 (R$ 17.730) por pessoa. Não teve essa história que Antônio pagou a viagem do Fábio. Sempre viajei, inclusive para hotéis verdadeiramente de luxo, e jamais qualquer pessoa pagou para mim ou para amigo meu. Trabalho e uso o meu dinheiro com coisas que me dão prazer.

MARINA MANTEGA

Marina é minha amiga há mais de 20 anos. É uma grande influencer de turismo de luxo. A mídia criou um grande carnaval pelo fato de ela ser filha de um ex-ministro.

MACHISMO

Fui colocada como amante do Fábio, depois como amante da esposa do Fábio. Virei namorada de uns três ministros. Não fazem isso com homem. Para mulher ter sucesso, ela tem que estar na sombra de alguém.

Gosto de me cuidar, de me vestir bem. Na cabeça de alguns, isso me impede de ser inteligente, profissional.

Se você é vaidosa é vista como madame, burra. E só pode ter contratos porque é amiga, filha, neta ou mulher de alguém. Usaram todos esses predicados contra mim. Estou vindo a público porque não quero que fique essa vulgarização da minha imagem.

CARECA DO INSS

Eu não conheci o Careca do INSS, essa figura tão folclórica desse imbróglio. Conheci o Antônio Camilo, empresário de sucesso no setor farmacêutico.

Prestei uma consultoria para ele na área da saúde, diante da necessidade de atualização das duas RDCs da Anvisa [Resoluções da Diretoria Colegiada, normas técnicas editadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária]. Uma era a 327, de 2019, que regulamentava os produtos a base de cannabis medicinal, e a outra, a 660 de 2022, que dita regras para importação dos medicamentos.

A indústria de canabidiol é gigante no mundo. Meu trabalho era buscar a regulação desse mercado no Brasil, o que aconteceu de fato em 2026. Com uma nova RDC, esse mercado deixou de ser de exceção judicial e se transformou em uma política sanitária regulada e industrializada.

Apresentei Antônio ao Fábio em um contexto social. Jamais no intuito de negócio. Eu não fui com os dois para Portugal, onde o Antônio estava prospectando o mercado de canabidiol. Eles já falaram publicamente sobre o fato. Meu contrato não previa comercialização, nada disso.

Eu não sabia de nenhum envolvimento de Antônio com o INSS. O delegado não sabia, os jornalistas não sabiam. Quando soube pela mídia, achei melhor terminar o contrato.

Foram aparecendo conversas de forma aleatória, como a que cita o "filho do rapaz". São factoides. Tem gente que fala que eu não prestei o serviço, só recebi o dinheiro. Mostrei um serviço prestado, com relatórios técnicos e jurídicos.

CONSULTORA OU LOBISTA

O meu produto não é acesso, é o meu conhecimento sobre o sistema regulatório. Eu tenho uma empresa de consultoria especializada na área da saúde, em tecnologia e produtos inovadores.

Desenvolvi vários projetos grandes para empresas com o setor público em estados como Tocantins, Goiás e São Paulo. Sou contratada por clientes privados para cuidar de toda a parte de relação institucional.

BUSCA E APREENSÃO

Eles reviraram tudo. Queriam arrombar o cofre. Não tinha necessidade. Eu ofereci todas as senhas. Pegaram documentos e até joias de família, que não tinham nada a ver com a investigação.

Prestei todo o apoio, os meus advogados vieram auxiliar. Os agentes tiveram acesso a tudo. Quem não deve não teme.

No closet, exibiram e faziam piadas com minhas peças íntimas, coisas sem conexão com a operação. Era desnecessário jogar tudo no chão.

FÉ NA JUSTIÇA

Vou continuar acreditando na Justiça. Esse processo é desgastante, invasivo, mas tenho a verdade comigo. Já deixamos muito claro que eu não tenho absolutamente nada com o INSS.

Por causa dessa narrativa que criaram, minha vida é receber agressão, mensagens horríveis. Teve um uso político muito forte.

Entramos com duas representações. Uma contra o senador Carlos Viana (Podemos-MG), presidente da CPMI do INSS, e outra contra o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), que divulgaram inverdades e ofensas à minha honra. Imunidade parlamentar não é salvo-conduto para discurso de ódio e misoginia.

Estou pedindo que retirem o conteúdo ofensivo das redes sociais e uma indenização que vou doar para entidade de defesa das mulheres.

Sempre estive à disposição da polícia e do STF para prestar esclarecimento. E o Fábio também. Não posso ficar com esse manto de criminalização em cima de mim por ser amiga de alguém.

DE ESQUERDA

Sempre me posicionei como de esquerda. Quero que as pessoas tenham acesso à educação e saúde de qualidade. A pessoa não precisa gostar ou odiar o Lula ou o Bolsonaro. As pessoas têm que ter consciência social antes de idolatrar político. A polarização emburrece.

USO POLÍTICO

A gente já assistiu o Lulinha ser apontado como dono da Friboi, de fazendas, de Ferrari de ouro, de avião de milhões. São histórias criadas para uso político.

Colocam como se fôssemos nós da esquerda agindo de maneira ilegal, mas o engraçado é que os atuais escândalos de corrupção não são com filho do Lula.

Algumas das pessoas que acusam a mim e ao Fábio são justamente aquelas que de fato recebiam mesada de banqueiro preso.


Raio-X | Roberta Moreira Luchsinger, 41

É neta e herdeira de Peter Paul Arnold Luchsinger, um dos ex-acionistas do banco Credit Suisse. Graduada em direito, atua como consultora na área de saúde e foi casada com o ex-delegado Protógenes Queiroz. Já foi filiada ao PC do B e se lançou candidata a deputada estadual pelo PT em São Paulo em 2018, mas não se elegeu. Em 2017, durante a Operação Lava Jato, anunciou a intenção de doar cerca de R$ 500 mil em dinheiro, joias e bens de luxo a Lula após o bloqueio judicial de contas do petista

LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Leia o artigo inteiro

Do Twitter

Comentários

Aproveite ao máximo as notícias fazendo login
Entrar Registro