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Meta compra a Manus e muda o foco da IA de respostas para trabalho feito

A Meta, dona do Facebook, Instagram, Whatsapp e Oculus, passa por uma pressão conhecida no setor: gastar pesado com IA e provar retorno rápido. Comprar uma empresa que já vendia assinatura e já tinha tração comercial é uma forma de encurtar o caminho entre investimento e receita. No anúncio público, a própria Manus disse que vai seguir com seus serviços e acelerar a evolução do produto dentro de uma base "mais sustentável".

A Manus já havia divulgado que passou de US$ 100 milhões em receita recorrente anual em cerca de oito meses, com potencial anual superior a US$ 125 milhões. Para o mercado, isso funciona como um sinal raro de que existe gente pagando não só para "testar IA", mas para receber trabalho entregue.

O faturamento pode explodir quando, e se, a Manus conseguir se integrar com todos os aproximadamente 3,1 bilhões de usuários do Facebook no mundo. A plataforma continua sendo a maior rede social do mundo em termos de usuários, mas parou de divulgar o número de usuários únicos mensais desde 2024, quando o crescimento passou a ser quase linear.

Nas demais redes, o número de usuários também é enorme: 3 bilhões no Instagram (dados de outubro de 2025) e mais de 3 bilhões no Whatsapp (dados do primeiro trimestre deste ano). Até mesmo o Messenger já soma 947 milhões de usuários (início de 2025). Estima-se que a família Meta some mais de 4 bilhões de usuários no mundo. Números bem relevantes se multiplicados pelo valor de US$ 20/mês, da assinatura básica do Manus. As assinaturas podem custar também US$ 39/mês, US$ 40/mês (grupo/equipe) e US$ 199/mês (pro).

Meta pagou barato

A Meta pagou barato. A venda do Whatsapp foi de US$ 19 bilhões em 2014. O mais baratinho foi o Instagram, comprado por US$ 1 bilhão em 2012. O valor da Manus é o mesmo pago pelo Oculus em 2014, os US$ 2 bilhões como uma aposta no metaverso que até agora não se provou.

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Na prática, a Meta está comprando uma "camada de execução". Um jeito simples de visualizar a importância dessa aquisição: um chatbot é como um consultor que te dá um plano. Um agente é como alguém que pega o plano e resolve as pendências por você, com acesso controlado a ferramentas, sites e sistemas. É essa virada de comportamento que pode redefinir produtos no WhatsApp, Instagram e Facebook.

Sabe todas aquelas tarefas que você gostaria que o Whatsapp fizesse sozinho, como agendar mensagens e reuniões. Isso está bem perto de acontecer.

O cenário mais óbvio é o WhatsApp Business. Hoje, muita empresa já vende e atende por ali. O passo seguinte é automatizar o que dá mais trabalho: confirmar estoque, registrar pedido, emitir reembolso, atualizar planilha de controle, encaminhar nota, agendar entrega. Com um agente, o WhatsApp deixa de ser só conversa e vira operação.

O incentivo econômico é claro: se a Meta conseguir empacotar isso como serviço mensal, ela entra numa disputa que hoje está mais associada a softwares de CRM e ferramentas de atendimento. E ela entra com uma vantagem: o WhatsApp já está no bolso de cliente e lojista.

Do lado do consumidor, a promessa também é fácil de entender com um exemplo do dia a dia: "organize minha viagem". Um chatbot te sugere roteiro. Um agente compara preços, monta a tabela, separa links, cria um resumo e te entrega tudo pronto para decisão. Esse tipo de utilidade tende a aumentar tempo de uso e abrir espaço para taxas, comissões ou serviços premium dentro dos aplicativos.

Nos últimos ciclos, a disputa pública ficou muito concentrada em modelos de linguagem, quem responde melhor, quem escreve melhor, quem gera melhor imagem. A compra da Manus sinaliza um deslocamento: o ativo mais cobiçado vira o software que coordena tarefas, controla etapas, acessa ferramentas e devolve resultado verificável.

