Mas o Pigz tem uma estratégia de negócio diferente dos concorrentes maiores. Em vez de cobrar um percentual do restaurante sobre a venda de uma pizza, por exemplo, ela oferece uma assinatura mensal fixa, que varia de R$ 99 a R$ 499. O valor final depende da inclusão de outros serviços do sistema Pigz, como gerenciamento de mesas, estoque, gestão do negócio e autoatendimento, entre outros.
Agora, o que realmente dá dinheiro ao negócio Pigz é a possibilidade de atuar como meio de pagamento nos restaurantes afiliados. Isso significa que, em vez de o restaurante pagar uma taxa pelo cartão de crédito ou débito que o consumidor usou (em geral de 5%), o app faz a cobrança diretamente do consumidor e a repassa imediatamente ao restaurante, retendo uma taxa média de 4,5%.
"O Pigz oferece uma plataforma única que integra diversas funcionalidades para o restaurante, desde a venda online até a gestão presencial. Isso inclui também um link da loja e seu cardápio online com pagamento via Apple Pay, Pix, cartão de crédito ou mesmo com o nosso sistema", explica Laercio Gentil, CEO da empresa.
"Também fazemos controle de mesas e comandas, emissão de notas fiscais, gerenciamento de estoque, aplicativos para celular dos garçons, tablet de mesa e totem de autoatendimento. E estamos desenvolvendo uma funcionalidade para fazer gestão e controle do trabalho dos garçons."
Em 2024, a empresa intermediou quase R$ 50 milhões em vendas para os cerca de 400 restaurantes credenciados em Boa Vista. O faturamento do aplicativo Pigz em 2025 ainda não foi totalmente calculado, mas está previsto para R$ 6 milhões, com crescimento de 20% na operação em relação ao ano anterior. A plataforma conta com 2.000 clientes em sua base, utilizando regularmente o aplicativo.
"A empresa é rentável e dá lucro. Estamos buscando uma captação com investidores de pelo menos R$ 7 milhões, o que representa, em nossos cálculos, 10% da empresa", comenta Gentil. "Os recursos serão usados para estruturar o canal de parcerias, contratar um time sênior em São Paulo e investir em tecnologia, dobrando o tamanho da equipe."
Modelo de grande em cidade pequena

Outro aplicativo de enorme sucesso pelo interior do Brasil é o aiqfome. Fundada em 2007 pelo casal Igor Remigio e Steph Gomides, a empresa, à época, era apenas um site que funcionava como guia gastronômico de Maringá (PR).
Em 2014, eles venderam 20% do negócio a um amigo, que era especialista em TI. A partir daí, levantaram dinheiro para desenvolver um aplicativo de celular e, para expandir as cidades de atuação, o aiqfome começou a trabalhar com um sistema de franquias.
O app buscava — e até hoje opera desta forma — parceiros interessados em representar o aplicativo em cidades pequenas e médias, com população entre 10.000 e 250 mil habitantes. O franqueado paga um valor pela licença de atuação na região que representará, e os lucros gerados ali são divididos em partes iguais entre ele e o aiqfome. Hoje, a franquia custa a partir de R$ 26.000, mas o aiqfome exige ainda investimentos em marketing na região de atuação, para divulgar o aplicativo, que podem chegar a outros R$ 100 mil, a depender da localidade. Em 2025, a projeção é de que a empresa tenha efetuado a venda de cerca de R$ 1,5 bilhão em refeições pelo aplicativo.
A grande sacada do aiqfome foi mirar a atuação em áreas que não estão no foco dos gigantes. Afinal, iFood, Keeta e 99Food se engalfinham pelas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio, Belo Horizonte e demais capitais, mas têm menos interesse, por exemplo, em cidades como Andradas, Botelhos e Poços de Caldas, no sul de Minas.
A estratégia deu tão certo que chamou a atenção dos grandes, como o iFood, interessados em adquirir o aplicativo. Em 2020, os fundadores venderam 100% do aiqfome ao Grupo Magalu, mas Remigio permaneceu como executivo-chefe da empresa. O valor da transação não foi divulgado.
"O aiqfome deu muito certo porque focamos em mercados menores e num modelo 'ganha-ganha', cobrando taxas mais justas dos restaurantes", explica Remigio. "E também porque os nossos licenciados, que representam o aiqfome na ponta, conhecem tudo na região, sabem o nome de cada um dos donos dos restaurantes e bares, isso quando não são parentes deles."
Ou seja: o modelo é o mesmo, mas o local de atuação é diferente. Essa foi a grande razão do sucesso da empresa.
A lição das ruas
Em 2020, o empresário Assumar Martins tocava uma empresa de tecnologia da informação especializada no atendimento aos setores de turismo e eventos. Veio a pandemia de Covid-19, e o lockdown tornou a empresa inviável de uma hora para outra. Ao mesmo tempo, Martins notou que os pedidos de alimentação em domicílio estavam explodindo, e enxergou nisso uma oportunidade de mudar de ramo.
Antes de abrir a UaiDelivery, que tem forte atuação na região metropolitana de Belo Horizonte, em julho de 2020, ele sacou que precisava conhecer por dentro o negócio de entrega de comida por aplicativo. Martins, então, se cadastrou como motoboy e, durante dois meses, passou a entregar comida para o finado UberEats. Entendeu a rotina de um entregador, suas dificuldades, além de conhecer restaurantes, outros motoboys e todo o sistema de delivery de refeições.

