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Ligação da extrema direita com religião é tema de livro

"Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada!", discursou Jair Bolsonaro na sede do clube Hebraica, no Rio de Janeiro, em abril de 2017. Àquela altura, era deputado federal e se preparava para a disputa no ano seguinte da Presidência da República, da qual saiu vitorioso.

"Se depender de mim, todo cidadão vai ter uma arma de fogo dentro de casa", disse Bolsonaro, aplaudido por cerca de 300 integrantes da comunidade judaica.

Esse episódio foi um estalo para o historiador e sociólogo judeu Michel Gherman se lançar às reflexões que resultaram no livro recém-lançado "Diálogos em Tempos Difíceis".

"Bolsonaro se transforma em racista no clube judaico usando referências típicas do nazismo", afirma Gherman, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

A partir desse estado de perplexidade, que cresceu nos anos seguintes, ele teve a ideia de preparar um livro sobre a instrumentalização da religião pela extrema direita. Convidou para o projeto Ronilso Pacheco, teólogo e pastor evangélico negro. A mediação da conversa entre eles coube à jornalista Ana Luiza Albuquerque, repórter da Folha.

Além desse diálogo, o livro inclui um artigo de Gherman sobre política e religião nos dias de hoje e outro de Pacheco a respeito dos mesmos temas.

Logo no início da conversa, Albuquerque, criadora do podcast Autoritários, lembra que seus dois interlocutores estão em um lugar de desconforto: "Emparedados entre a extrema direita, que coloniza o judaísmo e o evangelismo no Brasil, e a esquerda, que ainda guarda uma visão preconceituosa ou condescendente sobre a religião".

De acordo com Gherman, estamos diante de novo tipo de antissemitismo, que ele chama de "filossemita", amparado em um Israel mítico e direcionado a apenas um tipo de judeu. Na cartilha dessa parcela mais radical, "o judeu imaginário não só não é discriminado como vira referência, é canonizado", diz. Por outro lado, o judeu histórico, imerso em contradições, deve ser combatido.

Mais adiante no livro, entra em debate um legado iluminista, segundo o qual religião e política não devem se misturar. Para Pacheco, integrante da direção do Instituto de Estudos da Religião (Iser), a esquerda brasileira erra ao insistir em uma separação que, na prática, nunca vai se firmar. A extrema direita, por outro lado, compreendeu a capacidade mobilizadora da religião.

"É muito difícil você imaginar uma grande revolução, um grande movimento disruptivo popular, especialmente do povo negro, que não seja atravessado pela religião", afirma.

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Para eles, identificados com a esquerda, esse campo falha ao apostar na racionalidade como motor dos embates políticos. "O voto não passa por ideologia, passa por afeto. Como é que chego a esse sentimento?", questiona Gherman. Segundo o professor da UFRJ, o PT não teria surgido no Brasil se não fosse a Igreja Católica.

Divergem, porém, em outros tópicos, como a força do bolsonarismo. Para Pacheco, a sucessão de ações antidemocráticas tem enfraquecido a corrente liderada por Bolsonaro, o que tende a abrir caminho para uma direita favorável às regras do jogo. Gherman, no entanto, defende que o bolsonarismo se mantém vigoroso. "Quem letrou a extrema direita foi a perspectiva bolsonarista."

Em seu artigo na segunda metade da publicação, Pacheco destrincha o conceito de política da opacidade, que determina a existência de espaços delimitados, em que os diferentes são colocados sob suspeição. Também discute a manipulação da religiosidade cristã levada a cabo pelo secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth.

Em seu texto, Gherman define a nova extrema direita como "fenômeno global, que opera por uma gramática política dualista, anti-iluminista e conspiracionista. Ela se baseia no regresso a um passado idealizado e na criação constante de um estado de emergência para justificar o combate contra o inimigo".

O desafio para a esquerda, segundo ele, é compreender a sedução que essas narrativas exercem.

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