O ritmo de crescimento da Intenção de Consumo das Famílias (ICF) registrou, em junho, a sua expansão mais modesta desde o início da trajetória de alta, em novembro passado, com avanço de apenas 0,1% após o desconto dos efeitos sazonais. De acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), embora o indicador geral tenha alcançado 105,5 pontos, o avanço generalizado da confiança foi freado por uma crescente cautela em relação ao futuro do emprego. A perspectiva profissional teve sua segunda queda mensal consecutiva (-0,2%) e manteve a retração frente ao ano passado (-6,3%), captando os impactos de ligeiros incrementos na taxa de desocupação nos últimos três meses.
Esse recuo nas expectativas contrasta com a realidade atual do mercado de trabalho, que permanece em patamar historicamente favorável, com baixa desocupação geral e avanço nos rendimentos. O componente de emprego atual obteve um avanço singelo de 0,2% no mês e sustentou a variação positiva de 1,8% na comparação anual. A maior parte das famílias brasileiras (42,2%) ainda percebe um momento mais seguro para o trabalho, evidenciando que o receio está concentrado no médio prazo, e não no cenário presente.
A prudência com o futuro profissional, somada a um ambiente econômico de juros elevados, faz com que o nível de consumo atual permaneça abaixo da linha de satisfação de 100 pontos, aos 92,8 pontos. Apesar disso, as decisões futuras tendem a ser gradualmente destravadas. A perspectiva de consumo para os próximos meses intensificou seu ganho mensal ao avançar 0,5% e manteve crescimento de 2,9% em relação ao ano passado. Este otimismo é amparado pela melhora de fatores essenciais, como a desinflação e a expectativa de continuação da redução da taxa Selic.
O grande motor do comércio no momento tem sido o alívio de preços focado em bens de maior valor agregado. Em maio, o grupo de bens duráveis registrou deflação de 0,08%, contra uma alta de 0,58% do IPCA geral. No acumulado de 12 meses, a diferença é ainda maior: inflação de apenas 0,78% para esse segmento contra 4,72% do indicador oficial. Esse cenário permitiu que o momento para compra de bens duráveis saltasse 1,2% na comparação mensal e expressivos 20,3% em relação a junho do ano anterior, liderando as decisões de compra das famílias.
"O consumidor percebeu uma janela de oportunidade com a deflação de alguns bens duráveis observada ao longo dos meses, chegando a um patamar mais confortável do que os 4,72% do IPCA geral. Esse segmento de maior valor agregado é historicamente o mais exposto às oscilações do câmbio e ao preço de commodities vitais, como o petróleo, que sofreu forte instabilidade recente devido ao conflito internacional. Embora o Brent tenha dado trégua em junho, o rastro dessa volatilidade externa ainda ecoa na tomada de decisão das famílias", avalia Fabio Bentes, economista-chefe da CNC.

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