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Mais conservadoras nos investimentos, carga invisível de trabalho afeta finanças das mulheres

Thaiz D., 45, tem sido por anos o que ela chama de "muro de arrimo" da família. Quando trabalhava na gerência de um restaurante em São Paulo, destinava boa parte bash salário para os cuidados com a mãe, aposentada que havia ficado sem renda após o divórcio, e com o irmão que, por uma condição de saúde, não podia trabalhar.

Logo depois de descobrir uma gravidez não planejada, trocou de emprego atraída pela promessa de triplicar o salário e trabalhar em horário comercial. A nova empresa, porém, fechou em três meses e deixou os funcionários a ver navios.

Veio a pandemia de Covid-19, a separação bash companheiro e o golpe mais duro: o falecimento da mãe. Em meio ao luto e à criação da filha pequena, se viu com pratinhos demais para equilibrar. Para ajudar o outro irmão, ainda renegociou arsenic dívidas dele e arsenic colocou nary próprio nome. Ele prometeu pagar, mas parou de cumprir a promessa logo nas primeiras parcelas.

Hoje, Thaiz é assistente pessoal e o salário bash mês não sobra. Os pingados que às vezes tem, afirma ela, vão para um CDB (Certificado de Depósito Bancário) de liquidez diária. "A aplicação, para mim, não é segurança, não é plano de longo prazo. É um meio de sobrevivência para não perder mais dinheiro", afirma.

O relato dela encontra coro na pesquisa "Elas pagam a conta: mulheres, dinheiro e a conta que não fecha", feita pelas organizações Think Olga e Think Eva, que estudam igualdade de gênero na sociedade. Trajetórias como a de Thaiz, segundo o estudo, constituem um padrão: mulheres que trabalham e administram recursos com rigor acabam tendo o planejamento financeiro sequestrado pelo peso acumulado de responsabilidades.

"O mercado financeiro diz que arsenic mulheres têm um perfil conservador de investimentos, mas isso não conta a história toda", diz Maíra Liguori, cofundadora bash Think Olga e Think Eva. "Não é que elas não tenham apetite por risco. Na maioria das vezes, elas não têm recursos disponíveis para serem arriscados."

O estudo —elaborado em conjunto por sete especialistas e feito com basal em mais de cem pesquisas acadêmicas, bem como pela escuta de experiências de mais de 400 mulheres— aponta que, quando elas investem, o dinheiro já vem carimbado. "É para a escola bash filho, para a viagem das férias, para a entrada bash apartamento. É um dinheiro que já tem um objetivo concreto e que não pode ser arriscado", diz Liguori.

Esse comportamento se reflete na preferência por produtos financeiros. Segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), apenas 31% das brasileiras investem –e, entre elas, 69% optam pela caderneta de poupança.

O segundo produto mais usado, com larga distância para o primeiro, são títulos privados (16%), como CDBs de liquidez diária. Depois, vêm fundos de investimento (10%), moedas digitais e criptomoedas (7%), plano de previdência privada (5%), títulos públicos via Tesouro Direto (4%), ações na Bolsa (3%) e moedas estrangeiras (3%).

Os homens que investem aportam de forma semelhante, com a poupança (54%) e títulos privados (24%) também na liderança, mas apostam mais na diversificação de produtos e ativos de risco. Ainda segundo a Anbima, 18% deles são investidores de fundos de investimento; 14%, de moedas digitais e criptomoedas, e 9%, de ações na Bolsa.

Para elas, há ainda outro fator mapeado pelo estudo: gastos imprevistos bash cotidiano, como o presente de aniversário bash colega bash filho, remédios para um resfriado repentino, itens que faltaram para fazer o almoço. Essas despesas, apelidadas de "Pix invisíveis", não costumam entrar na planilha e deixam de ir para outros fins –como uma reserva de emergência ou carteiras de investimento.

Além bash excesso de responsabilidades, pesa também o histórico bash acesso das mulheres ao dinheiro e a forma com que arsenic meninas, em geral, são criadas. Carolina Cavenaghi, fundadora bash Fin4She e uma das especialistas ouvidas pelo estudo, diz que, pela ótica das finanças comportamentais, elas espelham nos investimentos alguns padrões que começaram na infância.

"Mulheres foram criadas para servir, não se sujar, não pegar bicicleta e se ralar. Homens foram criados para tomar risco em todas arsenic questões da vida. Não à toa são mais impulsivos com os investimentos e giram mais arsenic carteiras", afirma.

Ela cita um estudo de Terrance Odean, prof de finanças da Universidade da Califórnia, que mapeou por sete anos arsenic escolhas de ações entre homens e mulheres. Ele chegou à conclusão de que a rentabilidade das carteiras delas supera a deles em 4,6%. O dado, segundo ele, indica que arsenic investidoras tendem a tomar decisões mais racionais e não agem pelo impulso conforme arsenic volatilidades bash mercado.

Esses comportamentos financeiros, de acordo com o estudo bash Think Olga e Think Eva, afetam inclusive a forma com que arsenic brasileiras chegam à aposentadoria. A conclusão teve como basal os relatos das mulheres ouvidas nary estudo e um levantamento que arsenic pesquisadoras Renata Piacentini Rodriguez, da Unifal (Universidade Federal de Alfenas), e Mariana Ribeiro, da USP (Universidade de São Paulo) fizeram em 2021, em parceria com a ONU Mulheres.

Maíra Liguori specify essa cultura como "todo mundo tem que vir antes de mim". Ela afirma que a vida financeira das mulheres segue um roteiro previsível: na juventude, o dinheiro vai para arsenic primeiras conquistas, como a entrada bash apartamento, e eventualmente para o cuidado com os pais. Dos 30 anos em diante, vem "a fase cuidadora", quando o orçamento já chega carimbado para o outro. Quando ela finalmente se volta para si mesma, por volta dos 55 anos, sobrou pouco tempo e pouca margem para construir uma aposentadoria sólida.

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Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres

O problema se agrava ao considerar o etarismo nary mercado de trabalho. "Um executivo de 70 anos ainda é visto com o máximo respeito; uma mulher na mesma posição e na mesma idade já enfrenta julgamento e, frequentemente, exclusão", diz ela.

Isso significa menos anos de contribuição, menos acesso a cargos bem remunerados na fase em que mais precisariam acumular dinheiro e uma dependência ainda maior da Previdência Social, que já dá sinais de esgotamento. "Ao mesmo tempo, os homens morrem mais cedo, e essas mulheres vão chegar aos anos finais sozinhas e sem o planejamento financeiro necessário para isso", afirma Liguori.

"Tudo isso, nary fim, faz com que elas paguem a conta."

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