"Em paralelo, estava construindo o aplicativo UaiDelivery junto a um desenvolvedor, que criou o software com as características de que nosso negócio precisava", comenta Martins. "Não fiz um plano de negócios formal. A minha atuação como motoboy funcionou como um", avalia.
E uma das lições que essa experiência propiciou ao futuro UaiDelivery foi a seguinte: ela não venderia refeições pelo celular; agenciaria os entregadores. E o restaurante pode inclusive continuar negociando com o iFood, o 99Food ou com quem quiser.
Isso porque o iFood, por exemplo, cobra 15% adicionais do restaurante pelo serviço de entrega - a taxa cai de 27% para 12% se o estabelecimento se encarregar de fazer a comida chegar à porta do cliente. Como muitos restaurantes não têm interesse em manter um motoboy fixo, o UaiDelivery ocupa esse nicho: oferece 15.000 entregadores para 108 estabelecimentos cadastrados, de restaurantes a farmácias, que pagam um valor de R$ 8,90 para até 2km por entrega. Em 2025, o empresário calcula que seu faturamento atingiu R$ 4 milhões. Ou seja: mesmo mercado, mesma região, mas atuação diferente ao reduzir o custo dos estabelecimentos no sistema dos grandes aplicativos.
Cliente do restaurante, não da plataforma
Imagine um restaurante que enviou uma refeição errada para um cliente, que decide reclamar com o aplicativo de entregas. Se for descredenciado por causa disso, o estabelecimento perde totalmente o acesso à base de clientes desse aplicativo.

Pensando nesse problema, o empresário carioca Rafael Ribeiro - que já mantinha desde 2000 um guia impresso de serviços e empresas para Copacabana e outros bairros — pensou em ajudar os restaurantes a venderem comida com seus próprios aplicativos ou com links no Instagram que remetem a um cardápio dentro de um sistema de vendas desenvolvido pelo JotaJá, o aplicativo de Ribeiro.
"Criamos um aplicativo que denominamos de 'white label' [rótulo em branco], pois basta o estabelecimento incluir o seu logo, e o aplicativo já começa a funcionar e a vender como se fosse da empresa dele", explica Ribeiro. Para isso, a JotaJá cobra uma mensalidade que varia de R$ 250 a R$ 600, a depender da quantidade de opções do aplicativo.
O JotaJá também oferece serviços de marketing, para que restaurantes atuem com tráfego pago e outras estratégias para captar clientes. Neste caso, cobra R$ 6 por negócio gerado, o que significa que, se o restaurante vende 500 pedidos via tráfego pago, repassa R$ 3.000 ao JotaJá. A empresa também aluga endereços de internet por R$ 60 ao ano e realiza um concorrido evento anual, o JotaJá Summit, com ingressos entre R$ 300 e R$ 350, para levar milhares de participantes ao encontro de fornecedores, criando networking e um ecossistema no segmento.
"A JotaJá atua em todo o Brasil, tem cerca de 1.000 clientes, sendo 75% deles no Rio de Janeiro", comenta Ribeiro, que não quis divulgar o faturamento da empresa, uma vez que negocia um grande aporte com um investidor. Nada mal para um empresário que se orgulha de ter vindo da comunidade Merck, no morro do Andaraí, na capital carioca.
O "sotaque" de cada negócio
Fernando Pedro Moraes, professor da FGV e especialista em negócios digitais, elogiou as estratégias dos pequenos competidores citados nesta reportagem do UOL. Ele destaca que as grandes diferenças existentes no Brasil permitem iniciativas regionais com "sotaques" locais em sua forma de atuar.
"O mercado não é homogêneo e, assim, há espaço para todos", comenta. "As empresas menores oferecem atendimento mais humanizado, com acesso a pessoas reais, em contraste com os grandes players, que dependem de bots."
O mercado brasileiro de delivery deve sextuplicar o número de entregas na próxima década, segundo dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). "Atualmente, o delivery é visto como algo para ricos e de final de semana, mas há potencial para crescimento em classes mais baixas e em dias de semana, com a redução de custos e mudança de frequência de consumo. Na China, a frequência de consumo é três vezes maior do que aqui", diz o presidente da entidade, Paulo Solmucci Jr.
A visão dos peixes grandes
Rafael Corrêa, gerente de Comunicação Corporativa do iFood, disse que a empresa "vê com bons olhos" o crescimento da concorrência, pois considera isso "saudável para o ecossistema e saudável para a economia brasileira". O iFood movimenta 0,64% do PIB brasileiro junto com seus parceiros, tem 60 milhões de consumidores em 1.500 cidades e registrou 180 milhões de pedidos em novembro de 2025, atuando com um exército de 500 mil entregadores.
Danilo Mansano, vice-presidente de parcerias estratégicas da Keeta, destacou que, "em um país de tamanho continental com uma cultura diversa e um mercado de delivery ainda em transformação", os aplicativos menores "mostram a importância de entender o contexto local". "Eles são exemplos importantes de como o mercado brasileiro é diverso e de como estratégias regionais podem funcionar muito bem."
Em nota, a 99Food disse que "encara com otimismo as mudanças que acontecem no setor de delivery de comida". "Respeitamos as companhias que buscam oferecer cada vez mais opções que promovam conveniência e facilidade ao dia a dia das pessoas. Acreditamos que a concorrência é boa para expansão do mercado e proporciona novas opções para os restaurantes e para todos os brasileiros."

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