Uma visualização do aumento de preços mostrando uma mulher com um carrinho de compras cheio de alimentos subindo uma seta vermelha ascendente.

Legenda da foto, Os preços têm subido constantemente na Rússia desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia
    • Author, Olga Shamina
    • Author, Yaroslava Kiryukhina
    • Author, Sergei Kagermazov
    • Role, BBC News Russian
  • Há 21 minutos

  • Tempo de leitura: 6 min

"A vida está ficando mais cara", reclama Alexander, um publicitário que mora em Moscou e trabalha para uma grande empresa.

Em apenas um mês, seu orçamento mensal para alimentação aumentou mais de 22%, passando de 35 mil rublos (R$ 2,3 mil) para 43 mil rublos (R$ 2,9 mil).

Alexander (alteramos os nomes de todas as pessoas com quem conversamos para esta reportagem) observou que o preço de quase todos os itens essenciais subiu nos supermercados locais, de ovos e filés de frango a legumes da estação.

Até mesmo seu luxo diário a caminho do trabalho — um café americano de uma cafeteria local — teve um aumento repentino de 26%, passando de 230 para 290 rublos (R$ 15 para quase R$ 20).

Uma mulher com um casaco de inverno vermelho e um cachorrinho na coleira caminham em direção à seção de frutas do supermercado.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Os russos notaram um aumento acentuado nos preços dos alimentos desde o início do ano

Os preços vêm subindo constantemente na Rússia desde o início da invasão da Ucrânia, impulsionados por um orçamento federal dominado pelo esforço de guerra e pela indústria de defesa.

Até agora, os altos níveis de inflação haviam passado praticamente despercebidos pela população em geral, especialmente nas grandes cidades como Moscou e São Petersburgo. Os grandes gastos mascararam as crescentes consequências econômicas da guerra, bem como as sanções ocidentais e o êxodo de investimentos estrangeiros da Rússia.

Mas esse rápido crescimento econômico desacelerou drasticamente em 2025 e, como os salários não conseguiam mais acompanhar a inflação, o aumento dos preços começou a afetar o bolso das pessoas.

No início deste ano, os preços dos supermercados subiram 2,3% em menos de um mês, de acordo com dados do órgão de estatísticas russo Rosstat.

Tudo ficou mais caro em 2026: carne, leite, sal, farinha, batatas, macarrão, bananas, sabonete, pasta de dente, meias, detergente para roupa e muitos medicamentos.

Cesta básica média

A cada dois anos, desde 2019, a BBC compra uma seleção de 59 produtos básicos na mesma rede de supermercados, Pyaterochka, em Moscou. A cesta inclui legumes, frutas, laticínios, carnes, enlatados, macarrão instantâneo, doces e bebidas, incluindo cerveja.

Em 2024, a cesta custou 7.358 rublos (R$ 502). No mês passado, custou 8.724 rublos (R$ 596) — um aumento de 18,6%.

Isso coincide com a própria medição de 18,1% da Rosstat para a inflação acumulada de alimentos de janeiro de 2024 até o final de janeiro de 2026.

Um dos aumentos de preços mais notáveis em nossa cesta foi a alta de quase 15% no custo de frutas e verduras desde 2024.

A Rússia depende da importação de frutas e verduras. Por isso, os preços nas lojas são altamente sensíveis às flutuações na taxa de câmbio do rublo e às interrupções na cadeia de suprimentos. As duas coisas aconteceram após o início da guerra na Ucrânia.

Ao mesmo tempo, o preço dos laticínios — que tendem a ser produzidos localmente — subiu 41%, o maior aumento em nossa cesta selecionada nos últimos dois anos. Isso ocorre porque a indústria de laticínios da Rússia foi afetada pelo aumento dos custos agrícolas, empréstimos caros e escassez de mão de obra.

Aumento de impostos e mudança de hábitos

O fator mais recente que influencia o aumento dos preços é a subida de dois pontos percentuais no imposto sobre o valor agregado — de 20% para 22% — desde 1º de janeiro.

O aumento do imposto está diretamente relacionado à guerra na Ucrânia, já que o Ministério das Finanças da Rússia afirmou que ele é necessário para financiar a "defesa e segurança" do país.

