O pré-candidato ao governo do Estado pelo PSDB, o prefeito de Guaíba Marcelo Maranata, acredita que o governador do Rio Grande do Sul deve viajar a Brasília, pelo menos, uma vez por mês para articulações junto ao Congresso Nacional e ao governo federal. Independentemente de quem seja o presidente.
O prefeito de Guaíba avalia também que as articulações em Brasília são necessárias não só para a renegociação da dívida com a União, cujas parcelas mensais voltam a ser cobradas em 2027, mas também para atrair novos investimentos ao Ri Grande do Sul. Por exemplo, um pólo farmacêutico.
"Não importa se o presidente é da direita ou da esquerda. Não tem outro jeito de o Rio Grande do Sul voltar a crescer, além da sensibilidade do governo federal em trazer indústrias para cá, em a gente mostrar o nosso potencial, em a gente renegociar dívida", pondera.
Além disso, nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Maranata comenta alguns dos investimentos recebidos pela sua cidade Guaíba. Em especial, o complexo aeronáutico de Guaíba e a ampliação da estrutura da Toyota. Ele também acredita que o PSDB, que também conta com a pré-candidatura de Paula Mascarenhas, deve escolher o candidato através dos méritos de cada nome e através da análise do cenário eleitoral.
Jornal do Comércio – Como estão as obras do complexo aeronáutico da Aerociti em Guaíba?
Marcelo Maranata - Começam agora em dezembro. Antes de eu assumir a prefeitura de Guaíba, a Aerociti tinha decidido sair do Rio Grande do Sul. Ao assumir, pedi para a empresa um prazo para agilizar algumas demandas deles. Primeiro, mudamos a legislação municipal para que essa unidade pudesse ficar na cidade, demos as garantias para a empresa e fizemos a interlocução com o poder público. Na época, a área (onde a empresa se instalou) era destinada exclusivamente ao setor automobilístico. Por isso, articulamos a transformação daquele local em uma área de logística, no geral. Depois, acompanhamos os diretores da empresa nas reuniões com o governo do Estado, governo federal e Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). O resultado foi a autorização da pista de pouso, as licenças etc.
JC – E a fabricação das Aeronaves?
Maranata – A primeira proposta foi trazer (a estrutura para fabricar) a (Diamond) DA62 para Guaíba, que é a aeronave mais vendida do Brasil. São 120 aeronaves já vendidas. Com isso, veio um cluster da aviação, que envolve universidades, centro de tecnologia, pesquisa e inovação, a pista de pouso autorizada pela Anac e o Aeródromo Roberto da Cunha, que segue a mesma orientação do Aeroporto Salgado Filho. A princípio, o aeródromo teria apenas uma pista para as aeronaves fazerem manutenção, mas, com o problema do Salgado Filho (decorrente da enchente), surgiu a necessidade de um aeroporto de cargas...
JC – Essa é o próximo objetivo da prefeitura de Guaíba?
Maranata – A gente vai para essa segunda iniciativa junto ao governo federal. Queremos em Guaíba uma pista ampliada, podendo ser um novo aeroporto de cargas no Rio Grande do Sul ou uma espécie de backup para o Aertoporto Salgado Filho em caso de acidente ou outra necessidade (nas pistas de Porto Alegre). No momento, estamos fazendo essa costura com mais de 200 empresas envolvidas no projeto. Durante as tratativas, surgiu a (montadora italiana) Leonardo Helicopters, que vai montar helicópteros na cidade.
JC – Já existe um cronograma para a entrega das primeiras aeronaves?
Maranata - A ideia é que a primeira aeronave seja entregue em 2028. O prazo foi adiado um ano por conta das enchentes.
JC – A Toyota pretendia ampliar a sua planta em Guaíba e fabricar dois modelos de carros que, hoje, são produzidos na Argentina. Como está a ampliação?
Maranata – A Toyota tem acionistas no mundo inteiro. Então, eles mantêm tudo em sigiloso. De qualquer forma, saiu um pedido para o governo do Estado mudar a CNAE (Classificação Nacional de Atividades Econômicas). Ou seja, a Toyota, cuja instalação está classificada como centro de distribuição, já pediu a mudança de atividade. Uma das promessas deles era a chegada da Hiace neste ano. E a Hiace, que é uma concorrente da Van de 16 lugares, está aí. Toda a Toyota comercializada no Brasil hoje, sai como se tivesse sido fabricada em Guaíba, porque ela nacionaliza os veículos na cidade e vende para o Brasil inteiro. Com esse problema que teve na Toyota em São Paulo, que destelhou a fábrica, hoje a principal entrega da Toyota no Brasil acontece em Guaíba.
