2 horas atrás 3

Interferência estrangeira nas eleições do Brasil é preocupante, alerta entidade intergovernamental

A possível interferência estrangeira nas eleições do Brasil neste ano é uma preocupação, dadas as tentativas dos Estados Unidos de influenciar pleitos na América Latina nos últimos meses. Esse é o alerta da chilena Marcela Rios Tobar, 59, diretora para América Latina no Instituto Internacional para Democracia e Assistência Eleitoral (International Idea).

"Temos visto tentativas ativas dos Estados Unidos de ter um papel nas eleições na América Latina. Então é possível que tenhamos tentativas tanto dessa potência como de outras dispostas a financiar campanhas e a promover desinformação", diz em entrevista à Folha Rios, que está no Brasil para participar nesta terça-feira (17) de um evento da União Europeia sobre combate à desinformação.

Quais são suas principais preocupações em relação ao processo eleitoral do Brasil neste ano?
O Brasil chega às eleições de 2026 mais bem preparado do que na eleição de 2022. Em particular pelo papel muito proativo que o Tribunal Superior Eleitoral assumiu em defesa da democracia. Ao mesmo tempo, os desafios se multiplicaram em quatro anos, com mudanças na contaminação informativa e a IA, aumentando a complexidade e a massividade da desinformação.

O Brasil tem sido um exemplo global de como um país conseguiu defender sua democracia e suas instituições. Apesar de muitos ataques, apesar de muita polarização, o Estado e as instituições mostraram que são mais fortes que em outros países. Mas há muita desconfiança por parte dos cidadãos em relação aos processos eleitorais, aos partidos, às instituições. E esses altos níveis de desconfiança fazem com que as pessoas estejam mais propensas a acreditar em mentiras.

O cenário de moderação de conteúdo nas redes sociais está muito diferente, porque as plataformas de internet mudaram suas políticas, estão com uma estratégia de moderar o mínimo possível. Isso é uma preocupação?
É uma grande preocupação. O Brasil está na vanguarda da regulação do uso de inteligência artificial e do combate à desinformação. Não há nenhum país na América Latina, e na verdade no mundo, que tenha uma legislação tão avançada nesse sentido. A nova resolução e o papel do TSE serão postos à prova nesta eleição. Vamos ver se há capacidade do Estado brasileiro de aplicar as normas que estão no papel.

Sim, as políticas [de moderação] das plataformas involuíram, estão numa postura de "hands off", só agindo em casos muito extremos. Isso torna o trabalho dos Estados muito mais difícil. Além disso, nos preocupa muitíssimo a desinformação que circula nas redes privadas, como WhatsApp, Messenger, Signal, Telegram. As pessoas compartilham massivamente desinformação por mensagens privadas.

Mas não devemos pensar que desinformação determina de maneira direta as preferências eleitorais. Não basta a oferta de fake news, de fazendas de trolls, de contas falsas. É preciso ter demanda, é preciso que os cidadãos estejam propensos a acreditar, consumir e compartilhar. E essa demanda se constrói através da polarização, com partidos políticos e candidatos que estão ativamente instigando seus seguidores. E também aumenta a demanda por desinformação quando os cidadãos não acreditam no Estado, não têm confiança nos partidos e nos órgãos eleitorais.

A senhora estava dizendo que é muito importante ter confiança nas instituições. No Brasil, há uma série de investigações de corrupção envolvendo juízes. É uma situação que favorece a desinformação eleitoral ao afetar a confiança nas instituições?
Todos nós queremos que casos de corrupção sejam investigados. Mas é fato que as investigações vão ratificar os vieses, vão dar credibilidade aos setores que diziam que a Justiça atuou inspirada politicamente. E eles vão semear a dúvida em cidadãos menos politizados. Porque não se está questionando só a probidade dessas pessoas, mas se questiona, em última instância, a autonomia e a independência das instituições. E isso é muito sério.