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Isso pressiona concorrentes a acelerar seus próprios projetos de agentes. Reportagens e análises recentes apontam que OpenAI e Google já vinham falando de agentes, mas a Manus tinha um produto conhecido no mercado e com receita relevante, o que reduz o "tempo até a prateleira".

Também mexe com o destino das startups menores. Rodar agentes costuma ser caro porque exige ciclos longos de computação e ambientes isolados para execução. A tendência, descrita no material anexado, é que a categoria favoreça empresas com infraestrutura grande, o que empurra o mercado para consolidação.

Para empresas, o ganho imediato é reduzir tarefas repetitivas que "comem" tempo de equipes. Atendimento, triagem, pesquisa de informações, checagem de status e preenchimento de sistemas viram candidatos óbvios. O efeito macro é aumento de produtividade, mas o efeito micro depende de como cada empresa decide reorganizar o time.

Para trabalhadores, o impacto costuma vir em duas ondas. A primeira é alívio de tarefas chatas e aumento de entrega. A segunda é mudança de função: menos execução manual, mais supervisão, validação e decisões. Isso abre espaço para qualificação, mas também cria risco para quem está preso em funções muito operacionais e pouco reconhecidas.

É aqui que a parte "humana" aparece com força: agentes que "fazem" podem virar aliados de pequenos negócios, mas também podem virar argumento para cortes mal planejados. Não existe determinismo. Existe escolha de gestão.

Impacto em consumidores e políticas públicas

Quando um agente começa a agir, ele passa a lidar com dados sensíveis por natureza: compras, pagamentos, histórico de conversas de atendimento, rotinas de trabalho e informação comercial. Isso coloca a Meta, uma empresa que cresceu em publicidade e dados de consumo, num teste de confiança mais duro do que o de um chatbot de curiosidades.

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Do lado regulatório, tem um tema que vai dominar o noticiário: a origem da Manus e a preocupação geopolítica. A Meta afirmou que não haverá propriedade chinesa remanescente, e que a Manus vai encerrar operações em Singapura, justamente para reduzir risco regulatório e ruído político.

Para políticas públicas, a conversa tende a girar em torno de duas perguntas simples, que ninguém consegue evitar: quem responde quando um agente erra e causa prejuízo e como auditar decisões e ações tomadas por sistemas que operam em várias etapas.

Reações do mercado: otimismo com a receita, cautela com o custo

No mercado financeiro, a leitura central do material anexado é "aposta transformadora", com uma divisão clássica: parte dos analistas gostou do caminho mais direto para monetizar IA, parte lembrou que agentes custam caro para rodar e podem pressionar margens no curto prazo. É claro que tudo vai depender do potencial de a Meta integrar a Manus no seu portifólio.

Mas, dado a capacidade de orquestração de agentes pela equipe da empresa oriental, isso não deve ser um grande problema. O ponto é o trade-off: receita nova potencial versus custo alto de infraestrutura para escalar um produto que executa tarefas de verdade.

Os interesses e vieses em jogo

A Meta tem interesse comercial direto em amarrar seus gastos de IA a receitas mais tangíveis, e isso influencia a forma como a aquisição é apresentada: foco em "utilidade", "negócio", "produtividade" e "pequenas empresas".

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Do outro lado, existe viés de mercado em torno da "corrida da IA": toda aquisição vira sinal de poder, medo de ficar para trás e tentativa de bloquear concorrentes. E existe o viés geopolítico, que tende a amplificar qualquer ligação com China.

Investidores iniciais como Tencent, ZhenFund e HongShan (antiga Sequoia China) tiveram suas participações compradas. Além disso, a Manus encerrará todas as operações na China e demitirá ou realocará sua equipe baseada em Pequim.

A mudança para Singapura foi estratégica para distanciar a empresa das restrições de exportação dos EUA e do estigma associado a empresas de IA chinesas junto aos norte-americanos.

Analistas sugerem que essa "lavagem geopolítica" foi essencial para viabilizar a venda para uma gigante como a Meta, servindo como um estudo de caso para outras startups chinesas com ambições globais.

*Aline Sordili é jornalista e especialista em transformação digital, mídia e distribuição de conteúdo.

Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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