JC – Mudou alguma coisa por causa da guerra tarifária deflaragrada pelo presidente dos Estados Unidos Donald Trump?
Maranata – Teve no ano passado. A Toyota tem operação em Guaíba, Sorocaba e São Paulo. Então, a empresa convidou os prefeitos das três cidades para uma ida à Brasília, em busca de uma competição mais leal. Afinal, a Toyota já precisa fazer um esforço muito grande por causa dos estímulos que o setor automobilístico recebe no Nordeste (com crédito subsidiado, por exemplo). Fui o único prefeito que acompanhou os representantes da Toyota em todos os gabinetes parlamentares. Conseguimos convencer os deputados de que algumas movimentações da Reforma Tributária prejudicariam a operação no Rio Grande do Sul. Por isso, eles começaram a trazer a Hiace para Guaíba e têm a intenção de ampliar a planta.
JC – Quais eram as questões envolvendo a Reforma Tributária?
Maranata - Foram benefícios que iam acabar com a Reforma Tributária, dando mais vantagens ainda para o Nordeste, principalmente para a fábrica da Fiat, que fabrica um (veículo) concorrente (da Toyota). Só com os estímulos que eles recebem, a Toyota já tem que fazer um esforço de quase R$ 20 mil em cada carro. Então, você tem que mostrar uma eficiência muito grande, porque o carro já sai de lá mais barato sem ter nenhuma tecnologia a mais.
JC – Guaíba estava negociando com o governo federal para a instalação de uma agência aduaneira na cidade, que agilizaria os trâmites da Toyota e outras empresas multinacionais instaladas no município. A agência sai até o final do ano ou fica para 2026?
Maranata – Já está no processo de licitação...
JC - A ideia é sair em 2026?
Maranata – Eu gostaria que saísse esse ano. Se tudo acontecer como está dizendo o governo, vai sair esse ano ainda. E isso facilitaria o processo (de nacionalização de veículos trazidos de outros países). Imagina você não ter mais que parar na fronteira, entrar tudo aqui dentro, fazer todos os trâmites no mesmo pátio. Isso não só viabiliza a transação, como também dá mais segurança, agilidade e competitividade para o Estado. Não só para a Toyota, mas para todos os players que quiserem investir nessa mesma área no Rio Grande do Sul.
JC – O projeto da Lei Orçamentária Anual (LOA) enviado à Assembleia Legislativa prevê R$ 3,8 bilhões de déficit para 2026. Como enxerga essa projeção?
Maranata - Existe um desarranjo financeiro difícil de tratar no governo do Estado. Alguns compromissos assumidos pelo governo, bem importantes para os próximos anos, envolvem pagar os índices constitucionais da educação e da saúde (que preveem investimentos mínimos de 25% e 12%, respectivamente). Então, o governo foi assumindo compromissos que culminaram nesse déficit. Para aprovar esse orçamento na Assembleia, teria que apresentar onde vai fazer os cortes, porque o Estado precisa fazer cortes. Não tem como apresentar um rombo desse tamanho, sem apresentar de onde você vai retirar os recursos para isso.
JC – Uma das críticas que se faz ao governo Eduardo Leite é que, ao mesmo tempo que ele enviou um orçamento com déficit, também esgotou as possibilidades de receitas extraordinárias...
Maranata – O Estado privatizou a Corsan, a CEEE, as estradas. Só ficou o Banrisul. E aí você tem um déficit enorme desses? De onde vai tirar essa receita? Então, o governo precisa fazer cortes no orçamento. A sociedade precisa enxergar que estamos virando um Estado endividado.
JC – Em 2027, o Rio Grande do Sul deve voltar a pagar a dívida com a União...
Maranata - O recurso do Funrigs (fundo formado pelas parcelas da dívida que estão suspensas) vai acabar no início do próximo governo, quando voltaremos a pagar a dívida. Além disso, o Estado tem uma dívida previdenciária enorme, visto que a população está envelhecendo. No Brasil, existem 80 idosos para cada 100 crianças que nascem. No Rio Grande do Sul, essa proporção é de 114 idosos para 100 crianças. Então, você tem aqui um envelhecimento da população, o que requer mais serviços, necessita mais do Estado. E o Estado está com esse déficit.