Qual é o impacto disso no ambiente informativo e sobre dúvidas a respeito da integridade eleitoral?
Isso vai contribuir para ratificar as percepções de alguns setores políticos de que as instituições não atuam de maneira independente. O risco é que os órgãos eleitorais se transformem no alvo principal dos ataques de setores políticos. Quando os setores políticos mudam sua estratégia de atacar seu adversário e se dedicam a atacar o que no futebol seria o árbitro, isso é muito ruim. No Chile, onde estou neste momento, apesar de termos muita polarização e de termos passado de um dos governos mais de esquerda que já tivemos para dos mais de direita, todos os partidos aceitaram os resultados, não questionaram o órgão eleitoral. Ou seja, foi possível ter um sistema de partidos muito polarizado, com muita desinformação, muito ataque, mas as regras do jogo eleitoral não foram questionadas.

Há uma preocupação em relação a interferência estrangeira na eleição?
Na América Latina, até recentemente, nossos problemas eram mais relacionados com as dinâmicas internas, a polarização, a desconfiança nas instituições e a fragilidade dos sistemas de partidos. Mas hoje, pelas transformações geopolíticas, estamos expostos a tentativas de interferência externa. Temos visto tentativas ativas dos Estados Unidos de ter um papel nas eleições na América Latina. Então é possível que tenhamos tentativas tanto dessa potência como de outras dispostas a financiar campanhas, a promover desinformação.

Vimos que os EUA foram muito ativos nas tentativas de influenciar as eleições do ano passado na Argentina e em Honduras.
Há uma política expressa por parte da presidência dos Estados Unidos de apoiar candidaturas e vincular isso a vistos, temas comerciais, aplicar sanções, aumentar as tarifas. No caso da Argentina, houve um resgate econômico importante. Em alguns países, foi bem evidente que eles tiveram um impacto; em outros países, não está claro. Mas vai ser uma preocupação no Brasil neste ano de qualquer forma.

Os EUA podem ter impacto nas eleições brasileiras?
Os países estrangeiros não podem promover ativamente candidaturas, isso é contra as normas internacionais de respeito à soberania. É um problema que nos preocupa. Por outro lado, o Brasil é um país tão grande e tão complexo que o impacto de uma tentativa de influenciar a eleição pode ser menor do que em um país pequeno que é totalmente dependente em termos comerciais e políticos dos Estados Unidos.

Financiamento de desinformação por atores estrangeiros também preocupa?
Na Europa, ficou muito evidente que há um papel ativo por parte da Rússia para intervir nas eleições dos países, com um financiamento claro e permanente. Na América Latina, por enquanto não vimos uma evidência clara de um financiamento explícito governamental de algum país para as campanhas. Há evidência de que organismos não governamentais são ativos.

Existe muito financiamento e coordenação entre ONGs e setores religiosos dos Estados Unidos. Esse financiamento foi muito ativo no plebiscito dos acordos de paz na Colômbia e no plebiscito constitucional no Chile. Há uma forte coordenação transnacional de setores conservadores com vínculos com movimentos evangélicos, por exemplo, que estão mobilizados contra os direitos sexuais e reprodutivos, do casamento igualitário, do feminismo. E isso vemos em toda a América Latina e também no Brasil. Mas são influências que vêm de setores não governamentais organizados, mais do que governos.

RAIO-X

Marcela Rios Tobar, 59, é diretora para América Latina no Instituto Internacional para Democracia e Assistência Eleitoral (International Idea). Ela tem doutorado em ciência política pela Universidade de Wisconsin, mestrado em ciências sociais pela Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (Flacso), do México, e graduação em Sociologia e Estudos Latino-Americanos pela York University do Canadá. Ela foi ministra dos direitos humanos do Chile entre 2022 e 2023 (governo Gabriel Boric).

Leia o artigo inteiro

Do Twitter

Comentários

Aproveite ao máximo as notícias fazendo login
Entrar Registro