“Paulo, faça aquilo que você fez no Brasil. Melhore a venda, melhore o resultado. Mas mais do que isso: eu preciso que você integre as diferentes Espanhas.”
Demorei um tempo para entender o que ele queria dizer. Mas logo percebi. Cada filial, em cada cidade, tinha um jeito próprio. Não parecia a mesma empresa. E a operação espanhola liderava, de ponta-cabeça, o ranking mundial de clima organizacional da companhia. Era uma das piores do mundo.
Eu tinha acabado de chegar a um país que não era o meu, num idioma que ainda estava aprendendo, com uma equipe que não me conhecia e não tinha motivo nenhum para confiar em mim. Você chega cheio de planos e encontra olhares que dizem: “mais um que vai tentar mudar tudo e ir embora em dois anos.”
Decidimos fazer algo simples. Começamos a organizar encontros nos fins de semana para reunir os colaboradores. Eu viajava com Fanny Delgado, nossa diretora de RH (Recursos Humanos), para cada unidade. Chegávamos na quinta, ficávamos sexta e sábado. No sábado, fazíamos uma reunião com todos.
Um dia, pedi a Fanny que convidasse os familiares para a reunião.
Ela me olhou preocupada. “Você está preparado para o orçamento? Há muitas pessoas aqui que não são espanholas. A família mora fora do país.”
Ela tinha razão. Havia muitos venezuelanos, paraguaios, uruguaios, argentinos, peruanos. Gente que tinha cruzado o oceano para ganhar a vida na Espanha. Trazer as famílias era impossível.
Mas tivemos uma ideia. Pedi a Fanny que conseguisse vídeos desses familiares. Pedi que gravassem mensagens dizendo o que sentiam por aqueles trabalhadores que estavam tão longe de casa.
E assim ela fez.
No meio das reuniões, enquanto falávamos de despesa, produtividade, processo e custo de aquisição de cliente, a tela mudava. Aparecia um vídeo de alguém, de outro continente, falando sobre a pessoa que estava ali na sala.
Lembro-me de um rapaz venezuelano que não via a mãe havia três anos. Quando o rosto dela apareceu na tela, ele levantou-se da cadeira sem perceber. Ficou de pé, com as mãos na boca, chorando em silêncio. A sala inteira parou.
Tínhamos de interromper a reunião por cinco, dez minutos. As pessoas choravam, abraçavam-se. Gente que trabalhava lado a lado há anos e nunca tinha perguntado de onde o outro vinha.
Até que chegou a vez da filial de Barcelona.
Por alguma razão, Fanny não estava me mostrando os detalhes daquele encontro. Eu sempre gostei de me envolver em tudo, saber a música, quem ia falar. Mas ela desconversava.
No dia da reunião, eu estava sentado na primeira fileira. Ainda bem que estava sentado.
De repente, a tela mudou. E apareceu a dona Delfina.
Minha mãe. Costureira de mão cheia. Aquela mineira que mantinha o sotaque da roça com orgulho. Ela estava sentada na sala de casa, no Brasil, com meu pai e minhas irmãs.
Ela olhou para a câmera e disse que tinha muito orgulho de mim. Que estava com saudade. E então, pela primeira vez em 40 anos, ela disse três palavras que eu nunca tinha ouvido dela.
“Eu te amo.”
Eu me desmontei. Derreti ali mesmo, na frente de todo mundo. Fiquei 15 minutos abraçado com a Fanny e com os colaboradores. O Paulo de cinco anos antes teria morrido de vergonha. Naquele sábado, entendi que aquilo era exatamente o que aquela equipe precisava ver.
Naquele dia, em Barcelona, eu entendi qual era o meu verdadeiro papel ali. Não era integrar processos. Era integrar pessoas. Conhecer o nome, a história, o que cada um tinha deixado para trás.
Um ano e meio depois da minha chegada, a Iron Mountain da Espanha passou a liderar a pesquisa de clima organizacional no mundo. Virou exemplo mundial. E nos meus primeiros quatro anos de Iron Mountain, quadruplicamos o faturamento.
Naquele sábado, alguma coisa mudou naquela sala.
Gente que trabalhava junto há anos se olhou de um jeito diferente.
E eu também.
Porque, até ali, eu achava que estava lá para mudar um negócio.
Naquele dia, entendi que estava lá para muito mais.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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2 semanas atrás
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