Há no mercado mais dúvidas do que certezas sobre as medidas do governo para atenuar a alta dos combustíveis. Adriano Pires, um dos maiores especialistas em petróleo do país, acha difícil funcionar. "O plano não é estrutural. É eleitoreiro. É um plano confuso, não é nada transparente. Dificilmente o mercado vai aderir. No final dessa história, todos os subsídios vão para a Petrobras. A única empresa que importa GLP (gás de cozinha) é a Petrobras. No diesel também vai acabar sendo. Se não for suficiente o subsídio para igualar ao preço do mercado internacional, vai obrigar a Petrobras a importar. No final do dia, é um plano para dar subsídios para a Petrobras perder menos dinheiro. A Petrobras vai entregar esse diesel, essa querosene, esse GLP mais barato para a distribuidora e o governo vai botar polícia no posto para ver se o cara vende mais barato", resume.
Sérgio Araújo, presidente da Abicom (Associação Brasileira de Importadores de Combustíveis), aguarda a publicação da medida provisória para entender os detalhes. "Ainda tenho muitas dúvidas. É muito importante saber como será pago R$ 1,20 de subsídios ao importador. O navio médio com 50 milhões de litros recolhe R$60 milhões de ICMS. Precisamos saber como será feito o pagamento. A empresa não tem caixa pra ficar com R$60 milhões em aberto esperando ressarcimento", afirma. Ele admite que, mesmo com a subvenção, a defasagem em relação ao preço internacional do diesel pode chegar a R$1. "Ninguém vai tomar prejuízo. O produto importado vai continuar mais caro que o das refinarias da Petrobras. O próprio governo reconhece isso", continua. Portanto, uma parte da alta dos combustíveis será inevitavelmente repassada ao consumidor.
A mudança tem que ser estrutural, na visão de Mateus Soares, diretor de Novos Negócios da Refina Brasil - associação que responde por 20% do mercado de refino no país. "Cada R$1 de petróleo que exportamos, importamos R$1,20 de combustível refinado. A mudança tem que ser estrutural, garantindo acesso competitivo ao petróleo a todas as refinarias do Brasil. Com a exploração da margem equatorial, o Brasil vai saltar do nono para o quinto, sexto maior produtor de petróleo do mundo. Precisamos atualizar o parque de refino em número e qualidade para diminuir a dependência e não ficar a mercê de conflitos externos", conclui.

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