Homem fazendo compras em supermercado

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Legenda da foto, Os laticínios registraram o maior aumento de preços na cesta de compras da BBC nos últimos dois anos

Enquanto Alexander, de Moscou, disse à BBC que não iria mudar seus hábitos alimentares, outros afirmam que o aumento dos preços dos alimentos afetou significativamente suas dietas e orçamentos familiares.

Nadezhda, de 68 anos, diz que não pode mais comprar carne bovina e passou a consumir variedades baratas de peixe.

Ela e o marido, ambos aposentados, moram em Moscou com suas aposentadorias estatais e alguma renda extra. Nadezhda diz que toda a sua aposentadoria mensal, de quase 32 mil rublos (R$ 2,1 mil), agora é gasta com comida.

Isso significa que outras despesas foram adiadas.

Eles estavam economizando para consertar o carro, mas recentemente tiveram que recorrer à poupança para comprar comida. Da mesma forma, a compra de uma jaqueta de inverno nova para o marido de Nadezhda, que custaria cerca de 17 mil rublos (R$ 1,1 mil), terá que esperar até o ano que vem.

Kristina, uma especialista em marketing de Moscou, na faixa dos 40 anos, também teve que usar suas economias para comprar comida no mês passado. Ela mora com o marido, que é personal trainer, e diz que começou a prestar atenção aos descontos e percebeu que outras pessoas nos supermercados também estão fazendo o mesmo.

"Agora, adoto uma abordagem mais pragmática: não me preocupo com o que quero ou não quero comer, mas sim com a quantidade de proteína em 100 gramas dos produtos", diz Kristina.

Ela e o marido não têm mais condições de comer fora, mas mesmo cozinhando em casa, o preço de um jantar para dois praticamente dobrou — de cerca de mil rublos (R$ 68) para mais de 2 mil rublos (R$ 136).

No verão de 2025, a presidente do Banco Central da Rússia, Elvira Nabiullina, afirmou que a economia estava próxima de um "cenário de taxas de crescimento econômico equilibradas".

No entanto, alguns economistas sugerem que, após uma desaceleração significativa no ano passado, a economia russa agora corre o risco de entrar no vermelho.

Um dos principais riscos deste ano virá do mercado de petróleo.

O orçamento federal é baseado em um preço alto do petróleo, mas as cotações de mercado caíram desde o início do ano e não há expectativa de qualquer aumento iminente.

As vendas de petróleo russo também foram afetadas pelas mais recentes sanções dos EUA, que cortaram o fornecimento para um dos principais parceiros comerciais de Moscou, a Índia.

Como resultado, as autoridades russas provavelmente enfrentarão um déficit orçamentário maior do que o planejado.

O presidente russo Vladimir Putin cumprimenta o primeiro-ministro indiano Narendra Modi com um aperto de mãos

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Legenda da foto, Apesar da visita do presidente russo Vladimir Putin à Índia em dezembro do ano passado, as importações indianas de petróleo bruto russo caíram desde o início de 2026 devido à pressão dos EUA

Obter empréstimos é difícil devido às altas taxas de juros — poucos estão dispostos a emprestar para um país que atualmente está em guerra e com reputação de ser pouco confiável.

Isso pode significar medidas ainda mais impopulares — seja um aumento de impostos, que prejudicaria pessoas e empresas, ou cortes nos gastos públicos, principalmente no setor público. Isso desaceleraria a economia e reduziria ainda mais a renda das famílias.

"No geral, há uma tendência de estagnação e uma possível queda no PIB", disse Tatiana Mikhailova, economista e professora assistente visitante da Universidade Estadual da Pensilvânia, à BBC.

Por enquanto, nada indica que a economia esteja em declínio, mas ela acredita que há uma grande probabilidade de isso acontecer.

"Toda vez que os preços do petróleo caem, uma recessão é possível na Rússia", diz ela, mesmo acreditando que a economia possa continuar sem crescimento por algum tempo.

Isso pode ser pouco consolo para os consumidores russos, que ainda sentirão os efeitos em seus bolsos.