JC - O senhor mencionou a volta da dívida em 2027. Vai ser necessário uma nova negociação com a União?
Maranata – O governador do Estado deve ir a Brasília todos os meses. Deve se encontrar com o presidente da República uma vez por mês.
JC - Independente de quem seja?
Maranata - Independente de quem seja. O meu partido é o Rio Grande do Sul. O governador de um Estado como o nosso, onde a máquina ficou pesada, precisa sentar todo mês com o presidente da República. Não importa se o presidente é da direita ou da esquerda. Não tem outro jeito de o Rio Grande do Sul voltar a crescer, além da sensibilidade do governo federal em trazer indústrias para cá, em a gente mostrar o nosso potencial, em a gente renegociar dívida, mas ir mostrando também que a gente está fazendo o tema de casa. Desse modo, o Tesouro olha para cá com outros olhos: "eles fizeram cortes, apresentaram um caminho". Uma das indústrias que tenho brigado para tentar trazer ao Rio Grande do Sul é a indústria farmacêutica.
JC – O PSDB é o único partido, até agora, com duas pré-candidaturas ao governo do Estado: a do senhor e a da atual presidente estadual da sigla, Paula Mascarenhas. Como enxerga isso?
Maranata – A Paula é a nossa presidente do partido, também faz parte da Executiva Nacional. Fui muito bem acolhido pelo presidente nacional do PSDB, Marconi Perillo, e também o possível futuro presidente Aécio Neves em Brasília. Além disso, fui muito bem recebido pelos prefeitos e vereadores do partido. O nosso presidente da Câmara Municipal de Porto Alegre, vereador Moisés Barboza, que esteve comigo lá em Brasília. Então, isso me dá segurança, me dá as garantias que eu preciso. Recebi o convite das lideranças para colocar o meu nome à disposição de um projeto do PSDB ao governo do Rio Grande do Sul. É o PSDB da ex-governadora Yeda Crusius (PSDB, 2007-2010) e dos 308 vereadores gaúchos.
JC – Como enxerga a saída do governador Eduardo Leite do PSDB?
Maranata - Alguns prefeitos saíram (do PSDB) por conta do projeto do governador, que ia concorrer à presidência da República. Acredito que ele está tentando, e tem méritos para isso. É um governador que fez muito pelo PSDB no Estado, veio da cidade de Pelotas, que já foi uma grande potência e que vive as mesmas angústias da Região Metropolitana. Eu me sinto bem à vontade para fazer essa empreitada junto ao partido...
JC – Como o senhor gostaria que fosse feita a escolha do candidato do PSDB?
Maranata - O processo interno dentro do partido, para que tenhamos uma única candidatura, deve ir se depurando nos próximos dias. Acho que esse é o caminho do PSDB. Nós vamos indo, fazendo avaliação, avaliando o cenário, olhando a musculatura de cada um, o trabalho de cada um dentro do partido e chegará um momento em que o PSDB vai apresentar uma candidatura só. Se eu for escolhido para isso, se a gente tiver a maioria dentro do partido, eu vou estar aqui com todo esse empenho, com essa garra, com essa energia, disposto a caminhar por todo o Estado.
JC – O senhor gostaria que a escolha do candidato fosse feita através de uma eleição interna ou através de negociações?
Maranata – Creio que as pesquisas vão ir apresentando isso. A gente internamente vai avaliando a desenvoltura do candidato, as propostas que ele tem. Ao natural, vai chegar um momento em que o partido vai tomar a decisão.
JC – Quem o senhor visualiza como possíveis aliados do PSDB na disputa eleitoral de 2026?
Maranata – Assim que passarmos dessa etapa agora (da escolha do candidato), poderemos conversar com os partidos que já estão se aproximando da gente. Já tem uma conversa avançada com Solidariedade, o PRD, o Podemos e o PSB. Então, além de estarmos sendo procurados, pretendemos atuar dentro de um campo político onde consigamos deixar as vaidades de lado e apresentar um projeto para o Rio Grande do Sul. Esse processo deve acontecer nos próximos meses. Além disso, teremos mudanças no cenário nacional, até porque temos conversado com lideranças para que o partido tenha um projeto nacional também.

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