2 semanas atrás 8

Minha mãe apareceu numa tela em Barcelona e mudou uma empresa inteira

“Paulo, faça aquilo que você fez no Brasil. Melhore a venda, melhore o resultado. Mas mais do que isso: eu preciso que você integre as diferentes Espanhas.”

Demorei um tempo para entender o que ele queria dizer. Mas logo percebi. Cada filial, em cada cidade, tinha um jeito próprio. Não parecia a mesma empresa. E a operação espanhola liderava, de ponta-cabeça, o ranking mundial de clima organizacional da companhia. Era uma das piores do mundo.

Eu tinha acabado de chegar a um país que não era o meu, num idioma que ainda estava aprendendo, com uma equipe que não me conhecia e não tinha motivo nenhum para confiar em mim. Você chega cheio de planos e encontra olhares que dizem: “mais um que vai tentar mudar tudo e ir embora em dois anos.”

Decidimos fazer algo simples. Começamos a organizar encontros nos fins de semana para reunir os colaboradores. Eu viajava com Fanny Delgado, nossa diretora de RH (Recursos Humanos), para cada unidade. Chegávamos na quinta, ficávamos sexta e sábado. No sábado, fazíamos uma reunião com todos.

Um dia, pedi a Fanny que convidasse os familiares para a reunião.

Ela me olhou preocupada. “Você está preparado para o orçamento? Há muitas pessoas aqui que não são espanholas. A família mora fora do país.”

Continua após a publicidade

Ela tinha razão. Havia muitos venezuelanos, paraguaios, uruguaios, argentinos, peruanos. Gente que tinha cruzado o oceano para ganhar a vida na Espanha. Trazer as famílias era impossível.

Mas tivemos uma ideia. Pedi a Fanny que conseguisse vídeos desses familiares. Pedi que gravassem mensagens dizendo o que sentiam por aqueles trabalhadores que estavam tão longe de casa.

E assim ela fez.

No meio das reuniões, enquanto falávamos de despesa, produtividade, processo e custo de aquisição de cliente, a tela mudava. Aparecia um vídeo de alguém, de outro continente, falando sobre a pessoa que estava ali na sala.

Lembro-me de um rapaz venezuelano que não via a mãe havia três anos. Quando o rosto dela apareceu na tela, ele levantou-se da cadeira sem perceber. Ficou de pé, com as mãos na boca, chorando em silêncio. A sala inteira parou.

Tínhamos de interromper a reunião por cinco, dez minutos. As pessoas choravam, abraçavam-se. Gente que trabalhava lado a lado há anos e nunca tinha perguntado de onde o outro vinha.

Continua após a publicidade

Até que chegou a vez da filial de Barcelona.

Por alguma razão, Fanny não estava me mostrando os detalhes daquele encontro. Eu sempre gostei de me envolver em tudo, saber a música, quem ia falar. Mas ela desconversava.

No dia da reunião, eu estava sentado na primeira fileira. Ainda bem que estava sentado.

De repente, a tela mudou. E apareceu a dona Delfina.

Minha mãe. Costureira de mão cheia. Aquela mineira que mantinha o sotaque da roça com orgulho. Ela estava sentada na sala de casa, no Brasil, com meu pai e minhas irmãs.

Ela olhou para a câmera e disse que tinha muito orgulho de mim. Que estava com saudade. E então, pela primeira vez em 40 anos, ela disse três palavras que eu nunca tinha ouvido dela.

Continua após a publicidade

“Eu te amo.”

Eu me desmontei. Derreti ali mesmo, na frente de todo mundo. Fiquei 15 minutos abraçado com a Fanny e com os colaboradores. O Paulo de cinco anos antes teria morrido de vergonha. Naquele sábado, entendi que aquilo era exatamente o que aquela equipe precisava ver.

Naquele dia, em Barcelona, eu entendi qual era o meu verdadeiro papel ali. Não era integrar processos. Era integrar pessoas. Conhecer o nome, a história, o que cada um tinha deixado para trás.

Um ano e meio depois da minha chegada, a Iron Mountain da Espanha passou a liderar a pesquisa de clima organizacional no mundo. Virou exemplo mundial. E nos meus primeiros quatro anos de Iron Mountain, quadruplicamos o faturamento.

Naquele sábado, alguma coisa mudou naquela sala.

Gente que trabalhava junto há anos se olhou de um jeito diferente.

Continua após a publicidade

E eu também.

Porque, até ali, eu achava que estava lá para mudar um negócio.

Naquele dia, entendi que estava lá para muito mais.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Leia o artigo inteiro

Do Twitter

Comentários

Aproveite ao máximo as notícias fazendo login
Entrar Registro