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JK inspira da direita à esquerda 70 anos após posse na Presidência

Adversários políticos, o presidente Lula (PT) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), apresentam uma característica em comum: gostam de citar o ex-presidente da República Juscelino Kubitschek (1902-1976) em seus discursos, evocando para si a imagem positiva de um dos mandatários mais populares da história do Brasil e que governou o país de 1956 a 1961.

Passados 70 anos desde a sua posse na Presidência da República, em 31 de janeiro de 1956, o político mineiro, cujo lema de governo era "50 anos em 5", segue como fonte de inspiração tanto de partidos de direita como de esquerda para tentar atrair a simpatia do eleitorado. JK foi eleito pelo PSD, partido que nasceu no seio do getulismo e que agregava líderes políticos como Tancredo Neves e Ulysses Guimarães.

Em 2022, durante comício na cidade de Juiz de Fora (MG), o então candidato Lula prometia fazer "40 anos em 4" pelo país, caso fosse eleito naquele ano. Tarcísio, por sua vez, repetiu a frase em agosto passado, durante seminário com empresários realizado em São Paulo, quando afirmou que o Brasil precisa de um próximo governo com o lema "crescer 40 anos em 4".

O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), e os senadores Ciro Nogueira (PP-PI) e Rodrigo Pacheco (PSD-MG) também já citaram Juscelino como exemplo a ser seguido, tanto na condução da administração pública como na arte de fazer política, longe dos extremos ideológicos. Antes de ocupar a Presidência, JK foi prefeito de Belo Horizonte e governador de Minas Gerais, em gestões marcadas pelo dinamismo administrativo e coalizão política.

Outro presidenciável para 2026, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, se comparou a JK ao prometer, em diversas ocasiões, anistia ampla e irrestrita aos envolvidos na tentativa de golpe de Estado e no 8 de Janeiro. Para Caiado, a anistia geral, que poderia beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), seria uma forma de pacificação do país diante da polarização política envolvendo a esquerda e a direita.

Em 1955, inconformados com a derrota na disputa presidencial daquele ano e alegando fraude eleitoral, algo que nunca foi comprovado, rebeldes civis e militares, insuflados pela União Democrática Nacional (UDN), partido de oposição liderado por Carlos Lacerda, tentaram, em novembro, um golpe para impedir a posse de Juscelino, que havia sido escolhido em eleições que transcorreram normalmente.

A intentona não foi adiante graças à atuação do ministro da Guerra na época, general Henrique Teixeira Lott, que mobilizou tropas e colocou tanques nas ruas do Rio de Janeiro, então capital federal, para garantir a posse do novo presidente e a estabilidade democrática. O episódio ficou conhecido como "golpe preventivo".

Outra rebelião militar para depor o novo presidente ocorreu no começo de 1956, em Jacareacanga (PA), mas Juscelino, interessado em atrair os militares para o seu lado e garantir a própria governabilidade, articulou e promoveu uma ampla anistia que beneficiava todos os civis e militares envolvidos em quarteladas recentes. Ele ainda enfrentaria outra revolta militar em Aragarças (GO), em 1959, que foi rapidamente debelada.

Com o cenário político e militar apaziguado, o foco de Juscelino foi colocar em prática o seu Plano de Metas, conjunto de medidas para promoção do desenvolvimento do país, centrado na industrialização, expansão da infraestrutura nacional e a construção de Brasília. A euforia da modernização tomou conta do país, tendo como maestro o presidente da República, classificado pelo escritor Guimarães Rosa como "o poeta da obra pública".

"O governo JK foi um momento de grandes conquistas para o país, em todas as frentes. O presidente era visto pela população como alguém que estava modernizando o Brasil, criando oportunidades para as pessoas e gerando empregos", diz o cientista social Fábio Chateaubriand Borba, estudioso da obra do político mineiro e idealizador do documentário "JK - O Reinventor do Brasil".

O documentário em formato de minissérie foi exibido em 2023 e conta a trajetória de Juscelino desde a infância em Diamantina (MG), onde nasceu, até o acidente trágico que tirou a sua vida em uma colisão ocorrida na via Dutra há quase 50 anos, em agosto de 1976. As circunstâncias do acidente nunca foram totalmente esclarecidas.

O cientista político Rudá Ricci o compara a outro fenômeno de popularidade, John F. Kennedy, que presidiu os Estados Unidos de 1961 a 1963. Até as siglas com as iniciais do nome são semelhantes. "Preservadas as proporções, JK adotou um estilo comparável ao de JFK. Politicamente não era tão avançado, mas a ousadia estava na forma como marcava suas administrações, com obras que criavam identidade, abriam o país para o mundo e descortinavam o que poderia ser um Brasil moderno", diz Ricci.

Por outro lado, o governo dele também foi marcado por erros, segundo especialistas. A gastança desenfreada em grandes obras, como a construção de Brasília, provocou descontrole nas contas públicas e acelerou um problema que atormentaria o país nas décadas seguintes: a inflação. Outro problema foi a falta de planejamento social e econômico para o futuro do Rio de Janeiro, após a transferência da sede do governo federal.

"Ao se construir a nova capital, não se pensou no que aconteceria com a velha. Muitos problemas que existiam no Rio eram equacionados enquanto a cidade era capital, mas depois não", diz Borba.

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